Leão XIV a artistas: a Igreja precisa de vocês, especialmente nesta era da inteligência artificial

0

O Papa recebeu artistas e curadores no âmbito do encontro “A arte da possibilidade: tecer juntos”, promovido pelo Dicastério para a Cultura e a Educação. “Torna-se urgente distinguir a arte humana daquilo que é produzido pelas máquinas”, disse Leão XIV, recordando que “para a Igreja, a arte é um lugar fundamental de escuta, onde se pode aprender sobre as aspirações e as feridas da humanidade, sobre sua sede de beleza, justiça e paz, sobre sua busca por sentido”.

Mariangela Jaguraba – Vatican News

O Papa Leão XIV recebeu em audiência, nesta sexta-feira (02/10), na Sala do Consistório, no Vaticano, os artistas e curadores que participam do encontro intitulado “A arte da possibilidade: tecer juntos”, promovido pelo Dicastério para a Cultura e a Educação.

O Pontífice iniciou o seu discurso, agradecendo aos artistas e curadores pela colaboração deles com a Santa Sé nos últimos anos, “em particular pela montagem do Pavilhão da Bienal de Veneza e pelos projetos de arte contemporânea promovidos pelo Dicastério para a Cultura e a Educação”. “Obrigado pela confiança com que aceitaram caminhar ao lado da Igreja, inclusive por novos caminhos”, ressaltou Leão XIV.

A seguir, o Papa recordou que o Papa Francisco visitou o pavilhão montado no Cárcere Feminino da Ilha da Giudecca, situada a sul do centro de Veneza, na Itália.

“Quem já passou por lá sabe que não se tratava de levar a arte para a prisão, mas de permitir que o cárcere, com sua verdade muitas vezes ignorada, ensinasse algo à arte e a todos nós. Pois «a pessoa humana é ‘digna’ pelo simples fato de existir e de ter como fim a eternidade», e é sempre maior do que sua fragilidade ou seus erros.”

Depois, recordou o lema, inspirado em Santa Hildegarda de Bingen, do Pavilhão de Veneza deste ano: “O ouvido é o olho da alma”, e disse que “a arte, como uma antena, capta as grandes questões do coração humano, às vezes semelhantes a um grito, mas frequentemente como um sussurro, e as torna audíveis, visíveis e compartilháveis”.

De acordo com o Papa, “Santo Agostinho nos deixou um testemunho imortal da inquietação do coração humano em busca da verdade. A arte, quando autêntica, é animada por essa inquietação. Por isso, a Igreja jamais considerou a arte um acessório”.

“Para a Igreja, a arte é um lugar fundamental de escuta, onde se pode aprender sobre as aspirações e as feridas da humanidade, sobre sua sede de beleza, justiça e paz, sobre sua busca por sentido.”

“Vivemos na era dos mecanismos de busca, que nos oferecem milhares de respostas em um segundo. Mas eles, por mais poderosos que sejam, apresentam o que já existe e tendem a nos dar o que já queremos”, sublinhou Leão XIV, acrescentando:

“Na era da tecnologia e do consumo, o grande perigo não é mais apenas a censura, mas a uniformização; não apenas o silêncio imposto, mas o ruído que torna impossível ouvir.”

De acordo com o Papa, “a arte é outro tipo de ‘mecanismo de busca’. Ela não funciona por indexação, mas por interrogação. Sua pergunta é uma atenção tensa, que não se contenta com a mera soma dos fatos, pois não para de cavar mais fundo, buscando a trama que os une”. “A arte de vocês”, sublinhou o Papa, “quando resiste à uniformização, quando desacelera o olhar, quando obriga a parar diante do que não se deixa consumir, é uma forma de regeneração cultural e espiritual”.

A seguir, Leão XIV recordou o Papa São Paulo VI que “proferiu palavras que permanecem um marco na relação da Igreja com os artistas”: “Precisamos de vocês”, disse Paulo VI na homilia da missa com os artistas em maio de 1964. “Nosso ministério precisa da colaboração de vocês. Porque, como vocês sabem, nosso ministério é pregar e tornar acessível e compreensível, aliás, comovente, o mundo do espírito, do invisível, do inefável, de Deus. E nessa tarefa, que traduz o mundo invisível em fórmulas acessíveis e compreensíveis, vocês são mestres”, disse ainda o Papa Giovanni Battista Montini.

“Hoje, eu também lhes digo: a Igreja precisa de vocês. Especialmente nesta era da inteligência artificial, em que se torna urgente distinguir a arte humana daquilo que é produzido pelas máquinas.”

De acordo com o Papa Leão, “há uma diferença ontológica, antes mesmo de estética, entre a arte e o que uma máquina pode gerar por meio de cálculos estatísticos a partir de milhões de imagens de outras pessoas. Faltam aos algoritmos a centelha do humano“. «A cultura e a arte, quando são autênticas, conservam essa centelha», disse o Papa, citando um trecho de sua Encíclica Magnifica humanitas.

Leão XIV reiterou que “a Igreja deseja renovar uma aliança com artistas e instituições culturais: uma aliança para proteger o ser humano“. Recordou suas palavras proferidas durante sua recente visita à sede da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), em Paris, no âmbito de sua viagem à França: «É impossível promover a educação, as ciências e a cultura sem promover a vida do homem e da mulher, que são seus protagonistas».

“Queridos artistas, queridos curadores, saibam que a Igreja olha para vocês com consideração, gratidão e esperança, que precisa de vocês e que deseja caminhar ao lado de vocês, para que, juntos, possamos zelar pela magnífica humanidade que nos foi confiada”, concluiu.

Fonte

Escreva abaixo seu comentário.

Por favor escreva um comentário
Por favor insira o seu nome aqui