Vinte pessoas, todas trabalhadoras rurais nas plantações de “palma africana” no norte do país centro-americano, foram mortas na quinta-feira em meio a disputas territoriais com grupos criminosos. A condenação da Conferência Episcopal Hondurenha e do Conselho Episcopal Latino-Americano e Caribenho.
Valerio Palombaro – Vatican News
A Conferência Episcopal de Honduras expressou “profunda tristeza e indignação” após o massacre que assolou o norte do país, na última quinta-feira (21/05), com a morte de 20 agricultores em uma plantação de óleo de palma no município de Trujillo. O número atualizado de mortos, 20, foi anunciado na sexta-feira, 22 de maio, numa coletiva de imprensa pelo porta-voz do Ministério Público Nacional, Yuri Mora, que descreveu o massacre na vila de Rigores como “um dos maiores episódios de violência” dos últimos anos no departamento de Colón. As vítimas, todos trabalhadores da colheita de óleo de palma, incluíam 15 homens, três mulheres e dois menores. Segundo depoimentos colhidos pelas autoridades, o ataque foi realizado por homens armados ligados a grupos criminosos que abriram fogo dentro de uma igreja onde as pessoas tinham se refugiado enquanto se preparavam para começar o dia de trabalho.
Onda de violência
“Cada vítima é uma pessoa criada à imagem e semelhança de Deus”, observaram os bispos hondurenhos numa declaração condenando o massacre, lembrando também os recentes episódios de violência nas áreas de Corinto e Omoa, na fronteira com a Guatemala, também no norte do país, onde vários policiais e civis foram mortos. “Expressamos nossa absoluta rejeição a este e a atos semelhantes” e, como membros da Igreja, “não podemos aceitar justificativas superficiais diante de atos tão repugnantes”. Por fim, os bispos hondurenhos enfatizaram que a sociedade deve estar unida para que “Seu Reino de justiça, verdade e paz” possa ser estabelecido no país.
proteger a dignidade humana
A solidariedade ao povo hondurenho foi expressa numa declaração do Conselho Episcopal Latino-Americano e Caribenho (CELAM). “Nenhuma vida é descartável”, afirma a mensagem assinada pelo cardeal Jaime Spengler e por dom Lizardo Estrada Herrera, presidente e secretário-geral do CELAM, respectivamente. A violência, continua a declaração, “fere o tecido de nossas comunidades e obscurece o sonho de fraternidade”, enquanto é urgente promover caminhos de reconciliação, justiça e paz. “As vidas dos pobres, dos trabalhadores e daqueles que habitam e defendem seus territórios — das crianças, dos jovens e dos idosos — não podem ficar por um fio de indiferença, impunidade ou exclusão”, afirma o CELAM, relembrando o significado de sua campanha de conscientização intitulada “A vida está por um fio”. “Somos chamados a tecer juntos uma cultura do encontro, cuidado, solidariedade e paz, onde a dignidade de cada pessoa seja reconhecida como um dom sagrado de Deus.”
Uma zona de martírio
A Rede Igrejas e Mineração também condenou com veemência este último episódio de violência no norte de Honduras. A região de Bajo Aguán, onde 20 agricultores foram mortos na quinta-feira, “tornou-se uma zona de morte para aqueles que defendem o direito à terra e ao território”. Esta nova onda de violência afeta territórios que já viram várias pessoas “martirizadas”, incluindo o defensor ambiental Juan Antonio López, delegado da Palavra de Deus e membro fundador do Ministério da Ecologia Integral em Honduras, assassinado em Tocoa em setembro de 2024. “As mortes contínuas nesta área martirizada evidenciam um problema com raízes estruturais que geram pobreza, desigualdade, violência, impunidade e a ausência ou cumplicidade do Estado”, denuncia a Rede Igrejas e Mineração em comunicado, pedindo investigações minuciosas sobre todos esses assassinatos. “Instamos as autoridades locais e nacionais”, continua o comunicado, “a promoverem o processo de regularização dos títulos de propriedade como parte da reforma agrária, condição fundamental para contribuir para a paz, o trabalho e o respeito aos direitos humanos da população desta região”. “O Estado deve concentrar-se efetivamente no desmantelamento das redes criminosas que operam na região”, conclui o comunicado da Rede Igreja e MineraçNao, expressando solidariedade às vítimas e recordando as palavras do Papa Leão XIV, em setembro de 2025, sobre esperança e justiça: “O espírito de Deus é capaz de transformar o deserto árido e seco num jardim, lugar de repouso e serenidade”.
Medo entre as pessoas
O agricultor hondurenho Armando Suchite, que perdeu dois filhos no massacre, disse à Agência EFE que a comunidade local vive com medo. “Estamos aterrorizados porque a violência em Colón se tornou muito perigosa”, disse Suchite após enterrar seus filhos, de 23 e 25 anos, no cemitério da vila de Rigores, onde a maioria das 20 vítimas do massacre foram enterradas simultaneamente na última sexta-feira, 22. Outro morador confirmou que os habitantes locais “vivem com medo”. “Essa palmeira parece amaldiçoada; ela nos trouxe muitas tragédias. Perdemos muitos amigos e familiares devido à disputa de terras”, disse ele. As reivindicações de terras feitas por agricultores, alguns dos quais organizados em instituições, levaram a incidentes violentos na região de Bajo Aguán e em outras partes do país. As mortes violentas envolveram, em alguns casos, também “seguranças particulares” de empresas que trabalham no cultivo da “palmeira africana”. Essa atividade se espalhou pelo norte de Honduras, deslocando uma grande porcentagem de outras plantações, como milho, feijão e frutas cítricas. Ao longo dos últimos 50 anos, mais de 200 pessoas morreram violentamente em disputas territoriais, enquanto os sucessivos governos de Tegucigalpa não conseguiram resolver o problema.

