Em visita ao centro de acolhimento “Las Raíces” de Tenerife, última etapa de sua viagem à Espanha, Leão XIV ouviu o testemunho de migrantes, que pedem a oportunidade de viver com dignidade. E citou São José de Anchieta, que partiu das Canárias “para anunciar o Evangelho na América, abrindo novos horizontes missionários”. Também ele foi migrante que se dirigiu para o ignorado, “levando como principal bagagem a fé, a esperança e a caridade”.
Bianca Fraccalvieri – Vatican News
O Papa transcorre o último dia de sua viagem apostólica à Espanha na ilha de Tenerife, a mais extensa das Canárias. O Pontífice deixou na manhã desta sexta-feira a cidade de Las Palmas de Gran Canaria e, após percorrer cerca de 115 km em 30 minutos de voo, desembarcou em Santa Cruz de Tenerife, sendo acolhido pelas autoridades locais.
Do aeroporto, Leão XIV se transferiu diretamente para o Centro de Acolhimento “Las Raíces”, uma estrtutura temporária para migrantes, localizada em um antigo quartel militar no município de La Laguna. Trata-se de uma das principais instalações administradas pelo Ministério da Inclusão espanhol e ONGs para gerir os desembarques de emergência. Inaugurado no início de 2021, durante a sua fase inicial, o centro foi alvo de intensos protestos e queixas por parte de organizações, ativistas e dos próprios migrantes, devido à superlotação e às precárias condições. No final de 2024, chegou a abrigar quase 4 mil pessoas. Recentemente, graças à melhor gestão e às renovações das infraestruturas, a situação no centro se estabilizou, reduzindo os problemas críticos do passado. No total, a estrutura já acolheu 54 mil migrantes.
“Essas pessoas foram as mais afortunadas; infelizmente, há tantas outras, milhares, que não conseguiram alcançar o objetivo e perderam a vida percorrendo a chamada ‘rota atlântica’. Ouvir os relatos daqueles que realizaram essa travessia de forma totalmente desumana e precária não pode nos deixar indiferentes”, disse o bispo local, dom Santiago Eloy Alberto Santiago.
Também discursaram a ministra da Inclusão, da Segurança Social e das Migrações, Elma Saiz Delgado, o diretor do centro e dois migrantes: Taiwo Oluwatobi, da Nigéria, e Bousso Diouf, do Senegal. Diouf conclui seu pronunciamento com as seguintes palavras: “Não pedimos privilégios, não pedimos compaixão. Pedimos respeito, humanidade e a oportunidade de viver com dignidade”.
O amor de Deus não conhece fronteiras
Em francês, Leão XIV iniciou seu discurso recordando que a Igreja celebra hoje a solenidade do Sagrado Coração de Jesus, que representa para os cristãos o amor misericordioso e infinito de Deus por cada ser humano.
“Neste contexto, é providencial que possamos achar-nos, ver-nos e, acima de tudo, saber que o amor de Deus não conhece fronteiras, não faz distinções, é concedido a todos e nos congrega na unidade, independentemente da nossa origem”, afirmou.
Ao olhar seus rostos e ouvir esses testemunhos, acrescentou, “penso também em seus corações, feridos por tantas dificuldades, mas igualmente consolados pelo amor recebido graças a outros corações abertos, generosos e misericordiosos”.
Fé, esperança e caridade: a bagagem do Apóstolo do Brasil
O Papa citou missionários ilustres das Canárias, entre eles São José de Anchieta, que partiu desta terra “para anunciar o Evangelho na América, abrindo novos horizontes missionários”. Também ele foi migrante que se dirigiu para o ignorado, “levando como principal bagagem a fé, a esperança e a caridade”.
Naquelas terras desconhecidas, os santos migrantes e missionários souberam dar o que tinham e, ao mesmo tempo, acolher o novo que se lhes era oferecido. O Santo Padre convidou os migrantes a fazerem o mesmo, oferecendo o tesouro de humanidade, sonhos e cultura que trouxeram para estas ilhas, e a estarem abertos para receber tudo o que lhes é apresentado.
Leão XIV concluiu garantindo que levará a todos em seu coração e em suas orações, confiando-os à Virgem Maria, Consoladora dos migrantes.

