Quando Pacelli defendeu o cardeal Mundelein, que havia atacado Hitler

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No dia 4 de maio, no convento de Santa Maria sopra Minerva, será realizado o congresso “Eugenio Pacelli – Pio XII entre a cidade de Deus e a cidade do homem”. Apresentamos aqui um resumo da palestra de Andrea Tornielli, diretor editorial dos meios de comunicação do Vaticano, que abordará o caso Mundelein. Participarão também Johan Icks, do Arquivo Histórico da Secretaria de Estado do Vaticano, monsenhor Stefan Heid, reitor do Pontifício Instituto de Arqueologia Cristã, e o padre Fabrizio Cambi.

Andrea Tornielli – Vatican News

Entre as páginas mais significativas do período em que Eugenio Pacelli atuou ao lado de Pio XI como secretário de Estado, destaca-se certamente aquela relativa à defesa do cardeal arcebispo de Chicago, George William Mundelein, que, em 18 de maio de 1937, em um discurso a portas fechadas com seus padres, proferiu palavras muito duras contra Adolf Hitler: “Talvez vocês me perguntem como é possível que uma nação de sessenta e seis milhões de homens, e de homens inteligentes, queira submeter-se a um estrangeiro, a um tapeceiro austríaco, e um medíocre, pelo que me dizem, e a poucos sócios como Goebbels e Göring, que decidem cada movimento do povo germânico”.

O cardeal chegou a sugerir, de forma polêmica, que os cérebros de sessenta e seis milhões de alemães tivessem sido removidos sem que os próprios se dessem conta. Foi uma intervenção de grande peso, proferida sem qualquer preocupação diplomática por um clérigo que vivia a milhares de quilômetros de distância da Europa. Suas palavras foram divulgadas nas primeiras páginas de todos os jornais estadunidenses.

O protesto alemão e a resposta de Pacelli

Em 24 de maio, o embaixador alemão von Bergen solicita e consegue uma audiência com o cardeal secretário de Estado, a quem entrega um documento com o cabeçalho da Embaixada da Alemanha, sem data e sem assinatura, no qual está transcrito um veemente protesto do governo de Berlim contra as palavras do arcebispo de Chicago. Pacelli responde verbalmente, mas, ainda naquele mesmo dia, faz chegar a von Bergen a transcrição do que havia dito pela manhã: “à comunicação que me foi feita há pouco sobre um discurso de Sua Eminência, o senhor cardeal Mundelein, permito-me responder com uma constatação e com uma contrapergunta.

1) Não costumo pronunciar-me sobre discursos dos quais — como no caso presente — ainda não se dispõe de um texto inquestionavelmente seguro.

2) Mesmo que já houvesse tal texto, não poderia tomar uma posição sobre a comunicação que me foi feita antes de receber uma resposta clara, definitiva e satisfatória à seguinte pergunta: o que fez o Governo alemão, o que pretende fazer no porvir contra as baixas injúrias e difamações, contra as calúnias injuriosas, que se repetem todos os dias em jornais e revistas alemãs, bem como nos discursos de personalidades proeminentes, contra a Igreja, as instituições eclesiásticas, o Papa, os Cardeais, os Bispos, os Sacerdotes e assim por diante? Para facilitar a tarefa a Vossa Excelência, responderei eu mesmo à primeira parte da pergunta: o Governo alemão — apesar de todas as reclamações — não fez nada contra tudo isso. Pelo contrário: ele próprio é responsável por isso, pois órgãos do Estado e do Partido, e especialmente o Ministério da Propaganda, organizam e dirigem em grande parte tal atitude nas publicações e nos discursos, ou pelo menos a favorecem e promovem por todos os meios. À segunda parte da contrapergunta relativa ao porvir, somente o Governo alemão pode dar resposta. A Santa Sé aguarda, como já disse, uma resposta clara, definitiva e satisfatória a esse respeito”.

As pressões da Alemanha

O protesto foi, portanto, devolvido com veemência ao remetente: a Santa Sé exigia explicações do governo do Reich pelas inúmeras reclamações sobre a violação do concordato que permaneceram sem resposta.  Em 29 de maio, o encarregado de negócios da embaixada alemã, Fritz von Menshausen, entregou uma nova nota ameaçadora a Pacelli, cujo objetivo era obter uma desautorização pública de Mundelein por parte do Vaticano. “O Governo alemão — lê-se no documento — é obrigado a constatar que a Santa Sé permite que subsistam, sem corrigi-los, aqueles ataques públicos inaceitáveis de um de seus mais altos dignitários contra a Pessoa do Chefe do Estado alemão e, com isso, de fato os encobre aos olhos do mundo”.

O relatório do Secretário de Estado

Este último protesto formal não podia ficar sem resposta. O Papa Ratti convocou, portanto, uma reunião dos cardeais membros da Congregação para os Assuntos Eclesiásticos Extraordinários, realizada em Castelgandolfo, às 11 horas do dia 20 de junho de 1937, e presidida pessoalmente pelo Pontífice. O relatório introdutório ficou a cargo do cardeal Pacelli.

Eis a transcrição de suas palavras: “a Santa Sé não pode, por si só, corrigir ou deplorar o discurso do Eminentíssimo Mundelein. Seria um ato de fraqueza que não faria senão tornar ainda mais arrogantes os líderes do nacional-socialismo e o próprio Hitler, que, em sua autoilusão, acredita que todo o mundo deve imediatamente se curvar diante dele. Certamente, a parte do discurso do cardeal Mundelein referente às palavras contra o chefe do Estado alemão foi infeliz. Ele poderia, por iniciativa própria, dar alguma explicação pública. No entanto, como o Governo alemão publicou a Nota do embaixador junto à Santa Sé de 29 de maio, o público, nesse caso, pensaria facilmente que a declaração do cardeal Mundelein foi feita por ordem e sugestão da Santa Sé, a qual pareceria, assim, ter acabado por ceder à imposição do governo”.

Um texto eloquente

O trecho é muito eloquente e revela, mais uma vez, qual era a opinião de Eugenio Pacelli sobre Hitler. Fica também evidente a habilidade com que o cardeal apresenta o problema ao Papa e aos demais colaboradores da Secretaria de Estado, de modo que o arcebispo de Chicago não precise retratar nem uma palavra do que disse. Pio XI concorda e faz sua a opinião expressa por Pacelli, definindo-o como “nosso cardeal secretário de Estado, para quem não há elogio que seja suficiente”.

Na resposta, transmitida por Pacelli à embaixada alemã quatro dias após a reunião, afirma-se que Mundelein não representava nem falava em nome da Santa Sé, e que seu discurso não era público. Além disso, salienta-se que o arcebispo de Chicago é um cidadão livre que se valera do direito garantido pela Constituição de seu país de manifestar seu julgamento sobre pessoas e fatos ocorridos na Alemanha que eram ofensivos ao Papa e à Igreja. O Vaticano não se recusava a discutir o caso Mundelein, mas reiterava que, para tal, eram necessárias condições de igualdade; portanto, o governo do Reich deveria fornecer explicações e respostas adequadas aos muitas protestos enviados em vão pela Santa Sé. A reação alemã não levou, portanto, a nada. Pelo contrário, em 17 de julho de 1937, ao receber um grupo de peregrinos vindos de Chicago, Pio XI elogiou a cidade estadunidense e o “seu magnífico cardeal arcebispo, tão solícito e zeloso na defesa dos direitos de Deus e da Igreja pela salvação das almas”.

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