A ortodoxia russa como religião universal

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As condolências do patriarca Kirill pela morte do líder supremo iraniano Khamenei, morto em ataques aéreos israelenses e americanos, também expressam um sentimento de superioridade da Ortodoxia Russa na defesa da verdadeira fé. Isso ficou evidente também em seu discurso à assembleia do clero da metropolia de Moscou, que se reunia na mesma ocasião.

Pe. Stefano Caprio*

O patriarca Kirill de Moscou enviou suas condolências ao presidente iraniano Massoud Pezeshkyan pela morte do Aiatolá Khamenei, a quem considerava um “homem forte de grande espiritualidade”, unindo-se às acusações do presidente Vladimir Putin contra esse assassinato “ilegal e imoral” cometido pelos americanos. A Rússia respondeu à guerra de Trump e Netanyahu com uma linguagem muito dura, porém formal, considerando o novo quadro da ordem mundial em que Moscou desempenha um papel secundário do ponto de vista militar, político e econômico, mas reivindica um primado “ética e espiritual”.

Nesse sentido, a compaixão patriarcal pelo líder supremo dos xiitas persas também expressa um senso de superioridade, fortalecio pelo confronto em nível mundial com outras Igrejas e religiões. Khamenei representava, no mais alto nível, a “fé militante” de um grande povo que, por mais de cinquenta anos, se posicionou como um bastião da “defesa das tradições” contra a degradação ética do Ocidente, a motivação da revolução islâmica do aiatolá Khomeini de 1979, da qual Khamenei já era um dos principais participantes, para derrubar uma monarquia que havia buscado modernizar a sociedade iraniana na “revolução branca”, que obrigava as mulheres tirares seus véus e se matricularem na universidade.

Agora, porém, a maior figura hierática dos “valores tradicionais” é precisamente Kirill (Vladimir Gundyaev), que subiu ao trono patriarcal há mais de quinze anos, e que desde então, viu a morte de dois Papas de Roma: o alemão Joseph Ratzinger, grande guardião da tradição, e o “irmão” argentino Jorge Mario Bergoglio, por ele abraçado ano aeroporto de Havana em 2016, já se sentindo superiorn a ele na defesa da verdadeira fé. A barba branca da religião universal não será mais aquela envolta pelo turbante preto xiita, por mais herdeiros que ainda subam ao palco da guarda nacional em Teerã, mas será aquela refletida pela tiara dourada do patriarca ortodoxo da Terceira Roma Universal, nas solenes liturgias das catedrais ao redor do Kremlin.

Há alguns dias, Kirill presidiu no templo principal de Cristo Salvador, reconstruído nos anos noventa como símbolo do renascimento religioso da Rússia após a “revolução vermelha” que havia imposto o ateísmo, a assembleia de todo o clero da metropolia de Moscou, por ele definida como “a maior estrutura eclesiástica” de todo o mundo cristão. Trata-se de uma jurisdição organizada há cinco anos, unindo a eparquia de Moscou às da província que circunda a capital, com o objetivo específico de exaltar a grandeza do patriarcado no contexto da iminente “guerra santa” que começaria alguns meses mais tarde. Enumerando as cifras da metropolia, o patriarca recordou as 1.228 paróquias, 1.682 igrejas, 318 capelas, 23 mosteiros e 9 abadias, onde atuam 1.709 sacerdotes.

Com esses números, a Sé Metropolitana de Moscou supera até mesmo a maior instituição católica, a Arquidiocese de Milão, na Itália, que sempre manteve a unidade das diversas áreas de rito ambrosiano, com “apenas” 1.107 paróquias. Na realidade, poderíamos discutir o tamanho da província eclesiástica de Milão, que também constitui a Sé Metropolitana da Lombardia e que serve a mais de dois mil sacerdotes, seculares e religiosos, ou talvez a assiduidade dos fiéis às celebrações litúrgicas, onde em Milão o número é de cerca de um milhão em cada cinco, enquanto em Moscou não passa de meio milhão em cada vinte. Mas o Patriarca não está interessado no número absoluto de fiéis: para a religiosidade ortodoxa, o que importa é a declaração de pertencimento, não a assiduidade à igreja.

Assim, em seu discurso ao clero, Kirill elogia “o nosso povo que conserva devotamente a verdadeira fé cristã”, com contínuas inaugurações de novas igrejas graças à “misericórdia divina para conosco, após os anos muito difíceis das perseguições”, durante os quais ele próprio se torna bispo aos 29 anos, em 1976, servindo fielmente ao regime ateu de Brejnev. Agora, pelo contrário, “jovens e pessoas de meia-idade também vêm à igreja, não apenas mulheres idosas”, como nos tempos soviéticos, e assim a Igreja russa pode lançar-se em um “novo e grande ministério missionário” em nível universal. O patriarca, de fato, enfatiza que “não podemos e não devemos esconder nossa fé nem negligenciar sua confissão pública, em um mundo onde continuam as tentativas de desvalorizar a herança cristã”. De fato, “aqueles que viajam pelos países ocidentais veem magníficas igrejas se esvaziando e fechando, em um mundo onde o sistema político não impede a vida religiosa e eclesial, mas as pessoas se envergonham de ser cristãs, devido à devastação espiritual e ao desprezo por tudo o que está ligado à fé”.

A Igreja russa deve ser o farol de uma nova evangelização mundial para evitar que um novo secularismo ateu prevaleça em todos os lugares, como nos tempos da Terceira Roma medieval. Contudo, Kirill não nega que essa superioridade religiosa ainda não seja suficientemente eficaz na Rússia, porque “não só no Ocidente, mas também aqui entre nós, há pessoas que questionam a fé, a própria existência de Deus e o poder salvador de seus mandamentos… há aqueles que são indiferentes às questões religiosas e, às vezes, até mesmo negativos em relação a esses assuntos”. Ele não chega a falar de “apostasia”, como está ocorrendo em nível de civilização mundial, porque “em nossa abençoada pátria esse termo não se aplica”, mas devemos estar atentos à condição espiritual “não apenas de nossos fiéis, mas de toda a sociedade russa”.

Ele então cita a passagem de Mateus 6,21, “onde estiver o seu tesouro, aí estará também o seu coração”, para criticar um estilo de vida baseado unicamente na satisfação e no bem-estar material, “como no reino ocidental do consumismo”. A “preferência pelo conforto” é particularmente visível em Moscou e nas principais cidades da Rússia, e um pouco menos nos subúrbios e no interior do império. É por isso também que a Igreja russa apoia a campanha para “repovoar cidades e vilarejos” em toda a Federação. Preocupa sobretudo a atitude das jovens gerações neste sentido, pois “os jovens sucumbem mais facilmente às tentações da carne”.

É necessário, portanto, “um maior empenho pastoral do clero para com os jovens, recordando sobretudo que as gerações atuais são “filhos da era digital e devemos compreender a sua linguagem e o seu modo de pensar“. É preciso evitar a todo o custo o “adaptar-se“ a estas formas de comunicação e de “perda da própria identidade“, e destacar os fatores que podem influenciar positivamente a mentalidade e o estado de espírito dos jovens de hoje. A educação, que hoje ocorre quase inteiramente por meio de computadores, não basta; é preciso mais amor e compaixão por aqueles que ainda não são maduros, aliás, por aqueles que correm o risco de permanecer crianças por toda a vida, com as limitações digitais impostas à psicologia humana.

Para o crescimento saudável dos jovens, é evidente a necessidade de uma “família cristã forte“, sem a qual não pode haver um “povo cristão forte“ de forma que “cada possa se tornar missionário, pedagogo e pai amoroso do próprio rebanho“. Assim, as tantas novas igrejas não serão meramente “centros arquitetônicos dominantes, mas autênticos centros de misericórdia, iluminação e vida espiritual.“ Kirill cita interlocutores protestantes que lhe disseram recentemente que “a beleza das vossas igrejas por si só proclama muito mais do que nós podemos fazer com nossas pregações”, desde que se tornem “verdadeiros lugares da família cristã”.

A Igreja deve resistir às novas tentações da inteligência artificial, que “visa substituir o intelecto humano, sua alma e consciência, sua ética, tornando-se o maior perigo para a civilização contemporânea”. O patriarca adverte que hoje “estão sendo feitas tentativas de modificar o código genético”, uma das ameaças mais repetidas pelos russos durante o período da Covid, para “reprogramar a pessoa humana”, como antes podia aparecer somente “nas fantasias mais terríveis”. A tarefa da Igreja é ajudar a garantir que a tecnologia permaneça a serviço do homem e não se transforme em um “mestre implacável capaz de reduzir o homem a um objeto manipulável, incapaz de fazer escolhas morais”. Isso diz respeito não apenas à defesa da soberania “civil e ética” do povo russo, mas de toda a raça humana, e a isso se pode reagir somente sabendo-se proteger de “interesses estranhos às nossas sagradas tradições”.

Para resistir às ameaças “pagãs e psicodesviantes”, o patriarca conclui afirmando que se deve “continuar a guerra contra aqueles que buscam arruinar a Pátria”, exortando os jovens a “oferecerem suas vidas” para redescobrir os fundamentos espirituais contra toda falsa doutrina e desvio. Os sacerdotes ortodoxos russos devem considerar como prioritário o serviço de assistência aos militares, que “ofereça quer o consolo que o apoio” na linha de frente e nas mais diversas condições sociais, para “compreender suas experiências à luz da fé”. O patriarca recorda que “ao longo da história russa, a Igreja rezou pelos defensores da Pátria, inspirando seu sacrifício”, também celebrando a liturgia em zonas de combate. Lembrando que o presidente Putin declarou 2026 como o Ano da Unidade dos Povos da Rússia, o Patriarca Kirill volta seu olhar para todos os povos da Terra, que devem se unir ao povo russo para achar a sua salvação.

*Pe. Stefano Caprio é docente de Ciências Eclesiásticas no Pontifício Instituto Oriental, com especialização em Estudos Russos. Entre outros, é autor do livro “Lo Czar di vetro. La Russia di Putin”. (Artigo publicado pela Agência AsiaNews)

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