Os russos sempre viveram na tensão da dvoeverie, a “dupla fé” cristã e pagã, que ressurge nas devoções e práticas litúrgicas, mas sobretudo nas atitudes do povo perante os grandes desafios da vida. Este fenómeno é generalizado entre os soldados enviados para a Ucrânia, que depositam as suas esperanças de vitória em espíritos sombrios em vez de mísseis e drones.
Pe. Stefano Caprio*
Na Academia Teológica Sretenskajaa, em Moscou, teve lugar a 5ª Conferência científico-teológica de”Estudos de Seitas”, com a participação de palestrantes de nível internacional, sobre o tema “Paganismo eslavo e neopaganismo russo”, organizada pela Academia e pela Comissão “para a reabilitação de ressoas que abandonaram a Ortodoxia”, juntamente com outros órgãos do Patriarcado de Moscou. A primeira conferência sobre esses temas ocorreu em 2023, motivada pelo fenômeno generalizado de práticas ocultistas e idólatras entre soldados russos enviados à Ucrânia para a operação militar especial, e que depositam as esperanças de vitória aos espíritos malignos, em vez de mísseis e drones, ignorando os santos ortodoxos.
A conferência, realizada presencialmente e on-line, contou com a presença de numerosos pesquisadores de diversas faculdades teológicas ortodoxas da Rússia e de universidades estatais e privadas de várias regiões da Federação Russa e da Grécia. O discurso de abertura foi proferido por Roman Šiženskij, filósofo do Centro de Estudos de Religiões e Política Étnica da Universidade estatal Lgu “Puškin” de São Petersburgo, sobre o tema “O paganismo russo na Svo: tradições e inovações”, aprofundado na sequência pela palerstra do teólogo Roman Kon sobre “Temática de etnia e de patriotismo na Ortodoxia e nas religiões nativas”.
A questão do neopaganismo voltou à tona devido à sua ligação com as operações militares, evidenciando uma deriva paganizada da “religião bélica”, à qual o próprio Patriarcado Ortodoxo atribuiu particular importância. Trata-se, na realidade, de uma dimensão que remonta às origens do cristianismo da Rus’, quando o batismo imposto pelo príncipe Vladimir ao povo de Kiev foi celebrado com a imersão nas águas do rio Dnieper, após ter lançado nele todos os ídolos pagãos. De certa forma, o fluxo das religiões antigas e daquelas novas se misturou na alma dos russos, que sempre viveram na tensão da dvoeverie, a “dupla fé” do cristianismo e do paganismo. Isso ressurge não apenas nas devoções e práticas litúrgicas, mas sobretudo nas atitudes do povo diante das grandes dificuldades da vida, as carestias e os desastres naturais, e nos inúmeros conflitos internos e externos com as invasões e as agressões dos (aos) povos vizinhos.
A obra-prima literária da Rus’ de Kiev é, de fato, “A Canção do Exército de Igor”, que narra a campanha malfadada do filho do príncipe Sviatoslav contra os nômades das estepes em 1185, uma última tentativa de proteger o território de inimigos externos, algumas décadas antes da invasão das hordas tártaro-mongóis. O poema é narrado pelo “vidente Boyan”, que em seus pensamentos vagava até o topo de uma árvore, um lobo cinzento no chão, uma águia cerúlea sob as nuvens. Além de esplêndidas descrições da natureza, flora e fauna, o vidente incita os filhos da Rus’ a quebrar a lança na fronteira do acampamento cumano, inspirando-se em Boyan, um rouxinol dos tempos antigos e neto de Veles, um dos antigos deuses de quem deriva o termo Vlas, o “poder” na raiz do nome Vladi-mir, “Poder sobre o mundo”, o mais popular desde o primeiro príncipe até o último czar.
Nel cantico si presentano tutti gli idoli di origine scandinava, asiatica e caucasica, Div si riscosse e intimò di tendere l’orecchio a Surož e Korsun, e a te Idolo di Tmitorokan, per sostenere l’assalto dell’esercito di Dažd’bog e di una serie di altri personaggi mitici fino al grande Chors e al Perun, il dio della guerra affondato duecento anni prima nel Dnepr, ma che continuamente risorge per “ridestare la contesa”. Il principe Igor dovette soccombere nella battaglia con i Polovcy venuti dalle terre asiatiche, e l’afflizione s’effuse per la terra russa. Solo allora entra in scena il cristianesimo, prima con le lodi straniere per cui Tedeschi e Veneziani, Greci e Moravi cantano inni di gloria a Svjatoslav e compiangono il principe Igor, finché solo all’epilogo per lui a Polotsk suonarono per il mattutino di buon’ora le campane di Santa Sofia, ed egli a Kiev udì il suono, anche se un’anima di un mago aveva in quel doppio corpo. L’epopea si conclude dunque con un trionfo morale, nonostante la sconfitta: Il sole splende in cielo, il principe Igor è nella terra russa e sale alla Santa Madre di Dio della Torre. Salute ai principi e alla družina che si sono battuti per i Cristiani contro le schiere pagane!
Na canção apresentam-se todos os ídolos de origem escandinava, asiática e caucasiana. Div se animou e os incitou a ouvir Surož e Korsun, e a ti, Ídolo de Tmitorokan, para apoiar o ataque do exército de Dažd’bog e de uma série de outros personagens míticos até o grande Chors e ao Perun, o deus da guerra que afundou duzentos anos antes no Dnieper, mas que continuamente ressurge para “reacender a contenda”. O príncipe Igor foi derrotado em batalha pelos polovtsianos que vieram da Ásia, e a aflição se espalhou por toda a Rússia. Somente então o cristianismo entra em cena, primeiro com louvores estrangeiros, com os Alemães e Venezianos, Gregos e Morávios cantando hinos de grandeza a Sviatoslav e lamentando o príncipe Igor, até que somente no epílogo os sinos de Santa Sofia tocaram cedo para ele em Polotsk para as matinas, e ele ouviu o som em Kiev, mesmo que a alma de um mago estivesse naquele corpo duplo. Assim, a epopeia conclui com um triunfo ética, apesar da derrota: o sol brilha no céu, o príncipe Igor está em terras russas e ascende à Santa Mãe de Deus da Torre. Salve os príncipes e a druzhina que lutaram pelos cristãos contra as hostes pagãs!
Oggi la sensazione della gloriosa sconfitta si ripete nella guerra in Ucraina, dove la Russia sacrifica centinaia di migliaia di vite umane senza di fatto realizzare alcuna vera conquista, ma proclamando la grande vittoria dei “valori tradizionali” contro la depravazione dei pagani occidentali. Dopo l’anno 2025, dedicato alla celebrazione degli 80 anni della Vittoria nella Grande Guerra Patriottica, nel 2026 il presidente Putin ha proclamato l’Anno dell’unità dei popoli della Russia insieme alla “memoria delle vittime del genocidio del popolo sovietico”, risalendo la storia fino alla “schiera di Igor” che unisce tutti nella tragedia, e illumina i motivi della grandezza dei russi nei confronti dei popoli vicini e lontani.
Dessas antigas inspirações poéticas, os russos extraem razões para se vangloriar até mesmo em campanhas de guerra fracassadas, como se repetiu muitas vezes ao longo da história, desde as batalhas contra os tártaros até aquelas contra os povos bálticos, os poloneses e os turcos, e até mesmo nas vitórias contra Napoleão e Hitler, que custaram a vida de milhões de russos para proclamar a vitória eterna. Hoje, a sensação da gloriosa derrota se repete na guerra na Ucrânia, onde a Rússia sacrifica centenas de milhares de vidas humanas sem de fato alcançar qualquer conquista real, mas proclamando a grande vitória dos “valores tradicionais” sobre a depravação dos pagãos ocidentais. Após o ano de 2025, dedicado à celebração do 80º aniversário da Vitória na Grande Guerra Patriótica, o presidente Putin proclamou 2026 como o Ano da Unidade dos Povos da Rússia, juntamente com a “memória das vítimas do genocídio do povo soviético”, remontando a história até ao “exército de Igor”, que une a todos na tragédia e ilumina as razões da grandeza dos russos para com os povos próximos e distantes.
O fenômeno da sobreposição entre o cristianismo e o paganismo certamente não é uma dimensão exclusiva da ortodoxia russa, tendo atravessado os primeiros séculos do cristianismo em todo o Império Romano e além. Enquanto as antigas Igrejas assimilaram e “purificaram” a fé cristã dos antigos cultos greco-romanos e orientais ao longo do tempo, com os concílios ecumênicos para determinar os confins do dogma autêntico, os russos, por sua vez, viveram a coexistência das tradições de seus antepassados com a nova instituição religiosa, sem que as diferenças fossem estabelecidas nos corações dos fiéis. Tanto é assim que hoje em dia uma camiseta com o slogan “Eu não sou um servo de Deus, mas um herdeiro dos deuses dos meus ancestrais” está muito na moda entre os jovens.
A disseminação de cultos pagãos na nova Rússia pós-soviética permaneceu despercebida por muito tempo, revelando-se somente com esporádicas queixas da Igreja Ortodoxa sobre festivais e orgias locais em várias regiões da Rússia, variando da “religião dos ancestrais” até os “movimentos nacionalistas destrutivos”.
Em 2021, o representante do patriarcado para as relações com a sociedade, Vakhtang Kipšidze, dizia que “pelo que sabemos, o fenômeno do neopaganismo assume características muito diversas e diametralmente opostas. Não vemos nada que una os neopagãos”. É precisamente isso que está acontecendo com a guerra, apesar do grande empenho dos capelães militares na “purificação” e glorificação dos combatentes. No geral, a referência às religiões difundidas na Rus’ antes do batismo cristão parece ser uma construção bastante fantasiosa, utilizando fontes decididamente pouco confiáveis para elevar um panteão de deuses mais parecido com personagens de filmes do que com a filologia religiosa antiga, completo com amuletos e vestimentas grotescas.
Algumas tendências neopagãs exaltam o naturalismo contra a civilização hipertecnológica, propondo um “retorno às raízes” e à harmonia com a natureza, como nos versos do antigo poema Igor ou nas histórias de Tolkien sobre gnomos, elfos e hobbits. O historiador religioso Alexei Gaidukov observa que “paganismo é um termo cristão para religiões não abraâmicas, enquanto neopaganismo ou novo paganismo é um fenômeno contemporâneo, que se desenvolve precisamente após a interrupção de todas as tradições religiosas”. A transmissão dos antigos costumes e crenças pagãs foi superada e anulada no primeiro milênio cristão, mas a Rússia, que foi batizada na véspera do segundo milênio, preservou-os mais do que qualquer outro povo, a ponto de permanecerem vivos mesmo durante a fase do ateísmo soviético, que acabou por se assemelhar a uma religião pagã.
A imposição da Ortodoxia de Estado na Rússia de Putin suscitou formas particulares de radicalismo pagão, desde aqueles que querem se diferenciar alegando “não somos como os cristãos”, até monges superortodoxos que demonstram que “nós somos os verdadeiros cristãos”. Recorda-se a história do ex-abade Sérgio (Romanov), preso no final de 2020 em seu mosteiro em Sredneuralsk, onde havia fundado sua própria “Igreja Antivacina” com suas 150 monjas que dançavam na floresta desafiando todas as restrições, exaltando-se como um “profeta do Apocalipse” que incitava os fiéis a resistir às “forças do Anticristo”, entre as quais incluía o próprio patriarca Kirill de Moscou, que teria espalhado a Covid para “apagar a imagem divina” nas pessoas.
O último vídeo da homilia de Sérgio, no qual ele perguntava a vários de seus seguidores, incluindo crianças, se estavam prontos para “morrer pela Rússia”, incitando explicitamente ao suicídio, foi a gota d’água para as autoridades civis e religiosas. Hoje, o próprio patriarca Kirill está convocando orações pela vitória na guerra, declarando sua prontidão para dar a vida pela Pátria contra o Anticristo do Ocidente na Ucrânia. O neopaganismo é a religião que substitui o amor de Cristo pelo ódio e pela violência, e a Rússia dos dois Vladimirs, Putin e Kirill, está efetivamente retornando ao culto de Veles, o deus do poder que destrói o mundo inteiro.
*Pe. Stefano Caprio é docente de Ciências Eclesiásticas no Pontifício Instituto Oriental, com especialização em Estudos Russos. Entre outros, é autor do livro “Lo Czar di vetro. La Russia di Putin”. (Artigo publicado pela Agência AsiaNews)

