Colômbia, a Igreja e os desafios pós-terremoto

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O padre Diego Meza, diretor do Secretaria Nacional de Pastoral Social e Caritas de Ipiales, descreve a situação na Colômbia após o terremoto e a importância do apoio contínuo aos mais vulneráveis: “A ajuda não chega a todos igualmente.”

Johan Pacheco – Vatican News

As comunidades afetadas pelo terremoto na Colômbia devem ser “protagonistas de sua própria recuperação e não apenas destinatárias de assistência”. Essa é a recomendação do padre Diego Meza, diretor da Secretaria Nacional de Pastoral Social – Cáritas Colômbia, que descreveu à mídia vaticana os desafios após o terremoto de 10 de agosto e o trabalho em andamento no país.

Padre Diego, após várias semanas viajando pelas áreas afetadas, qual é a situação atual da emergência na Colômbia?

Estamos em um período de transição particularmente delicado. A fase mais visível da emergência está começando a diminuir, mas isso não significa que as necessidades tenham desaparecido. Pelo contrário, continuamos a achar famílias com dificuldades de moradia; casas que precisam de reparos ou reconstrução; comunidades com acesso limitado a apoio institucional; e famílias que ainda precisam de assistência para recuperar um nível mínimo de estabilidade. Por essa razão, no Serviço Nacional de Pastoral Social da Colômbia, estamos trabalhando simultaneamente em duas frentes: respondendo às persistentes necessidades humanitárias e preparando seriamente a recuperação inicial. O problema que encontro é que alguns já estão declarando o fim da emergência, quando muitas famílias estão apenas começando a reconstruir suas casas, retomar seus meios de subsistência e reorganizar sua vida familiar e comunitária.

Quais são os problemas principais que você encontrou nas áreas afetadas?

Há vários, mas vou destacar três. O primeiro continua sendo a falta de moradia segura. Em uma de nossas visitas recentes às áreas afetadas, por exemplo, de 234 pessoas cujas casas foram classificadas como inabitáveis ​​ou destruídas, 86 ainda moravam lá porque não tinham outra opção. Um segundo problema diz respeito ao acesso efetivo aos mecanismos institucionais de recuperação. Encontramos casas sem avaliações técnicas oficiais e famílias relatando inconsistências nas avaliações recebidas. Isso é muito relevante porque um obstáculo administrativo pode, em última análise, se tornar uma barreira para o acesso a ajuda ou programas de recuperação no porvir. O terceiro problema é de natureza territorial. A ajuda não chega a todos igualmente. Comunidades rurais, indígenas, afrodescendentes, dispersas ou de difícil acesso enfrentam maiores dificuldades.

Atualmente, está visitando comunidades indígenas no departamento de Cauca, um dos mais afetados pelo terremoto. O que está emergindo da região?

As visitas da semana passada a algumas comunidades indígenas em Cauca nos lembraram que uma emergência nacional não tem os mesmos efeitos em todas as populações devido a vulnerabilidades preexistentes, que impactam profundamente a forma como são afetadas. Lidar com a perda de uma lar em uma cidade com moradias para alugar, transporte e serviços relativamente próximos não é o mesmo que lidar com isso em uma comunidade rural ou indígena, onde as famílias estão dispersas e o acesso é mais difícil. Visitar as comunidades indígenas em Cauca exige que ouçamos antes de elaborarmos respostas. A recuperação não pode ser reduzida simplesmente à importação de uma solução padronizada de Bogotá. Devemos entender como o território é habitado, quais formas de organização comunitária existem, quais materiais e conhecimentos estão disponíveis localmente e o que a reconstrução significa para uma comunidade. Essa escuta é particularmente relevante para a Cáritas Colômbia, porque queremos que as comunidades sejam protagonistas de sua própria recuperação e não apenas receptoras de ajuda.


Então, nessa recuperação, qual é o papel específico das dioceses?

Este é talvez um dos aspectos que eu mais gostaria de enfatizar. Como Secretaria Nacional de Pastoral Social, não chegamos a territórios vazios, mas a locais onde dioceses, paróquias, equipes de pastoral social, bispos, padres, freiras, agentes pastorais e comunidades estão presentes. Essas comunidades conhecem as famílias e têm oferecido uma série de formas multifacetadas de apoio que ainda não conseguimos quantificar com precisão. Nossa tarefa, a partir da capital, é coordenar essa presença territorial com conhecimento técnico, cooperação internacional e recursos humanitários. Até o momento, temos cinco projetos em andamento e quatro em fase de planejamento, com presença prevista em 13 jurisdições eclesiásticas. Essas intervenções focam em habitação, água, saneamento, proteção e, progressivamente, recuperação inicial. Essa complementaridade é essencial: as dioceses contribuem com sua proximidade e conhecimento do território, nossas equipes técnicas oferecem metodologias e padrões humanitários, e a rede nacional e internacional da Cáritas nos permite mobilizar solidariedade e recursos.



Qual é o desafio da reconstrução?

O maior desafio não é reconstruir as estruturas vulneráveis ​​que existiam antes do terremoto. Avaliações técnicas mostram que parte dos danos também se deve a fragilidades estruturais preexistentes, restrições econômicas e falta de assistência técnica. Algumas famílias já começaram a reconstruir suas casas com recursos próprios e correm o risco de que, por necessidade, recorram a soluções que as exponham a futuros calamidades. Por isso, precisamos de um plano de recuperação que combine recursos financeiros, apoio técnico e participação da comunidade. Enfrentamos também outro desafio: os preços dos materiais, da mão de obra e dos aluguéis aumentaram em algumas áreas, enquanto a oferta de moradias é limitada. Como resultado, a reconstrução está se tornando cada vez mais cara tanto para as famílias quanto para as organizações que as apoiam.


Embora a Colômbia tenha recebido solidariedade internacional nas últimas semanas, mais recursos se fazem necessários. Por quê?

Porque estamos entrando em uma fase que exige máxima continuidade. O fornecimento de alimentos, água e itens de primeira necessidade é essencial durante a emergência, mas consertar e reconstruir casas, apoiar as famílias e restaurar suas condições de vida requer mais tempo e recursos. Recebemos um apelo emergencial da Cáritas Internacional, que ainda está na fase de mobilização de recursos, especificamente para fortalecer a recuperação inicial, em particular as soluções de moradia e reconstrução. Sabemos que a Colômbia está pedindo solidariedade em um momento em que inúmeras crises humanitárias afetam o mundo. Portanto, nosso compromisso deve ser igualmente sério: monstrar de forma transparente onde as necessidades estão concentradas, priorizar aqueles com menos apoio e garantir que os recursos cheguem aos locais onde possam realmente gerar uma recuperação sustentável.

Num país já assolado por conflitos armados, pobreza e profundas desigualdades territoriais, o que revelou este terremoto?

Revelou que as consequências de desastres em contextos já desafiadores são muito mais graves do que em outros lugares, especialmente quando consideramos que afetam famílias que já vivem em habitações precárias, em situação de pobreza, isolamento geográfico ou com presença institucional limitada. Isso exige que ampliemos nossa perspectiva. Portanto, os esforços de reconstrução devem garantir que as famílias não retornem simplesmente à situação em que se encontravam antes do terremoto, mas que possam fazê-lo em condições mais seguras e dignas.

A Cáritas costuma falar sobre sua missão de alcançar “cada canto”. O que isso significa?

Significa que nossa medida de sucesso não pode ser simplesmente o número total de pacotes de ajuda entregues. Devemos nos questionar quais comunidades ainda estão sem cobertura, quais famílias correm o risco de se tornarem invisíveis quando a emergência sair das primeiras páginas dos jornais. Para a Cáritas Colômbia, no entanto, há também uma razão profundamente evangélica: acreditamos que toda pessoa tem uma dignidade que não depende de onde vive ou da visibilidade de seu sofrimento. Jesus nos ensina a olhar especialmente para aqueles que ficam à margem. Portanto, alcançar cada canto não é apenas um desafio logístico, mas uma maneira concreta de viver nossa fé e tornar presente uma Igreja que permanece próxima, mesmo quando as câmeras se desligam e a fase mais longa e difícil da recuperação começa.

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