Leão XIV visita a Paróquia da Ascensão de Nosso Senhor Jesus Cristo, na periferia leste de Roma, uma área marcada por muitas fragilidades e pela criminalidade. O encorajamento do Bispo de Roma aos fiéis a assumirem o olhar da fé de Abraão, uma luz que Cristo revelou aos apóstolos ao transfigurar-se. “Diante dos muitos e complexos problemas desta região, que se fazem presentes em seus dias aqui, a vocês é confiada a pedagogia de um olhar de fé, que transfigura tudo com esperança”.
Vatican News
A Paróquia da Ascensão de Nosso Senhor Jesus Cristo, no bairro Quarticciolo, leste da capital italiana, é a terceira a ser visitada pelo Bispo de Roma neste tempo de Quaresma. Antes de presidir a Santa Missa, o Pontífice teve um encontro com os jovens no campo esportivo e em uma sala, com as diferentes realidades da comunidade confiada aos Padres Dehonianos. Lá estavam as crianças do catecismo, suas famílias, quatro mães de toxicodependentes atualmente na prisão.
Já em sua homilia, Leão XIV inspirou-se em Abraão (cf. Gn 12,1-4) e no episódio da Transfiguração cf. Mt 17,1-9) para expor a vida como um caminho de fé. Como Abraão, todo fiel é chamado a partir em uma jornada, confiando-se à Palavra de Deus e disposto a deixar para trás toda segurança e certeza. Essa experiência pode gerar medo e um sentimento de incerteza, mas contém em si uma promessa de grandeza e bênção.
A atitude de querer ter tudo sob controle – observou o Papa – nos impede de reconhecer o verdadeiro tesouro que Deus coloca em nossas vidas, como a pérola preciosa do Evangelho que Deus escondeu em nosso campo (cf. Mt 13,44). A perda inicial, como a da terra de Abraão, transforma-se, assim, em uma nova fecundidade e uma riqueza que nada pode tirar.
Os discípulos de Jesus também são chamados a uma viagem desafiadora para Jerusalém (cf. Lc 9,51), onde o Mestre cumprirá sua missão por meio da doação total de si mesmo na Cruz, tornando-se uma bênção para todos, para sempre:
Sabemos quanta resistência Pedro e todos os outros ofereceram para segui-lo. Mas eles precisavam compreender que só se pode ser uma bênção vencendo o instinto de autodefesa e abraçando o que Jesus nos confia no gesto eucarístico: a vontade de oferecer o próprio corpo como pão a ser comido, de viver e morrer para dar vida.
Este é o domingo, “é a parada no caminho que nos reúne em torno de Jesus. Ele nos encoraja a não parar e a não mudar de direção. Não há promessa maior, nem tesouro mais precioso do que viver para dar vida!”
A entrada em um novo mundo
Pouco antes da Transfiguração – explicou Leão XIV – Jesus anunciou sua paixão, morte e ressurreição aos seus discípulos, provocando a antítese de Pedro, que foi repreendido por seu modo de pensar “humano”. Seis dias mais tarde, Jesus conduz Pedro, Tiago e João ao monte, enquanto eles ainda estavam perturbados pela ideia de um Messias destinado à morte. Precisamente nesse contexto de escuridão interior, Jesus é transfigurado diante deles em uma luz deslumbrante, e Moisés e Elias aparecem ao seu lado, um sinal de que nele se cumprem todas as Escrituras:
Mais uma vez, Pedro se torna o porta-voz do nosso velho mundo e de sua desesperada necessidade de parar as coisas, de controlá-las. É um pouco como quando não queremos que um sonho no qual nos refugiamos termine. Mas aqui não é um sonho, e sim um novo mundo no qual estamos entrando: a meta de nossa viagem, um destino cheio de luz e com os contornos humanos e divinos de Jesus. Ao armar as tendas, Pedro quer interromper essa viagem, que, em vez disso, deve continuar até Jerusalém.
Da nuvem ouve-se a voz do Pai: “Este é o meu Filho amado; escutai-o” (cf. Mt 17,5), um convite que ainda hoje ressoa para todos os fiéis seguirem Jesus e acolherem a sua lógica de amor incondicional:
E eu, caríssimos, quero ecoar esse apelo e dizer: eu vos suplico, irmãs e irmãos, que o escutemos! Ele caminha conosco, ainda hoje, para nos ensinar nesta cidade a lógica do amor incondicional, do abandono de toda defesa que se torna ofensa. Escutemos-lhe, entremos em sua luz para nos tornarmos a luz do mundo, começando pelo bairro onde vivemos. Toda a vida da paróquia e seus grupos existe para isso: é um serviço à luz, um serviço à felicidade.
Pedagogia que transfigura tudo em esperança
Após a Transfiguração no monte, a viagem de Jesus recomeça e se torna um modelo para a Igreja e para cada paróquia, chamada não a parar, mas a continuar sua missão:
Diante dos muitos e complexos problemas desta região, que se fazem presentes em seus dias aqui, a vocês é confiada a pedagogia de um olhar de fé, que transfigura tudo com esperança, colocando em circulação paixão, partilha e criatividade como cura para as muitas feridas deste bairro.
O Papa se dirige então aos jovens do programa “Magis”, “oferecido aqui há vários anos” e que “refere-se ao “algo mais” de que Santo Inácio de Loyola fala nos Exercícios Espirituais:
É um incentivo para que os adolescentes superem a mediocridade, escolhendo uma vida corajosa, autêntica e boa, que encontra em Jesus Cristo o seu “Magis” por excelência.
O Santo Padre expressa felicidade e encorajamento por uma comunidade paroquial descrita como vibrante e corajosa, capaz de testemunhar o Evangelho apesar dos desafios da região. Sob o lema “Vamos Construir Comunidade”, a paróquia embarcou em uma caminhada para fortalecer seu senso de pertença e acolhimento a todos, com o objetivo de ser um sinal concreto de bondade e justiça no bairro Quarticciolo:
Estou feliz e vos encorajo: continuem nesse caminho de abertura à comunidade local e de cura de suas feridas. E espero que outros se juntem a vocês para serem um fermento de bondade e justiça aqui em Quarticciolo.
Sinais de esperança
“Vocês são sinais de esperança”, diz Leão XIV, e “a luz da Transfiguração já está presente nesta comunidade”, iluminada pela presença do Senhor que transforma todas as coisas. Diante do mal e do desânimo, os cristãos são chamados a não perder o ímpeto, mas a testemunhar consistentemente o Reino de Deus no dia a dia. O anúncio do Evangelho torna-se, assim, uma resposta àquilo que fere a humanidade e a vida, na confiança de que pode transfigurar e restaurar a vida. O texto conclui com um pedido e uma invocação à Virgem Maria, para que ela acompanhe e ampare a comunidade em sua caminhada.
“Diante de tudo que desfigura o ser humano e a vida – disse o Papa ao concluir – continuamos a proclamar e testemunhar o Evangelho, que transfigura e dá vida. Que a Santíssima Virgem, Mãe da Igreja, nos acompanhe sempre e interceda por nós”.

