Em colóquio com crianças que participam da experiência de verão no Vaticano – período de férias escolares em que a maioria dos pais, funcionários do Governatorato e da Santa Sé, trabalham -, Leão XIV fala dos males da dependência tecnológica e dos benefícios do colóquio, do se querer bem, brincar e rezar juntos: “mesmo que tenhamos a Bíblia e orações no celular, Deus não quer olhar para o celular, quer olhar para nossos corações”. E aconselhou: se afastar um pouco das telas e estabelecer limites.
Andressa Collet – Vatican News
Junto ao inventor excêntrico Sr. Charlie, ao seu fiel assistente Jeremy e à amiga grega Olympia, o Papa Leão XIV também aceitou o desafio e se uniu aos personagens nesta segunda-feira (22/06) de manhã para dar “A Volta ao Mundo em 80 dias”, tema inspirado na aventura de Júlio Verne de 1873, que acompanha as crianças que participam neste ano da Colônia de Férias no Vaticano (“Estate Ragazzi”). Na Sala Paulo VI, os filhos dos funcionários do Governatorato e da Santa Sé puderam fazer algumas perguntas ao Pontífice, a começar por Federico. O pequeno trouxe os perigos do uso excessivo das telas durante o ano, o que pode comprometer o contato com os amigos, e pediu como equilibrar a exposição ao mundo digital sem impactar o convívio social.
Leia a íntegra do colóquio do Papa com as crianças
Viver mais livres da dependência tecnológica
“Uma coisa relevante”, começou respondendo o Papa a Federido: “a tecnologia pode ser muito boa e nos serve para muitas coisas, mas quando estamos juntos não é necessário ficar com o celular ou o tablet na mão o tempo todo”. É muito relevante, continuou o Pontífice, “cultivar amizades, nos reunirmos, brincarmos juntos, talvez até estudarmos juntos como pessoas, não como computadores ou máquinas, como tecno-robôs”. Leão XIV também alertou para a realidade vivida dentro de lar, encorajando a “se libertar” das telas e a dar espaço ao contato com os pais, os irmãos e Deus:
“A família que se reúne, não basta estarmos todos lá, cada um olhando para o próprio celular. É muito relevante aprender a dialogar, a conversar, a nos dar bem com os outros, a brincar juntos e também a rezar juntos porque, mesmo que tenhamos a Bíblia e algumas orações no celular, Deus não quer olhar para o celular: Deus quer olhar para nossos corações, para nossa vida.”
Na oportunidade da resposta a Federico, o Papa também lançou o alerta aos mais velhos, para ficarem atentos ao mecanismo vivido dentro do mundo digital, “uma espécie de dependência que, propositalmente, as empresas colocam nos programas e aplicativos que existem no celular”.
“Não preciso do celular, se o cérebro funcionar”
Em seguida, foi a vez de Michela fazer a sua pergunta, retomando o tema vivido pelas crianças dentro da experiência de verão no Vaticano. A partir da “A Volta ao Mundo em 80 Dias”, ela pediu se o Papa poderia revelar algum segredo sobre as tantas viagens que fez durante a sua vida. Leão XIV explicou que acabou se perdendo numa estrada nos Estados Unidos, justamente porque foi refém da tecnologia. Ele fez uso do GPS no seu país natal, como aconteceu por tantas outras vezes no Peru, na Itália e outros países da Europa, bem diferente da realidade vivida na infância, disse o Papa, quando “todos aprendemos a ler mapas rodoviários. Se tivéssemos que ir daqui, de Roma a Nápoles, ou de Roma a Tivoli, antes de partir, estudávamos: procurávamos o mapa, víamos qual estrada, por onde era melhor ir… Hoje, todos ligamos o GPS no automóvel ou no celular e partimos”. O Pontífice reforçou sobre os males da dependência da tecnologia:
“É muito melhor aprendermos a pensar por nós mesmos, a ter a capacidade crítica de saber para onde vamos na vida, nas viagens, seja lá o que for. Estudar bem, usar a capacidade que Deus nos deu! Não preciso do celular se o cérebro funcionar! Sim, ele pode me ajudar, pode me dar informações, mas também é relevante se preparar bem para viajar. Isso eu aprendi, porque quem vai preparado, mesmo quando algo acontece, sempre consegue achar uma solução. Porque Deus nos deu uma capacidade maravilhosa com nossa cabeça, com nosso cérebro. Então, em geral, diria que isso é algo que serve para todos.”
Após conversar com as crianças, o Papa Leão XIV foi nomeado Chefe Escoteiro, recebeu o kit oficial e uma homenagem através de uma placa do “Estate Ragazzi”. A Colônia de Férias é realizada nos meses de junho e julho dentro da Cidade do Vaticano, em espaços dedicados e equipados para a realização de atividades lúdicas, recreativas e esportivas, incluindo a piscina, para diferentes faixas etárias dos 3 aos 13 anos. Ao final do encontro na Sala Paulo VI, antes de rezar um Pai Nosso e dar a bênção apostólica aos participantes da experiência, o Pontífice fez questão de dar um conselho pra ser levado aos pais:
“Antes de partir, achei que seria muito bom que todos vocês dissessem também aos seus pais que rezaram com o Papa, pois a oração é muito relevante para nós. Queremos que Jesus esteja aqui conosco! Vamos rezar juntos — vocês podem ficar em seus lugares, sentados — a oração que Jesus nos ensinou, em uma só voz.”

