A famosa fórmula dos czares do século XIX — Autocracia-Ortodoxia-Populismo — é reinterpretada hoje pelos ideólogos de Putin como a nova tríade Soberanismo-Tradicionalismo-Estado Social. Onde, porém, é precisamente aos “valores morais e espirituais” a referência menos clara, incapaz de ir além da contraposição em relação aos valores “destrutivos e degradados” do Ocidente.
Pe. Stefano Caprio*
2025 foi um ano que deixou marcas profundas na busca da identidade da Rússia do porvir, como consequência e resumo de um “renascimento” de vinte anos do império, das primeiras palavras de vingança em 2004 às ações agressivas do presidente Vladimir Putin a partir de 2008 contra o Ocidente “invasor”, da Geórgia, da Ucrânia e os muitos países ex-soviéticos “traidores”. A chegada em janeiro do amigo Donald Trump ao trono americano, suscitou então uma onda de satisfação, culminando na cúpula de agosto no Alasca, que consagrou os dois imperadores como chefes das grandes potências que dividem o mundo, o objetivo principal das muitas “operações especiais” de Putin na catastrófica guerra híbrida dos últimos anos.
Podemos, portanto, considerar de alguma forma realizada a “restauração ideológica” do regime moscovita ao poder, que pretendia restituir vida na nova Rússia a todas as Rússias do passado, da mitológica Rus’ de Kiev à Terceira Roma de Ivan, o Terrível, do Império de São Petersburgo de Pedro, o Grande, à internacional soviética de Josef Stalin. A expressão mais completa dos muitos anseios por uma “Grande Rússia” havia sido proposta até então pelos ideólogos do século XIX, a famosa “tríade czarista” de Autocracia-Ortodoxia-Popularismo, hoje revivida e renovada pelo novo czar do Kremlin.
A nova tríade parece menos eficaz e mais agradável aos ouvidos do que a de dois séculos atrás, mas insiste-se nela com uma dedicação ainda mais obsessiva, celebrando o Soberanismo-Tradicionalismo-Estado Social, como se pode constatar nos inúmeros documentos aprovados este ano pelo eterno presidente Vladimir Putin, até à Concepção dos Processos Sociais aprovada e publicada no almanaque oficial das “Block-Notes de Formação Social” de novembro-dezembro de 2025. A soberania da Rússia é o objetivo mais evidente. perseguido com a contraposição e a guerra contra o mundo inteiro, e a “sociabilidade” herdada do populismo czarista nada mais é do que o retorno a um sistema econômico cada vez mais ao estilo soviético, com constantes nacionalizações e planos quinquenais que apontam para o porvir brilhante de uma sociedade autárquica e “orientada para o Oriente”.
O ideal que permanece sempre bastante obscuro é o da Tradição e seus “valores morais e espirituais”, que não conseguem se definir a não ser em contraposição com aqueles “destrutivos e degradados” da Europa e do Ocidente. A qual tradição se refere não está totalmente claro, se àquela soviética ou àquela czarista, ocidentalista ou eslavófila, de Kiev, moscovita ou petersburguense, visto que as Rússias do passado são muitas e muito diferentes umas das outras. Os principados da Rus’ primitiva estavam em constante conflito uns com os outros, incluindo as primeiras cidades de Novgorod, Kiev, Pskov, Vladimir e muitas outras. A atual guerra fratricida da Rússia com a Ucrânia, no Cáucaso e nas terras da Bessarábia (Moldávia e Romênia), da Hungria e, sobretudo da Polônia, o verdadeiro grande antagonista histórico e “espelho” para a conquista do domínio da Europa Oriental, pode, portanto, também ser considerada uma “tradição”.
A Moscóvia do século XV havia se libertado a grandes custas do jugo tártaro, que deixou uma marca asiática indelével na alma russa, a qual agora ressurgiu com força. O Grão-Príncipe Ivan III, o Grande, procurou reunificar as terras russas, tornando-se o modelo de comunhão entre os povos, a sobornost que hoje se reafirma como a vocação “tradicional” da Rússia. Seu neto, o primeiro czar Ivan IV, o Terrível, pensou então em dividir a Terceira Roma em dois níveis, zemščina e opričnina, a “terra dos súditos” e a dos “controladores”, os membros da Guarda Imperial que oprimiam o povo em nome da “verdadeira fé”, galopando por todos os territórios em vestes monásticas negras, uma visão sombria da ortodoxia religiosa imperial, que também voltou a ter grande relevância sob o comando ameaçador do Patriarca Kirill (Gundjaev).
Ivan IV mandou matar o metropolita Filipe (Kolyčev)) em sua cela monástica, onde estava detido por se recusar a abençoar as guerras do czar, e hoje os sacerdotes russos são excomungados, presos ou banidos para o exterior se não recitam as ladainhas pela vitória na Ucrânia, reportando a Rússia do século XXI à do século XVI. É precisamente isso que o Block-Notes Ideológico propõe, como escreve na apresentação Boris Rapoport, diretor do departamento social do governo: “A política de Estado deve basear-se, antes de tudo, na experiência histórica da Rússia.” Portanto, cada escolha deve, de alguma forma, reiterar e contradizer as anteriores, como aconteceu na Rússia durante os conflitos do século XVII, que causaram contínuos cismas internos nos níveis social, político, militar e religioso, ou no século XVIII, que entre Pedro, o Grande, e Catarina II viu a sucessão das imperatrizes com seus amantes, alternando as pró-germânicas com as galicanas que falavam apenas o francês aristocrático, para depois serem aterrorizadas pela revolução de 1792 e pelas ambições imperiais de Napoleão.
A Tradição russa corresponde à ortodoxia da tríade czarista, a fé cristã que, em seu período original kieviano, se sobrepôs às diversas variantes do paganismo escandinavo e caucasiano, deixando para trás uma “dupla fé”, a típica dvoeverie russa, não compartilhada com nenhuma outra e abrangendo todas as demais crenças. A coincidência do renascimento de Moscou com a queda de Constantinopla conferiu à religião russa um ímpeto missionário particular, transformando-a de “força fundadora do Estado” em um bastião da verdadeira fé contra qualquer antagonista ou invasor herege, a ponto de inspirar a revolução soviética mundial e a construção da sociedade comunista ideal.
Tudo isso sintetizado hoje na tarefa de proclamar o “mundo multipolar justo”, o novo reino dos céus na Terra. Mesmo nos campos teológico e ascético, não há preocupação em justapor ideologias e estruturas completamente contraditórias, como o império ocidentalizante que aboliu o patriarcado ou o regime ateu que o restaurou para servir aos seus próprios interesses, apenas para depois reintroduzir uma grotesca “sinfonia” de Igreja e Estado na Rússia dos “dois Vladimirs” de São Petersburgo, o presidente Putin e o patriarca Kirill.
Na introdução de Rapoport, a nova Ortodoxia não é simplesmente uma “dupla fé”, mas na verdade apresenta uma tripla extensão: “Temos três fés, porque acreditamos na Pátria, acreditamos naqueles que nos são próximos e acreditamos no porvir.” Os valores morais e espirituais tradicionais conectam os da “fé ortodoxa” com os valores “tipicamente humanos”, pouco importando se eles se contradizem em alguns detalhes, como a fidelidade conjugal e a necessária “multipolaridade” de cada família, como a do presidente, bastante diversa, e, segundo algumas investigações recentes, até mesmo a do patriarca, que supostamente conseguiu esconder a esposa por décadas, fazendo acreditar ter outras preferências. De qualquer forma, a definição por extenso afirma que “a sociedade russa tradicional é constituída pela família das famílias na continuidade das gerações, pela fidelidade ao que é transmitido e às orientações morais e espirituais”, e especifica ainda que “a sociedade tradicional não é uma forma de estagnação, mas um desenvolvimento imparável, que se nutre de suas próprias raízes”.
A apoiar a concepção ideológica oficial estão os dados oficiais da pesquisa Vitsom, que mostram que apenas 2% dos cidadãos russos acreditam que a Rússia deva colocar a economia no centro de seus interesses. O desenvolvimento tecnológico sequer é mencionado, enquanto a necessidade de “derrotar toda fraqueza” é enfatizada, expressa com o termo ambíguo antikhrupkost, “antifragilidade”, abordando e superando “todos os desafios geopolíticos e ideológicos do mundo contemporâneo”.
Termos religiosos também são usados para especificar esse conceito, desde o desenvolvimento até a “transfiguração e ascensão” da Rússia à grandeza eterna. Enquanto isso, o Instituto Puškin em São Petersburgo, a maior autoridade em língua russa, decretou que a palavra do ano de 2025 seria Pobeda, “Vitória”, muito esperada, mas atualmente adiada, talvez para este novo ano devido à guerra em andamento, e celebrada pelo octogésimo aniversário do glorioso fim da Grande Guerra Patriótica, um evento que celebra todas as tradições russas.
Querendo identificar a palavra-chave russa decisiva do último quarto de século de Putin, certamente deve-se exaltar a premissa necessária da Vitória, ou seja, Voina, Guerra, e seus substitutos, desde a “operação antiterrorista na Chechênia” no alvorecer do reinado de Putin, à “coerção para a paz” contra a Geórgia, à “Primavera Russa” na Crimeia, à Svo, a operação militar especial na Ucrânia, visto que “guerra” é um termo que somente o Patriarca Kirill pode proferir do altar da Catedral de Cristo Salvador, entendida como “guerra santa”.
A guerra na Rússia abrange todas as tríades ideológicas — a economia e a sociedade, o poder político e o religioso — e todos os termos que preenchem os noticiários diários, especialmente no ano que acaba de terminar, referem-se a ela, de “drones” a “negociações”, que estão intrinsecamente ligadas: quanto mais negociações em andamento, mais drones são lançados para celebrar o Ano Novo.
*Pe. Stefano Caprio é docente de Ciências Eclesiásticas no Pontifício Instituto Oriental, com especialização em Estudos Russos. Entre outros, é autor do livro “Lo Czar di vetro. La Russia di Putin”. (Artigo publicado pela Agência AsiaNews)

