Entre a margem e o horizonte, a barca de Pedro atravessa o Lago Albano com Maria

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Um dia histórico na devoção a Nossa Senhora do Lago, em Castel Gandolfo: pela primeira vez um Papa participa da procissão mariana pelas água do Lago Albano. No barco, Leão XIV confia a Maria a Igreja, a paz no mundo inteiro, todos os povos e a criação.

Vatican News

Às margens do Lago Albano, onde a beleza da criação se encontra com uma das tradições marianas mais queridas de Castel Gandolfo, a fé ganhou neste sábado, 29 de agosto, uma imagem particularmente simbólica: o Papa Leão XIV participou da procissão de Nossa Senhora do Lago e tornou-se o primeiro pontífice a percorrer de barco as águas do lago durante essa manifestação religiosa. A celebração começou na Igreja de Maria Santíssima do Lago, com a Santa Missa presidida pelo Pontífice às 18 horas, e prosseguiu pelas ruas e depois pelas águas, acompanhada por fiéis e outras embarcações.

A procissão possui raízes anteriores à própria igreja. Sua origem remonta a 1954, durante o Ano Mariano proclamado por Pio XII, quando o então pároco de Castel Gandolfo, padre Dino Sella, promoveu a primeira procissão da imagem da Virgem pelas águas do Lago Albano. Desde então, a tradição tornou-se uma das expressões religiosas mais características da cidade.

O roteiro preparado para a celebração deste ano prevê que a imagem da Madonna seja conduzida desde a igreja até a região do Tropicana e, depois, colocada em uma embarcação, na qual também embarcaria o Papa, para seguir até  Giorgio’s Beach.

A presença de Leão XIV acrescentou uma página inédita a essa história. São Paulo VI e São João Paulo II já haviam participado da tradição, mas nenhum dos dois havia percorrido de barco o trecho do lago durante a procissão. Leão XIV, portanto, não apenas presidiu uma celebração mariana, mas entrou fisicamente no coração de uma tradição popular que atravessa gerações.

Cerca de dez embarcações civis, entre elas canoas, além de meios das forças de segurança, acompanharam o trajeto. A travessia pelas águas foi prevista para durar aproximadamente 25 minutos.

A própria igreja é inseparável dessa história. São Paulo VI desejou sua construção como espaço de oração para os moradores e também para os numerosos visitantes que frequentam o lago durante o verão. As obras começaram em 1966 e terminaram em 1977. Em 15 de agosto daquele ano, na solenidade da Assunção de Nossa Senhora, Paulo VI, já gravemente enfermo, foi pessoalmente a Castel Gandolfo para consagrar o templo. Dois anos depois, em 2 de setembro de 1979, São João Paulo II celebrou ali a Eucaristia e recordou que aquela igreja havia nascido do desejo pastoral de seu predecessor.

A arquitetura da Madonna del Lago também parece dialogar com o acontecimento celebrado. A grande estrutura branca que se eleva sobre o templo evoca, segundo a interpretação ligada ao projeto de Francesco Vacchini, a vela de uma embarcação, remetendo à imagem da Igreja como barca de Pedro. É como se a própria construção preparasse, há quase meio século, a cena que hoje se tornou realidade: o Sucessor de Pedro entrando na barca e atravessando as águas sob o olhar da imagem de Maria. O pároco de Castel Gandolfo, padre Tadeusz Rozmus, destacou justamente essa relação entre a igreja, o lago e a gratidão pelo dom da criação.

O roteiro espiritual da procissão reforçou ainda mais esse simbolismo. A imagem da Madonna foi acompanhada por cruz processional, representantes das paróquias, religiosas, coros, sacerdotes, autoridades e fiéis, tendo o Papa Leão XIV junto à venerada efígie. Ao longo do caminho, as meditações apresentaram Maria como mulher da escuta, do serviço, da esperança, da paz e da comunhão, convidando os participantes a fazer da própria vida um caminho de encontro com Cristo.

Sobre as águas, a oração ganhou também uma dimensão de súplica pelo mundo. As meditações recordaram as guerras, as famílias feridas, os idosos, as crianças, os jovens, os que sofrem e todos aqueles que perderam a esperança. Uma das orações dirigidas à Madonna del Lago pede que ela interceda pelos povos atingidos pela guerra e ajude os cristãos a construir “pontes e não muros”. Em outro momento, a comunidade foi convidada a olhar para o lago como dom da criação, compreendendo sua beleza não como algo a ser simplesmente utilizado, mas como uma realidade a ser protegida e transmitida às futuras gerações.

A travessia também se tornou uma oração pela Igreja. Durante o trajeto, a comunidade pediu a Maria que acompanhasse o Papa, os bispos, os sacerdotes e a vida consagrada, para que cada comunidade cristã se tornasse um sinal credível do Evangelho. E, ao final do peregrinar, a mensagem foi de esperança: sair daquele lago como “construtores de paz”, homens e mulheres de colóquio e cristãos capazes de testemunhar o Evangelho com simplicidade e felicidade.

Diante da imagem da Madonna del Lago, Leão XIV conduziu a oração de súplica confiando à intercessão de Maria a Igreja e todos os povos. A oração pediu proteção para aqueles que sofrem com a guerra, esperança onde existe medo, cuidado para crianças, idosos, doentes, famílias e jovens, além de justiça, liberdade, dignidade humana e bem comum. Também foram confiados à Madonna os habitantes de Castel Gandolfo, os trabalhadores do lago e os peregrinos que procuram naquele lugar paz e descanso:

Ó Maria, Virgem Santa,
Mulher da escuta e do serviço,
a ti nos dirigimos com coração filial.
À tua materna intercessão,
confiamos a Igreja,
para que seja sempre fiel ao Evangelho,
corajosa no anúncio,
humilde no serviçoe
perseverante na caridade.
À tua amorosa proteção,
confiamos todos os pov
para teus filhos feridos pela guerra
e encoraja em todos o desejo da paz.

Onde cresce o ódio,
ensina-nos o perdão;
onde prevalece o medo,
devolve-nos a esperança.
Volta teu olhar solícito para as crianças,
para os idosos, para os doentes,
para as famílias, para os jovens
e para quantos vivem na solidão.

Sustenta aqueles que têm responsabilidades na vida pública,
para que promovam sempre a justiça,
a liberdade, a dignidade de cada pessoa
e o bem comum.
Protege aqueles que habitam estas terras,
aqueles que trabalham neste lago,
os peregrinos e aqueles que aqui buscam
paz e descanso.
Faz com que cada um, olhando para ti,r
eencontre o caminho que conduz a Cristo,
único Salvador do mundo.
Ele vive e reina pelos séculos dos séculos.

℟. Amém.

Assim, a procissão da Madonna del Lago de 2026 ficará marcada não apenas como uma celebração religiosa, mas como um encontro entre tradição popular, história do papado – há 400 anos em Castel Gandolfo – devoção mariana e cuidado com a criação.

Desde 1954, a imagem de Maria atravessa as águas acompanhada pela oração do povo. Hoje, pela primeira vez, um Pontífice atravessou essas mesmas águas com ela. Entre a margem e o horizonte, entre a igreja e o lago, Leão XIV ajudou a escrever uma nova página de uma tradição que continua a dizer, com a simplicidade da fé popular, que Maria conduz sempre para Cristo — e que nenhuma travessia é feita sozinha quando a esperança é colocada nas mãos de Deus.

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