A poetisa e tradutora Irina Jurčuk, natural de Kharkiv, cidade fronteiriça entre os dois países e epicentro do conflito em curso, publicou em Kiev o livro “A Passagem elevada”, uma antologia que reúne textos de autores russos e ucranianos contemporâneos, além de traduções e rimas bilíngues da própria autora. Uma forma de redescobrir a verdadeira identidade, sem ser destruída pela opressão e pelas reivindicações.
Pe. Stefano Caprio*
A questão fundamental no eterno conflito entre a Rússia e a Ucrânia, que se arrasta no terreno há quatro anos e na mente das pessoas há quatro séculos (poderíamos dizer há mais de um milênio desde a fundação da Rus’ de Kiev), é o choque entre duas visões do mundo, das relações humanas e das relações entre os povos: a do Oriente coletivista e a do Ocidente personalista, nas muitas variações em que podem ser definidas.
O conflito diz respeito aos territórios nas duas margens do rio na história europeia, na representação do Danúbio, do Dnieper e do Volga, intensifica-se no choque entre as diferentes interpretações do cristianismo latino e bizantino, da ortodoxia russa e da ortodoxia ucraniana, do cristianismo e do islamismo, e nas muitas inflexões linguísticas e culturais.
Os russos não consideram o ucraniano uma verdadeira língua, mas o confronto se estende ao polonês, ao tcheco e ao búlgaro, ao sérvio e ao croata, e a outras variantes das línguas eslavas, cada uma das quais reivindica ser uma “língua materna” à qual todas devem se referir. Todos os eslavos ortodoxos utilizam a dimensão sagrada do eslavo eclesiástico, que remonta às raízes comuns do antigo eslavo, chegando mesmo a discutir sobre a pronúncia variável de fórmulas que agora são difíceis de entender para os fiéis durante as liturgias, que continuam sendo prerrogativa do clero como ferramenta para afirmar a superioridade “constitutiva” da Igreja sobre o Estado.
A grande cultura russa dos séculos passados acabou no esquecimento da propaganda mais insensata, que se limita a explorar slogans e citações de Puškin, Gogol e Dostoiévski para demonstrar a grandeza artística do artificial “mundo russo”, enquanto do lado ucraniano, esses grandes nomes do passado são demonizados e acusados de terem inspirado as políticas imperiais dos czares, dos comunistas soviéticos e dos soberanistas de Putin, impondo a “língua do inimigo”. Dessa forma, as possibilidades de compreensão e colóquio são eliminadas, recusando-se a acreditar que “o outro” possui sua própria dignidade cultural, social e religiosa. Tudo se resume a afirmações agressivas de identidades cada vez mais artificiais, como acontece agora no mundo da comunicação tecnológica, o que se reflete nas relações sociais em todos os níveis, incluindo operações militares, negociações diplomáticas e ideologias políticas dominantes.
Uma tentativa de restabelecer pontes de comunicação genuína e profunda é oferecida pela poetisa e tradutora bilíngue russo-ucraniana Irina JJurčuk, natural de Kharkiv, cidade fronteiriça entre os dois países e epicentro do conflito em curso. Ela vive na Alemanha há anos, trabalha como médica e escreve poesia em ucraniano e russo, para adultos e crianças. Após adquirir diversos prêmios em concursos literários na Ucrânia e internacionalmente, seu livro “Nadzemnyj perekhid” foi publicado recentemente em Kiev. Esta antologia reúne textos de autores russos e ucranianos contemporâneos, juntamente com traduções e rimas bilíngues de sua autoria.
Jurčuk afirma ter se inspirado “no feitiço poético de sua língua materna, aliado ao desejo de expandir os limites de suas próprias habilidades”, transitando do trabalho de tradução para a expressão criativa. Unir as diferentes dimensões da cultura russa e ucraniana também “coincidiu com a necessidade de se distanciar psicologicamente da assustadora realidade da guerra”, utilizando a imersão em traduções como um mecanismo de fuga da tragédia. Dessa forma, pode-se tentar “construir uma ponte entre línguas e épocas, entre as gerações contemporâneas e futuras de ucranianos”, redescobrindo a verdadeira identidade na língua, sem ser destruído por abusos e reivindicações.
Bastaria recordar um termo agora usado excessivamente em todas as latitudes: “genocídio”, do qual os Estados em conflito se acusam reciprocamente. A principal motivação para o “genocídio de russos em Donbass”, que para Moscou justifica a “operação militar especial”, é precisamente aquela linguística, impondo aos russófonos na região a usar apenas o ucraniano, assim como os ucranianos consideram terem sido submetidos durante séculos ao “genocídio da russificação”, do qual devem se libertar definitivamente, recordando a proibição da língua ucraniana pelos imperadores russos no século XIX e às subsequentes ondas de cancelamento da identidade ucraniana pelos soviéticos, incluindo a supressão da Igreja Greco-Católica e o domínio russófono da ortodoxia patriarcal.
O projeto da antologia é, portanto, aquele de passar “acima”, nadzemnyj, de todas as disputas e batalhas, para tentar minimizar os danos e redescobrir a verdadeira expressão de ambas as línguas e culturas, graças também à “diferente musicalidade dos sons em diferentes formulações, usando ferramentas poéticas que derrubam barricadas”, afirma Jurčuk.
A composição dos versos é a melhor maneira de usar as línguas, e a tradução exige examinar cada palavra com muito cuidado, analisando seu significado no contexto da rima, em vez de simplesmente relatar seu equivalente formal. Mesmo com um conhecimento profundo de uma língua estrangeira, a pesquisa constante em dicionários e a escolha de usar formas muito diferentes das convencionais são inevitáveis, especialmente quando se trata de línguas muito próximas entre si, como o russo e o ucraniano, como foi o caso no passado com o greco-latim, o românico, o anglo-saxão e assim por diante, com o resultado de aprimorar a própria língua materna.
A tradução está sempre sujeita ao risco de traição, mas só assim o processo da tradição pode ser completado, nas várias variantes do mesmo termo do latim tradere. Numa era de “valores tradicionais” proclamados dos púlpitos político-religiosos, o esforço literário e poético pode realmente nos ajudar a redescobrir o valor autêntico das tradições, das quais a linguagem é um veículo essencial. Como explica Jurčuk, “a tradução é uma pequena vida no espaço e no tempo da poesia, tentando evitar as armadilhas da perda de significado ou trazê-lo para o nosso lado, diferente do do autor”. Numa era de tradutores automáticos cada vez mais sofisticados, abre-se um novo espaço para o entendimento mútuo, demonstrando que a tecnologia nada resolve sem a contribuição do ser humano.
Atualmente, não há nenhum tipo de colóquio entre a cultura e a literatura da Rússia e da Ucrânia, e será difícil para elas se reconectarem por sabe-se lá quanto tempo — pelo menos algumas décadas, admitindo que as operações militares acabam cedo ou tarde. Jurčuk cita um verso de um poeta ucraniano em russo, segundo o qual no porvir a biblioteca / será um perigo para os homens / e no século XXI, ofuscante, / estará no fogo dos fenômenos, obviamente em uma tradução italiana que não respeita nem o original russo nem a tradução ucraniana, sempre sublinhando, porém, que livros e palavras estão se tornando cada vez menos certezas e cada vez mais armas de destruição em massa.
A literatura ucraniana em geral, e a poesia em particular, está se desenvolvendo como nunca antes na história, e a guerra acelerou ainda mais o ritmo da criatividade, levando a uma crescente consciência da necessidade de se distanciar cada vez mais do russo. O idioma russo, que todos os ucranianos conhecem e falam fluentemente, tornou-se um fator traumático em seu cotidiano trágico, algo que precisa ser absolutamente evitado.
Muitas vezes, o russo falado em lar por hábito é censurado em público devido à vergonha que causa. Nem todos têm a oportunidade de se expressar plenamente em ucraniano, uma língua materna há muito reprimida que hoje expressa um desejo de mudança radical. O próprio presidente Volodymyr Zelensky, antes de se candidatar à eleição presidencial de 2019, fez um curso de ucraniano, por ser falante de russo por herança familiar.
A nova cultura ucraniana, contudo, não pretende ser determinada unicamente pelo protesto contra o agressor, mas busca definir uma identidade projetada para um porvir ainda por ser escrito e proclamado, sabendo muito bem que a pressão da Rússia não se limitará a mísseis e conquistas territoriais, mas buscará de todas as formas recuperar a autoconsciência de um povo do qual os próprios russos se originam e com o qual ainda mantêm estreitas relações.
A língua será cada vez mais a “defesa imunológica de um organismo vivo”, afirma Irina Jurchuk, que busca manter uma ponte sobre o abismo entre os dois povos, com a necessária dedicação não apenas a russos e ucranianos, mas como exemplo para povos inimigos em todo o mundo, utilizando as línguas de ambos para redescobrir verdades comuns e maiores, como nestes versos que compôs sob o estrondo das bombas que destruíam lares:
…A ciência da fuga, a experiência da sobrevivência,
o lençol apertado como um laço,
e eu sonho: cada golpe no universo é um golpe direcionado a mim…
*Pe. Stefano Caprio é docente de Ciências Eclesiásticas no Pontifício Instituto Oriental, com especialização em Estudos Russos. Entre outros, é autor do livro “Lo Czar di vetro. La Russia di Putin”. (Artigo publicado pela Agência AsiaNews)

