“O debate sobre o fundamento ética da política americana está afligido pela polarização”, lê-se na declaração conjunta. O texto é inspirado no discurso do Papa Leão ao corpo diplomático. “Renunciemos à guerra como instrumento para interesses nacionais míopes”, é o apelo dos três purpurados.
Guglielmo Gallone – Cidade do Vaticano
O papel ética dos Estados Unidos da América no enfrentamento do mal no mundo e na construção de uma paz justa vem sendo reduzido a categorias partidárias que incentivam a polarização e políticas destrutivas. Esse é o cerne da mensagem publicada hoje (19/01) pelos cardeais Blase Joseph Cupich, arcebispo de Chicago, Robert McElroy, arcebispo de Washington, e Joseph William Tobin, arcebispo de Newark, em uma declaração conjunta que traça uma visão ética da política externa dos Estados Unidos.
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Os riscos da polarização e das políticas destrutivas
O texto parte do fato de que, no novo ano, “os Estados Unidos entraram no debate mais profundo e acalorado sobre a base ética das ações da América no mundo desde o fim da Guerra Fria”. São citados, por exemplo, “os eventos na Venezuela, na Ucrânia e na Groenlândia”, que “levantaram questões fundamentais sobre o uso da força militar e sobre o significado da paz”. Nesse sentido, os três cardeais sublinham como “o equilíbrio entre interesse nacional e bem comum é enquadrado em termos fortemente polarizados”. Mais ainda, “o papel ética dos Estados Unidos da América no enfrentamento do mal no mundo, na defesa do direito à vida e da dignidade humana e no apoio à liberdade religiosa está sendo questionado — prosseguem — e a construção de uma paz justa e sustentável, tão crucial para o bem-estar da humanidade, é reduzida a categorias partidárias que incentivam a polarização e políticas destrutivas”.
A bússola oferecida pelo Papa Leão XIV
No texto, os três cardeais avaliam a ação internacional dos Estados Unidos à luz dos princípios expressos pelo Papa Leão XIV no discurso proferido em 9 de janeiro passado ao Corpo Diplomático acreditado junto à Santa Sé. Em particular, é citado o trecho em que o Pontífice afirma que “a fragilidade do multilateralismo é motivo de particular preocupação no plano internacional” e que “uma diplomacia que promove o colóquio e busca o consenso entre todas as partes é substituída por uma diplomacia baseada na força, por parte de indivíduos ou grupos de aliados”, porque “a guerra voltou a estar em moda e o zelo belicista está se difundindo” e “a paz é buscada por meio das armas como condição para afirmar o próprio domínio”. Cupich, McElroy e Tobin consideram essas palavras “uma base verdadeiramente ética para as relações internacionais” e “uma bússola ética duradoura para estabelecer o rumo da política externa americana nos próximos anos”. Em consonância com as palavras do Papa Prevost, os três cardeais destacam ainda “a necessidade de ajuda internacional para salvaguardar os elementos mais centrais da dignidade humana, que estão sob ataque em razão do movimento das nações ricas de reduzir ou eliminar suas contribuições aos programas de assistência humanitária no exterior”. Porque, reafirmam, “como pastores e cidadãos, abraçamos essa visão para a instauração de uma política externa genuinamente ética para a nossa nação”.
Renunciar à guerra como instrumento para interesses nacionais
Daí o apelo final dos três cardeais. “Busquemos construir uma paz verdadeiramente justa e duradoura, aquela paz que Jesus proclamou no Evangelho. Renunciemos à guerra como instrumento para interesses nacionais míopes e proclamemos que a ação militar deve ser vista apenas como último recurso em situações extremas, e não como instrumento normal da política nacional. Busquemos uma política externa que respeite e promova o direito à vida humana, a liberdade religiosa e o aprimoramento da dignidade humana em todo o mundo, especialmente por meio da assistência econômica.” Hoje, concluem, “o debate de nossa nação sobre o fundamento ética da política americana está afligido por polarização, partidarismo e interesses econômicos e sociais restritos”. Ao contrário, “o Papa Leão nos forneceu o prisma por meio do qual elevá-lo a um patamar muito mais alto. Nos próximos meses, pregaremos, ensinaremos e promoveremos para que esse patamar mais elevado se torne possível”.
Os três cardeais signatários da declaração
A declaração é assinada pelo cardeal Cupich, à frente da Arquidiocese de Chicago, uma das maiores dos Estados Unidos, com cerca de dois milhões de católicos e uma ampla rede de paróquias, escolas e serviços sociais; pelo cardeal McElroy, à frente da Arquidiocese de Washington, que atende mais de 600 mil fiéis na capital federal e em Maryland; e pelo cardeal Tobin, arcebispo de Newark, responsável por uma comunidade de cerca de 1,3 milhão de católicos no norte de Nova Jersey, com numerosas paróquias, escolas e instituições formativas empenhadas na educação e no serviço social.

