Quase 19,5 milhões de pessoas sofrem de insegurança alimentar aguda. Conflitos, deslocações e acesso limitado a ajudas humanitárias põem mais de 825 mil crianças em risco de morte por má-nutrição grave em 2026. Cerca de 40% das unidades de saúde estão inativas e consideração-se que 17 milhões de pessoas não têm acesso à água potável e 24 milhões não têm saneamento básico adequado.
Vatican News
A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), o Programa Mundial de Alimentos (PMA) e o UNICEF chamam a atenção para o facto de quase 19,5 milhões de pessoas — duas em cada cinco no Sudão — estarem atualmente a enfrentar níveis críticos de insegurança alimentar em todo o país.
Embora não se tenha identificado nenhuma área atualmente em situação fome, a situação continua extremamente preocupante – afirmam as três organizações, acrescentado que as análises mostram que cerca de 135 mil pessoas enfrentam insegurança alimentar catastrófica em 14 pontos críticos no Darfur, Darfur do Sul e Kordofan do Sul e que estarão em risco de fome nos próximos meses. E teme-se que a situação piore entre junho e setembro.
Infelizmente, com o conflito que já vai no seu quarto ano consecutivo, a crise alimentar não dá sinais de melhoria, dado que a violência obriga as populações a constantes deslocações e a um limitado acesso a ajudas humanitárias em todo o país.
Crise alimentar
consideração-se que cerca de 825.000 crianças menores de cinco anos poderão sofrer de má-nutrição aguda ao longo deste ano de 2026, um aumento de 7% em comparação com 2025 e de 25% em comparação com os níveis pré-conflito entre 2021 e 2023. Somente entre janeiro e março deste ano, quase 100.000 crianças foram internadas para tratamento de desnutrição aguda grave — que pode levar à morte se não for tratada com urgência.
As localidades de Um Baru e Kernoi registraram níveis críticos de desnutrição em dezembro de 2025. Prevê-se que a desnutrição aguda permaneça em níveis extremamente elevados nessas localidades, com outras áreas em risco de agravamento, particularmente em áreas sitiadas e entre as populações deslocadas internamente.
A deslocação causada pelo conflito continua a ser bastante elevada. Até março deste ano, os deslocados internos eram cerca de 9 milhões. Muitas famílias permanecem encurraladas em zonas de conflito ou procuram refúgio em áreas remotas com pouco ou nenhum acesso à assistência humanitária ou a serviços básicos.
A destruição da infraestrutura civil — incluindo mercados, instalações de saúde, sistemas de água e de agricultura — limitou severamente a produção de alimentos e o acesso a serviços essenciais. Quase 40% das instalações de saúde estão inoperantes; consideração-se que 17 milhões de pessoas não tenham acesso à água potável e 24 milhões não tenham saneamento adequado.
Surtos repetidos de cólera, sarampo, malária, dengue, hepatite, difteria e doenças diarreicas estão a acelerar ainda mais a deterioração do estado nutricional, especialmente entre criancinhas, mulheres grávidas e lactantes.
As restrições ao acesso humanitário no Sudão continuam a estar entre as mais graves do mundo. Insegurança, entraves burocráticos, ataques ao longo das rotas de abastecimento, destruição de mercados e meios de produção, bem como restrições à circulação de pessoas e mercadorias, continuam fazem com que os agentes humanitários não possam prestar a assistência necessária.
Em abril de 2026, apenas 20% do Plano de Resposta e Assistência Humanitária do Sudão para 2026 havia sido financiado. A assistência humanitária continua a ser muito inadequada em comparação com as necessidades. Entre fevereiro e maio, os parceiros humanitários tinham como objetivo alcançar 4,8 milhões de pessoas por mês. No entanto, até fevereiro, estimava-se que apenas 3,13 milhões de pessoas haviam recebido assistência.
Cessar o conflito e proteger os civis
A FAO, o PMA e o UNICEF apelam à cessação imediata das hostilidades, instam as partes beligerantes a protegerem os civis e as infraestruturas civis e a garantirem o acesso humanitário seguro, ligeiro e sem entraves em todas as áreas afetadas pelo conflito. As agências instam também a comunidade internacional a aumentar urgentemente o financiamento para alimentação, produção alimentar de emergência, nutrição, saúde, água e saneamento, bem como a apoiar os esforços para reconstruir os meios de subsistência.
“Para evitar mais perdas de vidas e fome, devemos aumentar urgentemente a assistência agrícola de emergência para impulsionar a produção alimentar local”, afirmou QU Dongyu, Diretor-Geral da FAO. “Apoiar famílias agrícolas vulneráveis com sementes, ferramentas e insumos é uma das formas mais rápidas e eficazes de restabelecer o acesso a alimentos nutritivos e reduzir a dependência da ajuda externa. O acesso humanitário e o financiamento para estas intervenções agrícolas que salvam vidas devem ser melhorados imediatamente e em larga escala.”
“A fome continua a ameaçar o povo do Sudão, pondo milhões de vidas em risco neste momento, devido à fome e à desnutrição”, afirmou Cindy McCain, Diretora Executiva do PMA. “O PMA está no terreno a responder à situação e está pronto para fazer mais, mas as agências humanitárias não podem resolver este problema sozinhas. A comunidade internacional tem de agir agora com financiamento, acesso e vontade política para impedir que esta crise se transforme numa tragédia ainda maior.”
“Em todo o Sudão, as crianças estão são vítimas deuma crise de violência implacável, fome e doenças”, disse Catherine Russell, Diretora Executiva do UNICEF. “Muitas famílias foram deslocadas várias vezes. Crianças que sofrem de desnutrição aguda grave chegam a instalações já demasiado fracas, não podendo sequer chorar. Sem uma intervenção urgente e um acesso humanitário sustentado, mais crianças estarão em risco de vida.”

