Ayda Candida Mascarenhas Horta atravessou o Concílio Vaticano II, a ditadura militar e diferentes comunidades até achar no CEBI uma nova forma de divulgar a Bíblia.
Gabi Bonvechio – Cidade do Vaticano
A voz chega seguro pelos áudios do celular, mas ela avisa logo: “Estou com problema de visão, coisa da idade”. Dona Ayda Horta tem 96 anos. Nascida em Itajaí (SC) em 13 de fevereiro de 1930, filha de engenheiro agrônomo e professora, casou-se aos 17 e passou a vida acompanhando o marido topógrafo pelo Brasil. A cada nova cidade, o primeiro gesto era o mesmo: procurar a paróquia mais próxima.
“Minha formação é de professora, mas, por causa das viagens, não lecionei muito. Sempre me dediquei aos trabalhos da Igreja”, conta.
Foi no Rio de Janeiro, na década de 1960, que a trajetória de Ayda ganhou um novo sentido. O Concílio Vaticano II, realizado entre 1962 e 1965, marcou profundamente sua maneira de compreender a fé.
“Nessa época aconteceu o Vaticano II e, para mim, foi uma luz. Acendeu uma luz. Eu passei a começar a entender uma porção de coisas que a gente acreditava sem compreender. Acreditava porque acreditava”, recorda.
Moradora da Gávea, ela atuava na Paróquia Nossa Senhora da Conceição e fez cursos no Palácio São Joaquim. A formação ajudou a transformar não apenas sua compreensão da fé, mas também sua atuação pastoral.
“Através do Vaticano II, dos cursos que eu fiz, eu cresci muito na fé e tive muito mais facilidade de trabalhar, porque entendia melhor aquilo que estava vendo, que estava lendo, que estava vivendo”, afirma.
Ayda trabalhou como catequista, em escolas, em favelas e em diferentes frentes pastorais no Rio de Janeiro. Mas, ainda naquela década, já em São Paulo, também sentiu os efeitos da ditadura militar.
“Nessa época aconteceu também a Revolução, né? E a ditadura militar se instalou e começou uma era muito difícil”, lembra. Entre 1968 e 1969, manteve o trabalho com catequese de adultos e formação bíblica, enquanto morava ao lado do convento dos dominicanos. “Nós éramos vizinhas dos dominicanos, época de Frei Betto, de Frei Chico e de todo aquele pessoal. A gente era muito próxima deles. Acompanhamos todo o sofrimento, toda a luta de cada um.”
A perseguição fazia parte do cotidiano. “Éramos muito perseguidas, muito vigiadas. Foi uma época de muito temor, de muita dificuldade. A gente tinha medo até de andar nas ruas, mas continuava o nosso trabalho.”
Mesmo sob vigilância, as atividades continuavam. Eram duas reuniões semanais: uma de formação bíblica e outra de preparação dos encontros. “Tínhamos um trabalho imenso para despistar as pessoas que nos vigiavam, saindo uma a uma, não levando material nenhum nas mãos”, relata.
Mais tarde, por causa do trabalho do marido, Ayda se mudou para Rancharia, no interior paulista. Foi ali, na década de 1980, que conheceu o Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos, o CEBI.
Para ela, o encontro representou um novo degrau de uma caminhada que, décadas depois, ainda não terminou.
“Eu não posso dizer que cheguei ao topo, porque ainda tem muita coisa para aprender”, afirma.
Durante quatro anos, participou de uma formação com teólogos de São Paulo que viajavam até a região para realizar os encontros. A experiência a aproximou da metodologia da leitura popular da Bíblia e fez com que ela passasse a colaborar na formação de grupos em diferentes municípios.
A caminhada iniciada em Rancharia continuou nas décadas seguintes. Há 26 anos, Ayda vive em Pindamonhangaba, no Vale do Paraíba. Desde que chegou à cidade, retomou o trabalho de formação bíblica que já existia, mas de maneira mais tímida.
Aos 96 anos, ela continua estudando e compartilhando o que aprendeu.
“A Bíblia não é apenas uma coleção de livros, uma biblioteca. A Bíblia é um caminho. Um caminho a ser seguido. E que a gente precisa entender. Não se pode fazer uma leitura ao pé da letra. Tem que penetrar fundo, tem que ir na raiz”, enfatiza.
Um novo jeito de ler a Bíblia
O CEBI, organização que Dona Ayda conheceu na década de 1980, foi fundado em 20 de julho de 1979. É uma associação sem fins lucrativos, de caráter ecumênico, presente atualmente em diferentes regiões do Brasil.
Segundo o diretor nacional, Erivaldo José da Silva, o CEBI reúne pessoas de diferentes idades e denominações cristãs em torno de uma proposta comum de leitura da Bíblia.
“É formado por mulheres, homens, jovens, idosos, crianças de diversas denominações cristãs, reunidos pelo propósito de fortalecer esse jeito de ler a Bíblia a partir dos pequeninos”, explica.
A proposta tem uma história que remonta aos debates sobre a leitura bíblica popular surgidos a partir das experiências das comunidades cristãs na América Latina. Erivaldo conta um episódio utilizado para explicar essa perspectiva.
Segundo ele, nos anos 1960, em uma região pobre, um biblista explicava a proibição de comer carne de porco presente no livro do Levítico. A justificativa apresentada era que, no deserto, a carne poderia estragar por causa do calor. Um agricultor então respondeu: “Hoje, com essa mesma lei, Deus nos manda comer carne de porco, porque é a única que temos para nossos filhinhos”.
“Ali surgia um novo jeito de ler a Bíblia. Essa leitura que nasce a partir da realidade do povo, da defesa da vida”, afirma Erivaldo.
Nesse método, a realidade cotidiana é ponto de partida para a leitura das Escrituras.
O coordenador regional do CEBI no Vale do Paraíba, Rodrigo dos Santos, detalha como funciona a metodologia.
“Primeiro se olha a realidade, o chão da vida. Depois se olha a Palavra no seu contexto, fazendo a pergunta: ‘É que nem hoje?’, como ensinava Frei Carlos Mesters, um dos fundadores. E, por fim, se decide uma ação prática para transformar aquela realidade. Tudo em roda, sem professor em cátedra. Todos têm voz.
A proposta também se estrutura a partir do colóquio entre diferentes tradições cristãs.
“Em roda, católicos, luteranos, presbiterianos, metodistas, batistas sentam lado a lado. Ninguém pergunta a placa de igreja. O que une é a partilha da mesma Palavra e a busca por justiça”, afirma Rodrigo.
Embora tenha uma relação histórica próxima com setores da Igreja Católica, o CEBI não é um órgão oficial da instituição. Rodrigo explica que se trata de um movimento autônomo e ecumênico. “O vínculo é profundo, fraterno e histórico. Nasceu ligado ao Vaticano II e às Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), com apoio de padres, bispos e leigos, e atua até hoje em paróquias e pastorais sociais.”
Para Rodrigo, é essa perspectiva que ajuda a explicar a permanência de pessoas como Ayda na formação bíblica.
“A motivação é descobrir que a Bíblia não é um livro neutro, mas um manancial de libertação que dialoga com as dores do povo. A comunidade olha para o texto como um espelho e diz: ‘É que nem hoje’.”
Saiba mais:
O CEBI mantém informações sobre suas atividades no site cebi.org.br e no Instagram @cebi_ecumenico

