A urgência pastoral não é amplificar a voz do profeta da destruição, mas recuperar a voz do profeta que aponta para o Salvador. “Convertei-vos e crede no Evangelho” só faz sentido quando quem ouve esse chamado já foi tocado por uma experiência prévia de ser amado.
Padre Marcio Tadeu – Diocese de Votuporanga (SP)
Há uma profecia necessária em todos os momentos da história. Não se trata de anunciar novidades que o Evangelho ainda não revelou. Em Jesus Cristo, tudo nos foi dado: a segunda vinda, o juízo, a comunhão dos santos, a ressurreição dos corpos. Nada disso precisa ser reinventado. O que urge, contudo, é questionar como profetizar num tempo em que os sentimentos humanos são sistematicamente instrumentalizados para produzir divisão.
O fenômeno não é peculiar ao Brasil, embora aqui se manifeste com particular intensidade. Assiste-se, em escala global, à fragmentação do tecido social em grupos que se organizam não por convicções refletidas, mas pela adesão emocional a figuras polarizadoras. O que alimenta esse processo não é apenas a maldade humana de sempre: é também uma arquitetura de comunicação deliberadamente construída para mantê-lo ativo. As tecnologias emergentes, como advertiu o Papa Leão XIV na encíclica Magnifica Humanitas (MH), estão “entrelaçadas com o tecido da vida diária, moldando os processos de tomada de decisão e afetando profundamente a imaginação coletiva”(MH 4). Os algoritmos das plataformas digitais funcionam como câmaras de eco que amplificam o que sensibiliza, o que escandaliza, o que divide, porque é exatamente esse tipo de conteúdo que retém a atenção e gera engajamento. Na avaliação da encíclica, quem controla essas plataformas “tem uma capacidade considerável de influenciar a imaginação coletiva e de expor uma visão particular da realidade”(MH 135).
A lógica não é nova. É, no fundo, a mesma lógica que tirou os programas policiais do rádio no final da década de 1980, com expressiva audiência no meio-dia, e os colocou no horário nobre da televisão, transformando as antigas narrações de cenas de crimes e acidentes em entretenimento. O resultado é uma cultura do negativo, em que a boa notícia parece ingênua e a má notícia, realista. Há algo na psicologia humana que produz uma atração profunda pelo que desaba, pelo que escandaliza. Prefere-se acompanhar onde circula o urubu a observar a dança singela do voo da andorinha. Prefere-se o cheiro da decomposição ao perfume da bondade. Não é novidade: já Santo Agostinho diagnosticava em si mesmo o prazer perverso de se deter no que não edifica (cf. Confissões). O que é novo é a velocidade e a escala industrial com que essa tendência é hoje explorada.
Nesse contexto, não é difícil achar cristãos que profetizam exclusivamente a condenação: o mundo está perdido, a conversão é urgente sob pena de destruição eterna, e quem age desta ou daquela maneira já pertence ao inferno. O diagnóstico pode ser teologicamente crível, mas pastoralmente ineficaz. Quem já ouve gritar de todos os lados que o antagonista é mau e será punido não precisa que a Igreja repita a mesma lógica com vocabulário religioso. O sal que perdeu o sabor, por mais que seja atirado com força, não tempera coisa nenhuma. A Igreja é chamada, na formulação de Leão XIV, a evitar “palavras humilhantes ou antagônicas”, optando por “uma clareza que ilumina e uma franqueza que abre novas possibilidades”(MH 14).
São João Batista, aquele que “preparou o caminho do Senhor”, é apresentado pela tradição cristã como o último dos profetas e, ao mesmo tempo, como um profeta de tipo radicalmente diferente de todos os seus predecessores. Jeremias morreu apedrejado por anunciar a ruína de Israel como consequência do pecado. Elias profetizou três anos de seca. Ambos eram profetas da crise, anunciadores de que o juízo estava chegando e que a nação colhia o que havia semeado. João pertence a essa mesma linhagem, mas sua profecia tem outra articulação central: não aponta a destruição, aponta o Salvador.
“Não sou digno de desatar a correia de suas sandálias” (Jo 1, 27): essa é a autocompreensão de João. Não é humildade performática, é clareza teológica sobre a diferença entre o mensageiro e a mensagem, entre o dedo que aponta e o horizonte que o dedo indica. João convoca à conversão do coração não como condição para escapar do castigo, mas como disposição para reconhecer quem está chegando. A penitência, em João, é abertura perceptiva, não apaziguamento de um Deus colérico.
Num tempo em que o povo está dividido, é o povo que perde. A divisão não favorece o simples; favorece os que têm poder para explorá-los. A corrupção não tem lado: ela prospera exatamente na medida em que as pessoas estão ocupadas demais odiando umas às outras para perceberem que estão sendo manipuladas. A encíclica Magnifica Humanitas é direta ao diagnosticar que, quando a política se reduz a “estéreis polarizações, o discurso sobre o bem comum perde credibilidade, e ao mesmo tempo crescem as desigualdades e as fraturas sociais”(MH 64). Não é acidente que os processos de desinformação e de radicalização emocional sejam, com assiduidade, alimentados por interesses econômicos e políticos muito específicos, que lucram com a atenção capturada e com o eleitorado mobilizado pelo medo.
Diante disso, o anúncio do amor de Deus não é ingenuidade política: é o único discurso que escapa à lógica do ódio sem abdicar da verdade. O problema com quem levanta bandeiras morais como arma política é precisamente que a bandeira não corresponde à vida. A profecia que não está encarnada na existência de quem a pronuncia é mera publicidade, não testemunho. E publicidade, por mais sofisticada que seja, incha e murcha com a mesma velocidade. A proposta da Magnifica Humanitas aponta justamente para a construção de uma “civilização do amor” que não se constrói com retórica, mas com a qualidade do testemunho daqueles que a anunciam.
A urgência pastoral, portanto, não é amplificar a voz do profeta da destruição, mas recuperar a voz do profeta que aponta para o Salvador. “Convertei-vos e crede no Evangelho” só faz sentido quando quem ouve esse chamado já foi tocado por uma experiência prévia de ser amado. A conversão não nasce do medo, nem da vergonha. Ela nasce do reconhecimento de que há alguém que ama antes de qualquer mérito e que continua amando mesmo quando ainda não se chegou aonde se deveria. É essa lógica que a encíclica descreve ao afirmar que a Igreja intervém seguindo o exemplo do Bom Samaritano, “com discrição e proximidade”(MH 21) não como tribunal que emite sentenças, mas como presença que acolhe antes de julgar.
Há uma lógica embutida nesse princípio que qualquer enfermo conhece: por mais correto que seja o diagnóstico e preciso o tratamento, se o paciente não confia no médico, a receita vai para o lixo. A confiança não se compra com autoridade; conquista-se com presença e com a certeza transmitida de que o médico está do lado do doente, não contra ele. O mesmo vale para a relação entre o anúncio cristão e o coração humano. Enquanto a Igreja for percebida como um tribunal que emite sentenças, as pessoas vão continuar procurando advogados de defesa em outros lugares. Quando for reconhecida como aquela que acolhe antes de julgar, o confessionário voltará a ser procurado não por obrigação, mas por sede.
João cresce até desaparecer. “É preciso que ele cresça e que eu diminua”: [1] essa é a lei de toda profecia autêntica. Quem fica maior ao terminar de falar provavelmente falou de si mesmo. A Magnifica Humanitas lembra que, “na era da inteligência artificial, quando a dignidade humana é ameaçada por novas formas de desumanização, temos o urgente dever de permanecer profundamente humanos”(MH 15). Esse mesmo dever se traduz, na linguagem profética, em permanecer radicalmente cristocêntrico: toda palavra que não aponta para Cristo torna-se, cedo ou tarde, um obstáculo ao próprio Cristo.
“Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo”: essa é a frase que a liturgia coloca nos lábios do sacerdote no momento de expor a Eucaristia à assembleia. É também a última síntese da profecia de João. Não o Juiz que castiga, não o Legislador que exige: o Cordeiro que tira o pecado do mundo. Tira, não cataloga, não expõe, não usa como munição. O verbo é decisivo. Num tempo em que tudo é registrado, compartilhado e “weaponizado”, a profecia que a Igreja precisa fazer ouvir é a de que há alguém que não faz isso. Há alguém que carrega para distante aquilo que mais pesa. Essa é a Boa Notícia que o mundo não encontra em nenhum algoritmo, em nenhuma plataforma, em nenhum discurso de poder. Essa é a profecia necessária.
Padre Marcio Tadeu – Sacerdote na Diocese de Votuporanga(SP), pároco, professor, Pós-graduado em Bioética pela Cátedra da UNESCO e apresentador na Rede Vida

