“A escuta corresponde ao estilo humilde de Deus”

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Na sua Mensagem para o Dia Mundial das Comunicações Sociais, Francisco exorta os jornalistas e os profissionais de comunicação a terem “capacidade de escutar”. O Papa afirma que “na Igreja há grande necessidade de escutar”.

Rui Saraiva – Portugal

No próximo domingo 29 de maio, Solenidade da Ascensão do Senhor, a Igreja celebra o LVI Dia Mundial das Comunicações Sociais, uma data instituída pelo Concílio Vaticano II em 1963 através do Decreto ‘Inter Mirifica’.

Na sua mensagem para este ano de 2022, o Papa dá seguimento à sua proposta do ano anterior baseada nos verbos “ir” e “ver” e exorta os jornalistas e profissionais de comunicação a escutarem. Francisco considera que “escutar” “é decisivo” para “um autêntico colóquio”.

“Escutar com o ouvido do coração” é o título da mensagem do Santo Padre dirigida aos media. Francisco considera que “estamos a perder a capacidade de ouvir a pessoa que temos à nossa frente, tanto na teia normal das relações quotidianas como nos debates sobre os assuntos mais importantes da convivência civil”.

Segundo o Papa, na sociedade “a escuta está a experimentar um novo e relevante desenvolvimento em campo comunicativo e informativo”. A este propósito, Francisco cita “as várias ofertas de podcast e chat áudio existentes no mercado” que vêm confirmar “que a escuta continua essencial para a comunicação humana”.

Com o ouvido do coração

“A partir das páginas bíblicas aprendemos que a escuta não significa apenas uma perceção acústica, mas está essencialmente ligada à relação dialogal entre Deus e a humanidade” – escreve o Papa.

“O «shema’ Israel – escuta, Israel» (Dt 6,  4) – as palavras iniciais do primeiro mandamento do Decálogo – é continuamente lembrado na Bíblia” – recorda o Papa sublinhando que de “entre os cinco sentidos, parece que Deus privilegie precisamente o ouvido”.

“A escuta corresponde ao estilo humilde de Deus” – declara o Santo Padre assinalando que esta atitude “permite a Deus revelar-Se como Aquele que, falando, cria o homem à sua imagem e, ouvindo-o, reconhece-o como seu interlocutor”.

Francisco recorda na sua mensagem que Deus “chama explicitamente” o ser humano “a uma aliança de amor, para que possa tornar-se plenamente aquilo que é: imagem e semelhança de Deus na sua capacidade de ouvir, acolher, dar espaço ao outro”.

“Jesus convida os seus discípulos a verificar a qualidade da sua escuta. «Vede, pois, como ouvis» (Lc 8, 18): faz-lhes esta exortação depois de ter contado a parábola do semeador, sugerindo assim que não basta ouvir, é preciso fazê-lo bem” – escreve o Papa.

Por uma boa comunicação

Para o Santo Padre “a escuta é o primeiro e indispensável ingrediente do colóquio e da boa comunicação”. O Papa lembra os perigos de uma comunicação que procura espiar os outros ou que pensa mais nas audiências do que na escuta.

Francisco sublinha que o “que torna boa e plenamente humana a comunicação é precisamente a escuta de quem está à nossa frente, face a face, a escuta do outro abeirando-nos dele com abertura leal, confiante e honesta”.

“A boa comunicação” – escreve o Santo Padre – “presta atenção às razões do outro e procura fazer compreender a complexidade da realidade”.

Para o Papa “não se comunica se primeiro não se escutou, nem se faz bom jornalismo sem a capacidade de escutar. Para fornecer uma informação sólida, equilibrada e completa, é necessário ter escutado prolongadamente. Para narrar um acontecimento ou descrever uma realidade numa reportagem, é essencial ter sabido escutar”.

Francisco assinala a necessidade de “escutar várias vozes” com o objetivo de “ouvir várias fontes” para dar “credibilidade e seriedade” à informação a transmitir.

Em particular, o Papa chama a atenção para as “migrações forçadas” reconhecendo que “é uma problemática complexa”. Salienta ser necessário superar os preconceitos sobre os migrantes começando por “ouvir as suas histórias”.

“Dar um nome e uma história a cada um deles. Há muitos bons jornalistas que já o fazem; e muitos outros gostariam de o fazer, se pudessem. Encorajemo-los! Escutemos estas histórias! Depois cada qual será livre para sustentar as políticas de migração que considerar mais apropriadas para o próprio país. Mas então teremos diante dos olhos, não números nem invasores perigosos, mas rostos e histórias de pessoas concretas, olhares, expectativas, sofrimentos de homens e mulheres para ouvir” – revela o Papa.

Escutar na Igreja

Na sua Mensagem para o Dia Mundial das Comunicações Sociais, Francisco afirma que “também na Igreja há grande necessidade de escutar”. Declara que a escuta “é o dom mais precioso e profícuo que podemos oferecer uns aos outros”.

“Nós, cristãos, esquecemo-nos de que o serviço da escuta nos foi confiado por Aquele que é o ouvinte por excelência e em cuja obra somos chamados a participar” – assinala o Papa afirmando que “quem não sabe escutar o irmão, bem depressa deixará de ser capaz de escutar o próprio Deus”.

“Na ação pastoral, a obra mais relevante é o «apostolado do ouvido»” – diz o Santo Padre no seu texto, sublinhando que “devemos escutar, antes de falar”.

No final da sua Mensagem, Francisco recorda o processo sinodal em curso e pede oração e escuta recíproca: “Recentemente deu-se início a um processo sinodal. Rezemos para que seja uma grande ocasião de escuta recíproca. Com efeito, a comunhão não é o resultado de estratégias e programas, mas edifica-se na escuta mútua entre irmãos e irmãs” – declara o Papa.

Em Portugal, o Secretariado Nacional das Comunicações Sociais vai assinalar o Dia Mundial das Comunicações Sociais com alunos de Comunicação Social. O objetivo é “dar espaço aos jovens” tendo como horizonte a Jornada Mundial da Juventude Lisboa 2023.

A sessão vai debater os pontos fortes e fracos da presença da Igreja na comunicação social e vai decorrer na sexta-feira, 27 de maio, com alunos e professores da licenciatura em Comunicação Social e Cultural, da Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Católica Portuguesa.

Laudetur Iesus Christus

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