A encíclica de Leão XIII, promulgada em 15 de maio de 1891, continua servindo de orientação para manter os princípios éticos no centro das mudanças que estamos vivendo nos âmbitos social, econômico e tecnológico. “A doutrina social da Igreja exige que nunca se esqueçam as pessoas concretas, sobretudo as mais frágeis”, diz o Pe. Giacomo Costa, acompanhador espiritual das Associações Cristãs de Trabalhadores Italianos (Acli).
Eugenio Bonanata – Vatican News
Já se passaram 135 anos desde a sua promulgação, mas a Rerum Novarum de Leão XIII continua sendo um instrumento muito válido para abordar a evolução social, tecnológica e econômica em curso com o olhar do Evangelho, da solidariedade, do bem comum e do desenvolvimento humano integral. “Cada época tem suas novidades, mas a questão da dignidade do homem permanece sempre a mesma”, afirma o Pe. Giacomo Costa, acompanhador espiritual das Associações Cristãs de Trabalhadores Italianos (Acli) e colaborador da Secretaria Geral do Sínodo: “uma questão fundamental para todo compromisso e toda leitura da realidade por parte de todos os crentes e de todos os cristãos”.
Foi o Papa Pecci quem inaugurou essa perspectiva de observação enraizada na fé, com o intuito de não deixar ninguém para trás e permitir que cada um contribuísse para a definição dessa mudança. “Leão XIII – esclarece o Pe. Costa – compreendeu que a Igreja não podia observar de distante todos os processos da época: a revolução industrial, o surgimento da questão operária, a acumulação de riquezas nas mãos de poucos, a desagregação progressiva dos laços sociais”. A partir dessa atenção, desenvolveu-se a doutrina social da Igreja. E também o Concílio Vaticano II sinalizou a necessidade de concentrar mais a atenção nos sinais dos tempos.
O legado herdado por Leão XIV
Por sua vez, o Papa Leão XIV, logo após sua eleição, ao se reunir com os cardeais, explicou que havia escolhido esse nome justamente para seguir o caminho traçado por seu predecessor. “Hoje – disse ele – a Igreja oferece a todos seu patrimônio de doutrina social para responder a uma nova revolução industrial e aos avanços da inteligência artificial, que trazem novos desafios para a defesa da dignidade humana, da justiça e do trabalho”. A encíclica insiste muito na dignidade do trabalhador como pessoa e não como mera mercadoria. No entanto, hoje, em uma economia dominada por algoritmos, plataformas e automação, como se pode concretizar esse princípio quando milhões de empregos correm o risco de desaparecer? “Certamente – responde o Pe. Costa – a Igreja não diz como fazer e não oferece soluções. Mas ajuda a lembrar que a técnica nunca é neutra e que toda inovação traz consigo uma certa ideia de humanidade, de sociedade do bem comum”.
A contribuição da Doutrina Social da Igreja
Que tipo de humanidade estamos construindo por meio desses instrumentos e dessas mudanças? Segundo o religioso, o ensinamento da Igreja ajuda a fazer perguntas desse tipo, oferecendo pontos de referência para enfrentar os grandes temas nas diversas épocas. “Isso para que, nas perspectivas econômicas e tecnológicas, a questão ética seja também integrada de forma central, buscando respeitar todos e, assim, construir juntos uma humanidade sustentável”.
O discurso aborda inevitavelmente a dimensão política, como o próprio Papa Leão XIV recordou durante sua recente viagem à África e, em particular, no discurso às autoridades, ao corpo diplomático e à sociedade civil na Guiné Equatorial, proferido no último dia 21 de abril. “É tarefa inalienável das autoridades civis e da boa política remover os obstáculos ao desenvolvimento humano integral, do qual a destinação universal dos bens e a solidariedade são princípios fundamentais”. A esse respeito — adverte o Pe. Costa — “a doutrina social não oferece um programa político pré-fabricado e não pretende substituir a política, mas pede que não sejam esquecidas as pessoas concretas, sobretudo as mais frágeis. É um instrumento essencial que questiona continuamente se o crescimento está produzindo mais dignidade, mais justiça, mais paz e mais possibilidades de uma vida boa para todos”.
Também Leão XIV, ainda na Guiné Equatorial, citando a Rerum novarum, destacou que hoje a exclusão representa a nova face da tirania social. E acrescentou que a missão da Igreja é “contribuir para a formação das consciências, por meio do anúncio do Evangelho, da oferta de critérios morais e de princípios éticos autênticos, no respeito à liberdade de cada indivíduo e à autonomia dos povos e de seus governos”. O objetivo da Doutrina Social – sempre seguindo as palavras do Papa – “é educar para enfrentar os problemas, que são sempre diferentes, porque cada geração é nova, com novos desafios, novos sonhos, novas perguntas”.

