Nota do cardeal vigário da Diocese de Roma sobre o destino do imóvel apreendido, onde cerca de 400 pessoas não podem retornar, sendo obrigadas há uma semana a dormir em acampamentos: “Seria errado encerrar o caso apenas com o desocupamento do prédio. Esta cidade enfrenta um problema sério: o risco de perder a alma que, desde sempre, constitui sua verdadeira identidade”. E tranquiliza: “A Igreja estará sempre ao lado das pessoas que levantam um grito de sofrimento”
Vatican News
“Em uma época de profunda solidão e de desintegração generalizada dos laços sociais, ter lugares e experiências nos quais se busca estar junto, derrubar barreiras e criar uma convivência pacífica é um desafio que devemos abraçar e promover”. O cardeal Baldo Reina, vigário geral do Papa para a Diocese de Roma, se pronunciou por meio de um comunicado divulgado hoje, 8 de agosto, sobre o caso do Spin Time, o prédio da via Santa Croce in Gerusalemme, em Roma, que está sob apreensão, onde, após o início do incêndio em 29 de julho, nenhum dos ocupantes pôde mais retornar. As palavras do cardeal chegam na véspera da medida assinada pelo prefeito Roberto Gualtieri, que dá início à transferência das famílias e dos demais moradores — cerca de 400 pessoas — para soluções habitacionais com duração máxima de 60 dias, enquanto a prefeitura continuará com o processo de aquisição do prédio.
Cristo se identifica com quem fica sem um teto
“Cristo não habita nos palácios do poder, mas se identifica com quem tem fome, com o estrangeiro ou com quem ficou sem teto”: uma afirmação clara do cardeal vigário diante de uma situação que deixa dezenas e dezenas de famílias em situação de vulnerabilidade, de joelhos. Eles precisariam de um olhar, reitera Reina, que fosse de cuidado e proximidade, o olhar do Bom Samaritano; em vez disso, segundo ele, na maioria das vezes prevalecem a indiferença ou julgamentos sumários. “Com demasiada assiduidade, diante da dor, corremos o risco de ser como o sacerdote e o levita da parábola: homens das instituições e do sagrado que olham, julgam e seguem em frente, desviando o olhar para o outro lado a fim de não se contaminarem com a complexidade da realidade”.
“Somos capazes de criar oportunidades de amizade social?”
Ao relembrar a história singular da comunidade que habitou o Spin Time, Reina utiliza o termo “laboratório de convivência”. De fato, foi um laboratório entre jovens, migrantes, idosos e pessoas de diferentes culturas e religiões que, afirma o cardeal, despertou um interesse generalizado. “Foi objeto de estudos e críticas, de atenção da mídia e de controvérsias políticas. A balança oscilava constantemente entre a questão da ocupação ilegal e a da convivência social, com resultados e polarizações sempre à espreita”, observa. O endurecimento das negociações, prossegue Reina, não deve levar a pensar que se trata de um fracasso que opõe vencedores e vencidos. O convite é, portanto, ir além, ou melhor, à raiz da questão que certamente apresenta complexidades: “Somos capazes de criar oportunidades concretas de fraternidade e de amizade social?”.
O risco de perder a alma
O cardeal aborda, portanto, uma verdadeira praga da capital: “o risco de perder a alma que, desde sempre, constitui sua verdadeira identidade”. O verdadeiro “centro” não é, portanto, apenas físico, mas humano e espiritual: é a fraternidade, e Roma parece estar perdendo-a — essa é a preocupação de Reina. A esperança, à luz da rede de solidariedade que, de qualquer forma, se mobilizou em apoio aos sem-teto, é que permaneça a vontade de construir uma comunidade na qual não prevaleça o interesse do mais forte: “A Igreja de Roma, chamada a presidir na caridade, está presente. E estará sempre ao lado das pessoas que levantam seu grito de sofrimento, que buscam uma mão estendida e uma comunidade para chamar de lar”.

