Vaticano: “portas abertas” do departamento que trabalha por direitos dos funcionários

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O presidente Marco Sprizzi ilustra em detalhes a atuação da ULSA, o Escritório do Trabalho da Sé Apostólica. E comenta uma recente pesquisa, realizada pela Associação de Funcionários Leigos do Vaticano, que denuncia descontentamento e comportamentos inadequados: “não me parece que o descontentamento seja generalizado. As portas do Escritório estão sempre abertas; a Santa Sé não pode tolerar situações de iniquidade ou tirania”. Assédio ética: “não tenho conhecimento de casos”.

Salvatore Cernuzio – Vatican News

colóquio, escuta, colaboração, em vez de conflito, competição e reivindicação. São essas as linhas de ação seguidas pela ULSA, o Escritório do Trabalho da Sé Apostólica, em sua relação com os funcionários do Vaticano e com os outros Órgãos e Dicastérios da Santa Sé. Um departamento com “portas sempre abertas”, como afirma o presidente, monsenhor Marco Sprizzi, que comenta e oferece esclarecimentos também sobre a recente pesquisa da ADLV (Associação de Funcionários Leigos do Vaticano), na qual cerca de 250 dos mais de 6 mil funcionários – incluindo também os aposentados – denunciam situações de mal-estar, injustiças e desconfiança dentro da comunidade de trabalho do Vaticano.

O Papa aprovou em dezembro o novo Estatuto da ULSA, no qual se pode ler a atenção especial do Pontífice pelo mundo do trabalho. O que significa esee novo estatuto para quem trabalha hoje no Vaticano e que mudanças trouxe até agora?

Sem dúvida, é um sinal da grande atenção do Santo Padre pela aplicação da Doutrina Social da Igreja dentro da Santa Sé e em relação a todos os funcionários da Cúria Romana, das entidades ligadas a ela, do Governatorato Vaticano e do Vicariato de Roma. As mudanças introduzidas são importantes, não vou enumerá-las todas, mas gostaria de salientar que foi reforçada ainda mais a representatividade e a missão do Escritório do Trabalho como missão de unidade e promoção, de acordo com a visão de João Paulo II e dos Pontífices que se seguiram. Unidade significa remar todos na mesma direção, sentir-nos corresponsáveis e participantes da missão da Santa Sé, o que não significa de forma alguma diminuir as proteções dos trabalhadores, mas promovê-las e persegui-las num espírito de colóquio e confiança mútua.

Uma pesquisa recente realizada pela ADLV revela um clima de insatisfação e denúncias de comportamentos inadequados nos locais de trabalho do Vaticano. Como o senhor comenta isso?

Também tomei conhecimento da pesquisa. Tecnicamente, trata-se de uma pesquisa realizada com uma amostra muito pequena, pois envolve menos de 5% dos funcionários. De qualquer forma, levamos a sério todas as opiniões, mesmo que seja a opinião de um único funcionário que reclame de uma situação de pouca atenção, pouco colóquio, pouco respeito pelas normas. As portas do Escritório do Trabalho estão sempre abertas, porque somos, como disse João Paulo II, uma estrutura de colóquio e, portanto, à escuta de todos. Trabalhamos para que não haja situações em que os direitos dos funcionários sejam de alguma forma desrespeitados ou violados e, ao mesmo tempo, nos empenhamos muito na formação para promover a consciência da participação na única missão e na melhoria das competências. Portanto, encaramos a pesquisa com seriedade e respeito. Com a ADLV, temos – como eles mesmos dizem – diálogos construtivos e frequentes e levamos a sério todas as denúncias. Nossa tarefa é aprofundá-las e analisá-las à luz do direito e da Doutrina Social da Igreja e inseri-las no colóquio com as administrações envolvidas, também através da criação de mesas técnicas e comissões ad hoc, de modo a verificar possíveis soluções no interesse de todos: dos funcionários, mas também da Santa Sé, que não pode aceitar situações de iniquidade ou tirania. Por isso, acolhemos esses resultados e queremos verificá-los em casos concretos e na melhoria das normas. Levamos a sério essa missão que interpela a nossa consciência de cristãos e sacerdotes. A ADLV sabe disso muito bem.

71% dos entrevistados indicaram a ADLV como interlocutora em caso de problemas no trabalho, em comparação com 10% que se dirigiriam à ULSA. Esse dado é real?

Recebemos diariamente dezenas de casos, os funcionários recorrem a nós constantemente, assim como as administrações. Graças a Deus, não nos falta trabalho. Leio na declaração da Associação que cerca de 80% dos que responderam à pesquisa são membros da ADLV, enquanto apenas 71% deles recorrem à própria ADLV, portanto, na realidade, nem todos os membros recorrem em primeiro lugar à sua Associação… Mas não nos colocamos numa perspectiva de competição, a ADLV desempenha um papel relevante e construtivo e nós a incentivamos, promovemos e agradecemos à Associação pelo que faz. Continuaremos a acolher e apoiar todas as necessidades, instâncias e solicitações, à luz das normas e da Doutrina Social, se consideradas adequadas e correspondentes às necessidades de justiça. Gostaria de acrescentar que os chefes do Dicastério, os responsáveis do Governatorato e todos aqueles a quem apresentamos estas instâncias são sensíveis e abertos ao colóquio. Também realizamos mesas técnicas nas quais foram reunidos os dirigentes do Dicastério interessado com os representantes da ADLV aqui na nossa sede e com a nossa mediação. E continuaremos neste caminho do colóquio e da busca comum de soluções possíveis e justas.

É preciso seguir adiante neste caminho. O caminho da antítese e do conflito está excluído da visão dos Papas e da abordagem missionária da Santa Sé. Quem trabalha na Santa Sé abraça uma missão: não há espaço para conflitos, mas somos como uma orquestra em que cada instrumento deve tocar de acordo com suas especificidades. A voz dos funcionários pode e deve contribuir para a composição de uma música, uma harmonia, na qual suas solicitações encontram escuta respeitosa e resposta. Essa é a nossa missão diária. Mesmo que às vezes de maneiras diferentes, vejo por parte de todos a atenção para dar respostas. Por outro lado, também é verdade que quem controla as contas e verifica as necessidades de sustentabilidade econômica às vezes dá respostas que podem retardar o caminho das soluções. Faz parte das regras do jogo que quem supervisiona as contas às vezes imponha “limites”. No entanto, isso não deve nos bloquear, mas estimular a achar soluções criativas, inclusive para a obtenção de fundos.

De onde vem, então, o descontentamento mencionado na pesquisa?

Com base na experiência adquirida em vários encontros com os funcionários, não acredito que se trate de um descontentamento generalizado. Acredito que o sentimento mais difundido seja bastante positivo. Não nos esqueçamos de que, enquanto em todo o mundo e na Itália, tanto no setor público quanto no privado, muitos perderam seus empregos quando eclodiu a pandemia da Covid-19, na Santa Sé, mesmo raspando o fundo do poço, ninguém foi demitido e ninguém teve seu salário reduzido. Os funcionários sabem disso e sentem gratidão, acima de tudo, ao Papa Francisco, que se empenhou para que a pandemia, que reduziu fortemente os recursos econômicos da Santa Sé, não recaísse sobre eles. Mas há também muitas outras pequenas coisas do dia a dia: a creche, a colônia de férias, a reabertura da Annona, os recentes rescritos de Leão XIV sobre a verdadeira acessibilidade das pessoas com deficiência na comunidade de trabalho, a atenção às pensões (apesar de os recursos nem sempre serem tão abundantes), o reforço do sistema de saúde praticamente gratuito. Em suma, muitas coisas pelas quais muitos querem trabalhar no Vaticano, porque percebem que o tratamento é bom. Não creio, portanto, que haja descontentamento em geral, mas reconhecemos que há coisas que devem ser absolutamente atendidas e melhoradas, por exemplo, na adequação dos níveis salariais às funções desempenhadas. Em alguns casos, mesmo em situações anteriores ou devido ao bloqueio de recursos ou para que ninguém perdesse o emprego, não foram feitas as adaptações necessárias. Estamos trabalhando nisso para fazer justiça a quem tem direito.

Também se menciona o assédio ética…

Pessoalmente, não tenho conhecimento de nenhum caso de assédio ética. Certamente existem formas de proteção previstas pela lei para denunciar e recorrer contra medidas que violem os direitos. Se houver casos de assédio ética ou abuso, eles certamente devem ser denunciados, porque as exigências da justiça ética no mundo do trabalho são prioritárias desde a Rerum Novarum de Leão XIII. No entanto, uma coisa são os rumores e outra é a verificação da verdade. Certamente, se houvesse casos de abusos, mesmo que inferiores ao assédio ética propriamente dito, o primeiro a intervir seria o Santo Padre, porque isso não pode e não deve acontecer.

Na mesma pesquisa, destacam-se, no entanto, alguns sinais positivos, como a abertura de um caminho compartilhado de colóquio…

É o que mencionei há pouco. Somos estimulados pelos Papas a promover o espírito de comunidade, de unidade, o espírito que hoje chamaríamos de “sinodalidade” dentro de toda a Igreja e, em particular, da Sé Apostólica. Comprometemo-nos, na medida do possível, a aumentar cada vez mais o colóquio com os funcionários, individuais e associados, e com todas as entidades que empregam recursos, e também a servir de ponte para que esse colóquio entre trabalhadores e administrações seja cada vez mais construtivo, sereno, orientado à luz do Evangelho e do Magistério social da Igreja, em espírito de comunhão eclesial e no respeito pelos direitos dos trabalhadores.

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