Cardeal Orani João Tempesta, O. Cist. – Arcebispo Metropolitano de São Sebastião do Rio de Janeiro, RJ
No dia 15 de maio de 2026, o Papa Leão XIV assinou sua primeira Encíclica social, a Magnifica Humanitas, dedicada à salvaguarda da pessoa humana na era da inteligência artificial. O título não é casual: remete à grandeza da humanidade criada por Deus, que se encontra hoje diante de uma das maiores encruzilhadas de sua história. O documento chega 135 anos após a Rerum Novarum de Leão XIII, e o Papa escolhe essa data com consciência: assim como seu predecessor tomou posição diante das transformações da era industrial, Leão XIV o faz diante da revolução digital.
A Encíclica não é uma condenação da tecnologia. É um convite ao discernimento. O Papa Leão XIV parte de uma constatação simples, mas profunda: a tecnologia não é neutra. Ela carrega em si as escolhas, os valores e os interesses de quem a concebe, financia e utiliza. Dizer que um algoritmo é objetivo é uma ilusão, porque qualquer sistema reflete prioridades humanas — e humanas, por isso mesmo, passíveis de acerto e de erro, de generosidade e de ambição.
Para estruturar seu argumento, Leão XIV recorre a duas imagens bíblicas que funcionam como chaves de leitura de todo o documento: a Torre de Babel e a reconstrução de Jerusalém por Neemias. Babel representa a tentativa humana de construir um poder sem referência a Deus, apoiado na uniformidade que apaga diferenças e na ambição que dispensa a bênção divina. O resultado, como narra o Gênesis, não foi a unidade, mas a dispersão. Jerusalém, ao contrário, é obra de corresponsabilidade: cada família recebe sua parte da muralha, ninguém é dispensado, ninguém domina. A reconstrução acontece na presença de Deus e parte do cuidado pelas relações antes mesmo das pedras.
A pergunta que o Papa endereça ao nosso tempo é direta: estamos construindo Babel ou Jerusalém? Estamos erigindo estruturas de poder concentrado, onde poucos decidem o destino de muitos, ou estamos distribuindo responsabilidades e garantindo que a inovação sirva ao bem de todos? A Encíclica não responde por nós, mas oferece critérios para que cada um, em seu lugar, possa discernir.
Um dos méritos da Magnifica Humanitas é situar o debate sobre a inteligência artificial no interior da tradição da Doutrina Social da Igreja, sem reduzi-lo a um apêndice temático. O Papa percorre com cuidado o caminho percorrido pelo Magistério Pontifício desde Leão XIII até Francisco, mostrando que os grandes princípios — dignidade da pessoa, bem comum, destinação universal dos bens, subsidiariedade, solidariedade e justiça social — não são fórmulas do passado, mas ferramentas vivas para ler o presente. O que mudou é o cenário: no lugar das fábricas e das classes operárias do século XIX, temos hoje plataformas digitais, algoritmos, dados e sistemas que tomam decisões sobre o crédito, o emprego, a saúde e a visibilidade das pessoas.
O Sumo Pontífice Leão XIV dedica um capítulo inteiro à análise da inteligência artificial, evitando tanto o entusiasmo ingênuo quanto o alarmismo estéril. Reconhece que esses sistemas imitam funções da inteligência humana, e muitas vezes as superam em velocidade e amplitude de cálculo. Mas insiste numa distinção fundamental: a inteligência artificial não vive experiências, não possui corpo, não amadurece nas relações, não conhece o amor, a amizade, a responsabilidade. Pode simular empatia, pode imitar linguagem afetiva, mas não compreende o que produz, porque não penetra no horizonte afetivo, relacional e espiritual onde o ser humano se torna sábio.
Essa distinção não é de ordem técnica, mas antropológica. Ela importa porque, ao confundirmos a simulação com a realidade, corremos o risco de delegar a máquinas decisões que exigem consciência ética: a seleção de candidatos a emprego, o acesso ao crédito, a triagem de pacientes, a avaliação de estudantes. Quando um algoritmo decide quem merece ou não, sem que ninguém mais assuma o peso da escolha, a responsabilidade se dissolve e a tirania se torna invisível. O Papa chama isso de “desresponsabilização” — e identifica nela um perigo grave para a convivência democrática.
No capítulo dedicado à salvaguarda do humano na metamorfose, a Encíclica trata com seriedade a questão do trabalho. Desde a Rerum Novarum, o trabalho ocupa lugar central na Doutrina Social da Igreja: não é apenas meio de subsistência, mas expressão da dignidade humana, caminho de maturidade, modo de participar na criação. A automação e a inteligência artificial estão transformando rapidamente essa realidade. O Papa Leão XIV reconhece que algumas formas de trabalho pesado, repetitivo ou perigoso podem ser aliviadas pela tecnologia — e isso é bem-vindo. Mas alerta para o risco de que a lógica do lucro a curto prazo justifique escolhas que sacrificam sistematicamente o emprego, degradando pessoas a dados a otimizar.
Um dos pontos mais originais da Encíclica é a análise da concentração de poder no mundo digital. Outrora, eram principalmente os Estados que dirigiam a inovação. Hoje, os principais motores do desenvolvimento são sujeitos privados, frequentemente transnacionais, com recursos e capacidade de intervenção superiores aos de muitos governos. Plataformas digitais definem regras de acesso, visibilidade e participação para bilhões de pessoas. Dados são recolhidos em escala massiva e transformados em instrumento de poder. O Papa Leão XIV não hesita: esse cenário exige, à luz do bem comum e da destinação universal dos bens, novas formas de regulação, transparência e controle. Os dados não pertencem apenas a quem os coleta; são fruto da contribuição de muitos, e precisam ser tratados como bens comuns ou coletivos.
A Encíclica enfrenta também as correntes transumanistas e pós-humanistas, que propõem a superação dos limites humanos pela tecnologia. O Papa não as descarta com um gesto de mão: analisa suas premissas e identifica o ponto crítico. Quando se trata o ser humano como matéria a aperfeiçoar ou a superar, torna-se mais fácil aceitar que alguns sejam considerados menos úteis, menos desejáveis, menos dignos. Em nome do progresso, pode-se chegar a imaginar que os mais frágeis paguem o preço de uma suposta otimização da espécie. Contra essa lógica, o humanismo cristão afirma que o ser humano não floresce apesar de seus limites, mas muitas vezes através deles. A compaixão, o cuidado, a experiência espiritual, a adoração — tudo isso germina precisamente onde somos vulneráveis.
O capítulo dedicado à cultura do poder e à civilização do amor é dos mais densos e urgentes. O Papa observa com preocupação a normalização da guerra no discurso público, a reabilitação da força como instrumento de política internacional e o enfraquecimento das instituições multilaterais. A inteligência artificial entra nesse contexto como fator de aceleração: sistemas de armas com autonomia crescente tornam o conflito mais viável e menos sujeito ao controle humano. Leão XIV é claro: não existe algoritmo que torne a guerra moralmente aceitável. Nenhuma máquina pode assumir a responsabilidade de uma decisão letal; e delegar essa responsabilidade a sistemas automatizados é uma forma de fuga ética que a consciência cristã não pode aceitar.
A educação recebe atenção especial. O Papa detecta um paradoxo: vivemos numa era de acesso sem precedentes à informação, mas com crescente dificuldade de discernimento, reflexão e sentido. A velocidade digital cria uma cultura do imediato que enfraquece a paciência necessária para aprender de verdade. Educar na era da inteligência artificial significa, entre outras coisas, educar para decidir quando não usá-la. O jejum da IA, como o Papa sugere, não é luddismo: é a consciência de que certas aprendizagens exigem tempo, silêncio, erro, correção — experiências que a máquina pode simular, mas não provocar.
Um dos trechos mais corajosos da Encíclica é aquele em que Papa Leão XIV pede perdão pela demora da Igreja em condenar a escravidão. Ao fazê-lo, não se trata apenas de ajuste de contas com o passado. Trata-se de um alerta para o presente: as novas formas de escravidão vinculadas à economia digital — o trabalho invisível de classificação de dados, a extração de minerais raros por crianças, o tráfico humano facilitado por plataformas digitais — não podem ser toleradas com o mesmo silêncio cúmplice de outras épocas. A memória das falhas passadas deve se converter em discernimento e coragem no presente.
Ao concluir, a Magnifica Humanitas não entrega um manual técnico nem um catálogo de condenações. Entrega um horizonte: a civilização do amor. Palavra de São Paulo VI, retomada por São João Paulo II e por Francisco, agora recolocada por Leão XIV num contexto inédito. A civilização do amor não é uma utopia que aguarda o fim dos tempos. É o projeto de cada dia, feito de palavras desarmadas, de trabalho digno, de dados tratados como bem comum, de escolas que ensinam a questionar e não apenas a consumir respostas, de comunidades que cuidam dos frágeis em vez de os descartar.
A inteligência artificial é poderosa. Mas o coração humano — com sua capacidade de amar, perdoar, cuidar e esperar — é irredutível a qualquer cálculo. Essa é, no fundo, a aposta da Encíclica: que a magnífica humanidade criada por Deus não se deixe substituir nem superar, mas saiba acolher os dons da técnica a serviço do bem de todos. Como Neemias diante das ruínas de Jerusalém, somos convidados a rezar, planejar, construir e persistir — cada um com seu pedaço da muralha — até que a cidade se torne, de novo, habitável para todos.

