Essa tecnologia, quando bem direcionada, tem beneficiado a sociedade de maneira sem precedentes. No entanto, a dignidade humana manifesta-se plenamente, quando o homem exerce sua racionalidade, uma faculdade que não nasce isolada, mas é continuamente formada e polida pelos conceitos éticos do bem comum.
Dom Oriolo – Bispo da Igreja Particular de Leopoldina MG
A rápida evolução tecnológica vem beneficiando as pessoas e a sociedade, processo este caracterizado pelas quatro revoluções industriais. Num primeiro momento, tivemos a Primeira Revolução Industrial, focada na mecanização da produção em grande escala. Em seguida, com o advento da eletricidade, do telefone, do rádio e do motor a combustão, definimos a Revolução Industrial 2.0.
Com a evolução e o crescimento dessas técnicas, passamos pela automação e pelo avanço da tecnologia digital, isto é, a Revolução Industrial 3.0. Atualmente, com a Internet das Coisas (IoT), a Inteligência Artificial (IA), a computação em nuvem, os veículos autônomos e a impressão 3D, estamos na Revolução Industrial 4.0. Vivemos, assim, em uma Sociedade 5.0, que intensifica essa dinâmica e exige uma compreensão do ser humano na sua dignidade como símile do Criador.
Assim sendo, o papa Leão XIV, na sua primeira audiência aos membros do Colégio Cardinalício, em 10 de maio de 2025, a quase um ano, pronunciou algo muito relevante: “justamente por me sentir chamado a seguir nessa linha, pensei em adotar o nome de Leão XIV. Na verdade, são várias as razões, mas a principal é porque Leão XIII, com a histórica Encíclica Rerum Novarum, abordou a questão social no contexto da primeira grande revolução industrial; e, hoje, a Igreja oferece a todos a riqueza de sua doutrina social para responder a outra revolução industrial e aos desenvolvimentos da Inteligência Artificial, que trazem novos desafios para a defesa da dignidade humana, da justiça e do trabalho”.
Nesse seu primeiro discurso, o papa revela sua preocupação com a IA comparando-a com a mesma atenção dada por Leão XIII, quando, na Rerum Novarum, falou sobre a questão social, num contexto da Primeira Revolução Industrial, considerando a defesa da dignidade humana. Ela foi e continua sendo um farol, orientação e caminho para enfrentar as coisas novas.
O papa Leão XIV manifesta que um dos maiores legados deixados por Leão XIII foi a defesa da dignidade humana. Ele aponta que é justamente por meio desse princípio que devemos lidar com os desafios da IA, na sociedade contemporânea. Esta Quarta Revolução Industrial deixa claro que a convivência com as novas tecnologias só é possível, desde que a dignidade humana seja respeitada.
Nesse contexto, o ser humano deve agir e pensar de forma humanizada, utilizando expedientes racionais para orientar cada uma de suas decisões. O fato das máquinas pensarem e agirem de forma análoga aos seres humanos já é uma realidade irreversível, bastando observar como a IA se integrou profundamente à nossa rotina diária.
Toda essa evolução é fruto da criatividade do homem, criado à imagem e semelhança do Criador. Essa tecnologia, quando bem direcionada, tem beneficiado a sociedade de maneira sem precedentes. No entanto, a dignidade humana manifesta-se plenamente, quando o homem exerce sua racionalidade, uma faculdade que não nasce isolada, mas é continuamente formada e polida pelos conceitos éticos do bem comum. Ao projetar sistemas que visam agir e pensar racionalmente, o ser humano atua como o mentor intelectual da máquina; ele não apenas transfere lógica, mas imprime na tecnologia o rastro de sua própria natureza.
Nessa dinâmica, o agir e o pensar da IA não são um fenômeno autônomo, mas, sim, um reflexo da capacidade criativa do ser humano que, feito à imagem e semelhança do bom Deus, busca ordenar o mundo pela razão. Portanto, por trás de cada algoritmo que simula a racionalidade reside a dignidade humana: o esforço do sujeito em transbordar sua inteligência para a matéria, mantendo sempre como norte os valores transcendentes que o definem como um ser dotado de propósito e moralidade divina.
Concluindo, podemos afirmar que a Quarta Revolução Industrial exige que a IA seja um reflexo da ética e da transcendência humanas, mantendo-se sempre subordinada ao serviço do bem comum. Conforme o legado de Leão XIII e as orientações de Leão XIV, a técnica deve ser orientada pela razão, por valores, assegurando que o progresso digital não pode se esquecer da centralidade do ser humano. Assim, a verdadeira inovação reside em garantir que cada algoritmo preserve a dignidade humana, honrando nossa natureza criada à imagem e semelhança de Deus.

