Na colina mais alta de Óstia, a paróquia que recebe o Papa Leão

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Na igreja Santa Maria Regina Pacis, instituída por Bento XV para conjurar a guerra, Leão XIV fará a primeira das cinco visitas previstas para os domingos antes da Páscoa. Zona popular, marcada por carências e criminalidade, mas habitada por “gente de boa vontade”, o Pontífice encontrará a comunidade local. O pároco, padre Giovanni, afirma: “Somos uma paróquia viva em um território difícil. Óstia é muito mais, não é aquela que a mídia retrata. Gostaríamos de destacar o que há de bonito”.

Salvatore Cernuzio – Óstia

As ondas do Mar Tirreno refletem a cúpula de 42 metros — aquela que, projetada pelo arquiteto Guido Magni nos primeiros anos do século XX, os habitantes de Óstia chamam de “il cupolone”. A paróquia de Nossa Senhora Regina Pacis, que completará um século em dois anos, com seus vitrais dedicados a Santo Agostinho e a São Vicente Pallotti, ergue-se sobre a duna mais alta do bairro Lido di Ostia Levante. Neste território, a 26ª Prefeitura da Diocese de Roma, onde a arqueologia se entrelaça com a história, e a história com a atualidade das crônicas criminais e do resgate social das pessoas, a igreja desejada por Bento XV para conjurar a primeira Guerra mundial, representa mais do que um lugar sagrado.

É uma joia arquitetônica em estilo neoclássico, um ponto de encontro entre celebrações e atividades sociais, um espaço amado pelos habitantes de Óstia Lido e também pelos Papas. De João XXIII em 1963 a Paulo VI em 1968, depois João Paulo II em 1980 e Francisco, que a visitou em 2015 para achar a comunidade local e também os trabalhadores do parque de diversões vizinho, quase todos os últimos Pontífices fizeram uma parada na Regina Pacis. Agora é a vez de Leão XIV, que em 15 de fevereiro inicia aqui seu roteiro de visitas pastorais em cinco paróquias romanas — uma para cada setor da Diocese — ao longo dos domingos que precedem a Páscoa.

Nas pegadas de Santo Agostinho e Santa Mônica

A escolha de Óstia não foi por acaso para o Pontífice agostiniano que, na cidade a cerca de 30 km de Roma, esteve tantas vezes seguindo as pegadas do santo de Hipona — pai da ordem religiosa à qual pertence — e de sua mãe Mônica, que concluiu sua vida terrena nas proximidades da paróquia de Santa Áurea e a ela foram dedicadas estátuas, igrejas e clínicas. “Óstia é realmente um porto relevante na história do mundo, da Igreja, da história de Santo Agostinho e de Santa Mônica”, disse o próprio Leão aos jovens do navio Bel Espoir, encontrados justamente no litoral de Óstia.

Uma comunidade paroquial diversificada

Neste domingo o Pontífice visitará a Igreja Regina Pacis, templo cujos fundamentos para a construção foram lançados justamente pelos agostinianos, sendo posteriormente confiado aos palotinos, que completaram a obra e agora guiam a comunidade paroquial. Uma comunidade paroquial diversificada. Na agenda do Papa vários encontros: com as crianças, com os jovens de grupos de convivência eclesiais e de outros âmbitos, com os doentes e idosos, com os pobres – tanto migrantes quanto muitas famílias italianas – acolhidos todos os dias para o almoço, com voluntários da Cáritas e moradores das redondezas.

O pároco de Óstia à espera do Papa

A notícia da chegada do Papa foi comunicada pelo pároco, padre Giovanni Patané, convocado semanas antes ao Vicariato de Roma pelo cardeal Baldo Reina, junto aos outros quatro párocos. “Fomos avisados de uma convocação no Vicariato… Quando recebemos o telefonema, ficamos um pouco surpresos porque achamos que tínhamos feito algo errado; em vez disso, o anúncio do vigário nos deu uma grande felicidade”, conta o sacerdote à mídia do Vaticano. Os paroquianos e o Conselho Pastoral souberam logo em seguida: “Todos ficaram contentes e a notícia repercutiu imediatamente nas redes sociais”.

Ingressos por sorteio para acolher a todos

Nestes dias, nos ambientes externos e internos da paróquia, há um vaivém de reformas, limpezas e montagens. Mas, acima de tudo, aguarda-se a chegada do Papa “com a oração”, garante o padre Giovanni. “Estamos nos preparando para acolher o nosso bispo, o nosso pastor, porque é verdade que o Papa vem, mas para nós ele é também o nosso bispo diocesano. Estamos planejando um momento especial para os idosos e os enfermos; depois, naturalmente, a celebração eucarística na Igreja e, logo em seguida, a saudação aos fiéis que terão que ficar do lado de fora”. De fato, a nave central pode acomodar cerca de 400 pessoas. Considerando a presença de autoridades civis e militares, pensou-se em distribuir os ingressos por meio de sorteio: “Assim não haverá preferências e qualquer pessoa poderá ter a chance de participar da celebração”, explica o padre. Enquanto isso, no adro da igreja, estão sendo instalados telões e cadeiras: “Há uma praça muito grande com uma belíssima perspectiva de uma rua que leva direto ao mar”.

Animação juvenil

Entre os vários momentos da visita de Leão XIV à Nossa Senhora Regina Pacis, está previsto também o encontro com quase 300 crianças da Catequese que se preparam para a Primeira Comunhão e a Crisma; depois, o encontro com centenas de jovens do oratório, Escoteiros, Caminho Neocatecumenal e outros grupos: “Muitos, muitos jovens. Esta é uma das periferias mais jovens de Roma, há uma grande animação juvenil”.

Um dado nada óbvio para uma zona popular onde, afirma o pároco, “vive-se situações sociais muito controversas”. “Talvez sejamos a periferia mais distante da Diocese”, explica ainda Patané. “Quando o Papa Francisco veio em 2015, exclamou: ‘Mas esta ainda é a minha Diocese?’, brincando sobre a distância que percorreu para chegar a Óstia. Somos uma periferia complexa, belíssima, mas também com zonas de sombra; por isso, além da grande maioria dos cidadãos — pessoas boas, pessoas de boa vontade — há um lado ligado à criminalidade, especialmente às drogas e à prostituição”.

Zonas de sombra, mas também muita boa vontade

Todos esses são desafios que se busca enfrentar juntos. “As forças de segurança estão fazendo um trabalho incrível desse ponto de vista”, ressalta o sacerdote. “Colaboramos muitíssimo com eles porque estamos convencidos de que a parceria entre instituições civis e religiosas pode fazer com que este território se destaque ainda mais pela sua beleza, e não apenas pelas notícias ruins”. O próprio padre Giovanni faz parte de uma comissão que inclui religiosos e sacerdotes de Roma: “Criada no ano passado para monitorar as ‘zonas críticas’ da Diocese, em colaboração com a Comissão Parlamentar para as Periferias”.

Uma versão diferente para Óstia

“Somos uma paróquia viva, mas uma paróquia dentro de uma periferia com muitos problemas, em um território que vive, infelizmente, situações de vulnerabilidade e carência”, diz o pároco. Que, porém, faz questão de enfatizar: “Óstia não é apenas isso; há também muito bem e, em vez de julgar, como ocorre frequentemente, seria necessário amar um pouco mais este território… Sim, aos problemas sociais, as drogas, a prostituição existem, não podemos negar, mas nem toda Óstia é assim. É uma parte! É aquela mancha preta em um quadro branco que se destaca imediatamente, mas não deixa de ser apenas uma mancha. Por isso queremos contribuir para uma versão diferente daquela da mídia, do cinema ou de tantos relatos sobre Óstia, começando justamente por esta igreja. Uma igreja bela”.

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