Através de participação em modalidade on-line, o prefeito do Dicastério para a Cultura e a Educação, cardeal José Tolentino De Mendonça, fez a abertura do Simpósio “A Educação e a Escola em Portugal”, com uma reflexão sobre Inteligência Artificial, o pensamento crítico, a vida interior e a relação educativa. O evento de dois dias em Fátima reúne mais de 400 educadores e visa “traçar mapas educativos para uma Magnífica Humanização”.
Pedro Quintans*
“A Inteligência Artificial não é apenas um desafio tecnológico para a educação: ela coloca, com uma nova radicalidade, a questão sobre o que significa ser humano”. Foi esse o ponto de partida da intervenção de dom José Tolentino De Mendonça, prefeito do Dicastério para a Cultura e a Educação, na abertura do Simpósio «A Educação e a Escola em Portugal: Traçar mapas educativos para uma Magnífica Humanização», que reúne 420 educadores em Fátima.
Partindo da imagem dos “mapas marítimos” e da “tradição portuguesa de navegação”, o cardeal sublinhou que “os mapas acumulam conhecimento e experiência”, mas podem, ainda hoje, não ser suficientes perante territórios novos. “O mundo revelava-se maior do que a sua representação e era necessário ter a coragem de olhar, de fazer-se ao largo, observar, conhecer, corrigir as cartas e traçar novas rotas”. Para De Mendonça, é também essa a situação atual da educação: “temos atrás de nós uma extraordinária tradição educativa que não temos qualquer razão para abandonar, pelo contrário, precisamos dela”.
Para o prefeito, o mundo em que crescem crianças, adolescentes e jovens “muda hoje a uma velocidade que interpela profundamente a escola, a universidade, a família e, naturalmente, a própria comunidade cristã”. A Inteligência Artificial surge, nesse contexto, “talvez como o sinal mais evidente desta metamorfose”. O desafio, explicou ele, não consiste apenas em” aprender a utilizar novas ferramentas”, mas em compreender o que “essas mudanças dizem sobre a própria pessoa”:
Os limites da tecnologia em prol da dignidade humana
O cardeal colocou a questão a partir da experiência concreta dos estudantes. Hoje, observou ele, é possível pedir à Inteligência Artificial que “explique conceitos, traduza textos, resolva problemas, resuma livros, prepare apresentações ou produza imagens” e, pasme-se, “pode mesmo responder a perguntas sobre “a fé, o amor, o sofrimento, a morte, Deus ou o sentido da própria existência”. Perante a facilidade de acesso às respostas, “a pergunta educativa torna-se inevitável”.
“Se o acesso às respostas é cada vez mais fácil, o que significa hoje educar?”, interrogou. O cardeal distinguiu, então, a capacidade tecnológica da experiência humana. “A pessoa, porém, não é um sistema que processa informações, mas alguém que compreende e atribui significado àquilo que vive, ama e sofre, entra em relação e exerce a sua liberdade, assumindo a responsabilidade pelas escolhas” numa “procura ardentemente, eu diria dramaticamente, a verdade e interroga-se sobre o bem e a beleza”. É nessa “riqueza irredutível do ser humano” que, defendeu ele, deve começar uma “magnífica humanização”:
“Precisamos, é verdade, de novos mapas, mas quem navega sabe que um mapa só por si não basta, é necessária uma bússola. Para a educação cristã, a bússola continua a ser a dignidade integral da pessoa humana revelada pela pessoa de Jesus Cristo”.
Nesse sentido, De Mendonça recuperou uma expressão do Papa Leão XIV: “colocar a pessoa antes do algoritmo”. Não se trata, explicou ainda, de “contrapor o ser humano à tecnologia”, mas de estabelecer “uma ordem, uma hierarquia para que a tecnologia permaneça um instrumento ao serviço da liberdade e do crescimento humano”.
Preservar a relação educativa
Um dos eixos centrais da intervenção foi a relação entre tecnologia e relação educativa. Dom José Tolentino De Mendonça reconheceu que a Inteligência Artificial “pode ser uma ajuda preciosa para o professor e para o estudante”, permitindo explicar temas, propor exercícios ou adaptar materiais. No entanto, o prelado sustentou que esse não é o centro do ato educativo hoje: “a máquina pode transmitir informação, mas o educador pode ser o parteiro de algo”, pode “verdadeiramente tocar, ajudar a descobrir uma vocação, pode dar asas a alguém para poder voar”. A tecnologia poderá adquirir verdadeiro sentido educativo se permitir libertar tempo para aquilo que nenhuma máquina pode realizar: “a escuta, o encontro, o colóquio, o acompanhamento pessoal, o trabalho partilhado, a construção da comunidade”.
É preciso aprender também a dizer não à tecnologia
Outro desafio colocado pela Inteligência Artificial é o modo como se aprende. O cardeal alertou para o risco do estudante obter “imediatamente o resultado final sem ter necessariamente percorrido o caminho que conduz a esse resultado”. E “isso não é bom, porque a aprendizagem é o processo de elaboração”, afirmou. E deixou um desafio concreto à escola: perante uma resposta produzida pela IA, não questionar apenas “qual é a resposta?”, mas também “como é que chegaste aqui, de onde vem esta informação, é confiável? Como podes verificá-la? Que outras explorações são possíveis?” “Então, é preciso ativar ainda mais o nosso pensamento crítico para poder controlar a máquina e não o contrário”, afirmou o prefeito.
Mas a educação deve formar também para a liberdade de não utilizar a tecnologia: “a tecnologia se torna verdadeiramente nossa quando somos livres para não utilizá-la”, afirmou. “Não é apenas aprender a dizer sim, é também aprender a dizer não”, acrescentou o cardeal português, defendendo que “a escola que cria cidadãos livres é uma escola que cria mulheres e homens capazes de dizer não e de pensar pela sua própria cabeça, e de ouvir o desejo do seu próprio coração”.
Não basta saber como viver, mas também porque viver
A reflexão sobre a tecnologia conduziu De Mendonça à questão da vida interior. Para o cardeal, “cultivar a vida interior” constitui uma das prioridades educativas apontadas por Leão XIV e está profundamente ligada à construção de “um digital humano”. “Não basta ligar os jovens às redes digitais se depois permanecem desligados de si mesmos, dos outros e da própria interioridade”, recordou ele, citando o Papa.
O prefeito chamou a atenção para uma “pobreza” do nosso tempo: “a perda da luz interior, a perda das constelações interiores, dos pontos de referência, de estrelas que nos guiem”. “É muito interessante aquilo que o Papa Leão XIV afirmou sobre os jovens que “possuem instrumentos tecnológicos cada vez mais sofisticados, mas têm dificuldade em achar um sentido pelo qual viver, esperar, amar e até sofrer”, disse De Mendonça.
É nesse contexto que colocou uma pergunta que considera central para o trabalho educativo: “a minha vida tem sentido?” “Esse grito ou esse sussurro nós temos de escutar e temos de permanecer fiéis a essa pergunta, acompanhando a formulação de uma resposta autêntica que só nasce do cultivar da vida interior”, afirmou o cardeal. O silêncio ganha, por isso, um novo valor: “o silêncio é um fator de educação, é um fator fundamental e há que não ter medo do silêncio, mas olhá-lo como um grande recurso educativo.”
Ninguém educa sozinho
A Inteligência Artificial coloca também uma questão de justiça educativa. Dom José Tolentino De Mendonça destacou possibilidades como a superação de barreiras linguísticas, a acessibilidade para pessoas com necessidades específicas e a disponibilização de recursos educativos em contextos onde são escassos. Mas alertou para o risco da inovação “reduzir as distâncias ou aumentá-las” e “corrigir desigualdades ou ampliar as desigualdades sociais”:
“Gerar um digital humano significa, portanto, fazer da inovação também um instrumento de justiça educativa.”
Essa tarefa, acrescentou ele, não pode ser assumida isoladamente, porque “ninguém educa sozinho; famílias, escolas, comunidades cristãs, instituições públicas, o mundo da cultura, o mundo das empresas, devem aprender a trabalhar em conjunto”. É nesse contexto que recuperou o Pacto Educativo Global, lançado pelo Papa Francisco e relançado por Leão XIV, e a imagem de uma “constelação educativa global”: “realidades diferentes que, relacionando-se entre si, podem formar um desenho capaz de orientar o caminho”.
O porvir continua a ser uma tarefa
No final da sua intervenção, dom José Tolentino De Mendonça retomou a imagem inicial da navegação: “também nós, educadores, temos nas mãos um mapa incompleto, um mapa incompleto”, reconhecendo que não é possível antecipar de que modo a Inteligência Artificial transformará “a realidade escolar”, “o sistema de transmissão”, “as profissões” ou “a escola e a universidade”. “Mas nem por isso estamos condenados a navegar sem bússola”, afirmou o prefeito. “Temos mapas, são os valores; temos uma bússola, que é a dignidade integral da pessoa humana revelada na pessoa de Jesus Cristo, no Verbo Encarnado”, acrescentou ele, apontando ainda para “a estrela polar do pacto educativo”. A missão dos educadores católicos passa, assim, por responder à pergunta que atravessa a Magnifica humanitas: “como permanecer humanos”:
E deixou aos educadores uma última imagem: “não conhecer antecipadamente cada porto de chegada, mas ajudar as novas gerações a não perder o rumo, a direção durante a viagem”. “Continuemos, pois, a traçar novos mapas, mantendo seguro a bússola da dignidade humana e levantando o olhar para a estrela polar do pacto educativo”, concluiu o cardeal. “Mas, sobretudo, ajudemos os nossos jovens a reencontrar dentro de si a força interior, as constelações interiores, que lhes permitam reconhecer uma rota e dar sentido, um sentido de felicidade, de realização plena à sua própria viagem”. Para dom José Tolentino De Mendonça, esta é “uma das formas mais profundas daquela magnífica humanização que somos juntos chamados a gerar”.
* Comunicação SNEC – Secretariado Nacional da Educação Cristã de Portugal

