O arcebispo, secretário do Dicastério para a Promoção da Unidade dos Cristãos, falando à mídia vaticana, reflete sobre a Semana de Oração que se conclui no próximo domingo e sobre os frutos do colóquio entre os fiéis em Cristo. Lembramos que a Igreja no Brasil celebra a “Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos” entre o Domingo de Pentecostes e o Domingo da Ascensão, este ano, entre os dias 17 e 24 de maio
Vatican News
“O ecumenismo é a experiência na qual nos redescobrimos como irmãos e amigos, partindo da experiência de Jesus.” Assim, em declarações à mídia vaticana, o arcebispo Flavio Pace, secretário do Dicastério para a Promoção da Unidade dos Cristãos, descreve o colóquio entre os fiéis em Cristo por ocasião da Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos, que se conclui este domingo, 25 de janeiro. Este é um dos mais importantes eventos ecumênicos anuais, que este ano coincidiu com a escolha “providencial” do Papa Leão XIV de meditar sobre a Dei Verbum, como parte de sua catequese de quarta-feira sobre o Concílio Vaticano II. A coincidência com a Semana atual é significativa: o Concílio, de fato, apresentou aos fiéis “a experiência da revelação divina numa progressão”. “A Dei Verbum é, de certa forma, a finalização da Dei Filius do Concílio Vaticano I”, explica o arcebispo, “onde o foco era, de fato, nessas verdades intelectuais”. “A Dei Verbum completa e situa essa verdade na dimensão relacional.” O próprio Deus fala aos homens como amigos, como na experiência de Moisés e como fica evidente nas palavras de Jesus no Evangelho de João: “Eu vos chamei amigos”.
O caminho da unidade
A revelação, porém, não é assunto para teólogos. Em seu centro está “a concretude da experiência humana de Jesus, da verdade, do seu olhar sobre os homens do seu tempo, sobre as mulheres, sobre as situações, sobre o trabalho, sobre o sofrimento, sobre a doença física”, continua o arcebispo Pace. “Essa é a experiência na qual Deus se faz carne, se revela. E assim, a carne de Jesus é crucial para o encontro com a experiência do Deus cristão.” Um encontro que une os fiéis, para os quais é necessário fortalecer a oração pela plena unidade visível, como pediu o Papa Leão XIV no último domingo, durante o Angelus. “Plena unidade, porque o Batismo é certamente o fundamento”, explica o secretário do Dicastério para a Promoção da Unidade dos Cristãos. “Mas ao longo da história, nos cismas do Oriente e Ocidente, nas várias fraturas, mesmo no seio de nossos parceiros ecumênicos, essa unidade do Batismo não dá origem, de fato, a uma plena comunhão.” A esperança é que “o caminho para a plena comunhão” possa também “sentar-se à única mesa de Cristo”. Um caminho de colóquio teológico que “se faz de mãos dadas com uma oração comum e um dom”: o do Evangelho.
A Experiência do ecumenismo
“A experiência do ecumenismo é, em pequena escala, uma experiência de colóquio também em outras frentes.” O colóquio se torna “estar frente a frente com o outro, finalmente desarmado, para poder ouvir o dom do Espírito que é o outro e juntos rezar para que este caminho se torne cada vez mais um caminho de plena partilha.” Nesse trajeto, a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos é um momento fundamental, que as comunidades ao redor do mundo são chamadas a vivenciar através das reflexões preparadas este ano pela Igreja Apostólica Armênia.
Basílica de São Paulo Fora dos Muros
A Semana se encerrará este domingo, 25 de janeiro, com a recitação das Vésperas na Basílica de São Paulo Fora dos Muros, presidida pelo Papa Leão. Uma basílica que o Santo Padre, como recorda o arcebispo Pace, já visitou não apenas para a sua posse após a eleição, mas também em 14 de setembro passado para a comemoração dos mártires que testemunharam a fé, uma comemoração ecumênica. É também a basílica que “recebeu a visita do Rei Charles em outubro passado e a concessão do título de confraria, tornando-a uma basílica que, em todo caso, está ligada ao ecumenismo”. É também o local onde Paulo VI doou seu anel episcopal em 1966 a Michael Ramsey, arcebispo de Canterbury. “É também a basílica do Concílio, onde o Vaticano II foi anunciado, mas é também o lugar onde redescobrimos, na experiência de Paulo, que estamos em dívida com o Evangelho e, portanto, retornando juntos à escola do Evangelho, vivemos e pedimos para ser evangelizadores como Paulo, mas porque somos habitados por este sopro do Espírito.”
Os Frutos de Niceia
O 1700º aniversário do Concílio de Niceia foi recentemente celebrado, um evento que, segundo dom Pace, resultou na “oportunidade não só de comemorar o símbolo da fé, mas também no desejo de olhar juntos para o porvir”. Além da oração pública, o encontro “vamos chamá-lo de Pentecostes” foi significativo. “Aquele encontro a portas fechadas na Igreja Ortodoxa Siríaca em Istambul, onde o Santo Padre e outros líderes se ouviram em mesa-redonda durante duas horas.” É um momento histórico do qual não há relatos, mas “o que parece que entendi é que prometeram um ao outro que não seria o último momento desse tipo”, observa ele.
Rumo a Augsburg
Outra comemoração ecumênica está prevista para 2030, marcando o 500º aniversário da Dieta de Augsburgo e da Confissão Augustana. “Após a crise com Martinho Lutero, houve uma tentativa de achar um terreno comum, uma profissão de fé comum, dentro dos países que hoje chamamos de Reformados”, explica o arcebispo. “É relevante comemorar esse texto” para redescobrir uma base comum e, ao mesmo tempo, “redescobrir algo mais para o nosso presente”. Esta é, portanto, uma comemoração histórica que também se encaixa em 2030, ano em que o início da vida pública de Jesus, seu Batismo e o Sermão da Montanha, completará 2.000 anos. Há também muitas iniciativas ecumênicas transversais que buscam se concentrar neste tema, com experiências também originárias da Terra Santa, por exemplo, uma leitura comum do Sermão da Montanha. Portanto, espero — observa Pace — que este aniversário seja um ano frutífero, não apenas para o aspecto com os luteranos, mas também para outros temas ecumênicos.
Aquele que é o fundamento da unidade
No contexto atual de divisão, entre aqueles que trabalham para construir pontes de colóquio está certamente o Papa Leão XIV, “um homem de escuta, capaz de reavivar com poucas palavras a possibilidade de um caminho “. Seu compromisso também se reflete na história de Agostinho e em seu lema, “In Illo uno unum”. “Isso – conclui dom Flavio Pace – é também uma lembrança para nós, porque onde o ecumenismo se torna uma espécie de estratégia não geopolítica, mas geoeclesiástica, está fadado ao fracasso. Se, no entanto, for algo que nos ajude a redescobrir aquele que é o fundamento da unidade, então se torna uma promessa para o porvir.”

