CONVIVIUM, a assembleia presbiteral da arquidiocese de Madri, realizada nos dias 9 e 10 de fevereiro de 2026, teve entre seus assessores o cardeal François-Xavier Bustillo. O bispo de Ajaccio (França), vê a comunhão sacerdotal como indispensável para viver a comunhão na Igreja, pois “como podemos pregar a unidade aos outros se nós mesmos não a vivemos?”.
Padre Miguel Modino – Madri
O cardeal Bustillo, franciscano, considera necessário que os sacerdotes tenham uma vida pessoal, espiritual e humana equilibrada, com uma liberdade que lhes permita ser autênticos. Um ministério que deve ser vivido com criatividade e audácia, tendo como compromisso fundamental amar. Sacerdotes que ele chama a não serem complexados nem arrogantes, mas livres e com capacidade de se doar, “para que a Igreja e a sociedade melhorem, para que haja mais amizade, mais fraternidade e mais eficiência na missão”.
A Igreja é comunhão, sinodalidade, em termos atuais. CONVIVIUM é uma iniciativa de comunhão. Esta comunhão presbiteral é condição indispensável para viver a comunhão em toda a Igreja?
Como podemos pregar aos outros a unidade se nós mesmos não a vivemos? Jesus nos deu um mandamento, nos deu o desafio de nos amarmos e estarmos unidos. Se na Igreja não estamos unidos, se os sacerdotes não estão unidos, perdemos nossa identidade e perdemos o sentido profundo do que Jesus nos pediu. É um desafio magnífico para a Igreja de Madri viver esses momentos de unidade, de comunhão. Há diversidade na Igreja, porque somos todos diferentes, não somos clones, mas cada um pode contribuir com sua especificidade e poder contribuir para a unidade da Igreja. O fato de sermos diferentes não significa que seja um perigo para a Igreja.
Nos nossos dias, quais são os desafios que os sacerdotes enfrentam para vivê-la e ser fermento de comunhão?
Os sacerdotes devem ter uma vida pessoal, espiritual e humana equilibrada. Hoje em dia, os sacerdotes são muito solicitados para reuniões, encontros e são poucos. Há uma tensão entre as solicitações pastorais e o que se pode realmente dar. É preciso haver disciplina, autodisciplina pessoal para poder dar e transmitir o que é justo e evangélico. É preciso ter em conta a saúde e a felicidade. Digo isso muitas vezes aos sacerdotes na França: não percam a saúde e a felicidade e tenham uma vida equilibrada. Se tiverem saúde e felicidade, poderão testemunhar, poderão ser testemunhas eficazes e com certa fecundidade.
Em sua palestra, o senhor falou sobre vidas sacerdotais autênticas. Quais são as características que devem estar presentes na vida presbiteral para que ela seja autêntica?
A vida sacerdotal precisa de muita liberdade. Às vezes, na vida sacerdotal, e sobretudo em tempos como os nossos, no Ocidente, pode haver muitos condicionamentos e podemos perder a liberdade. É relevante que vivamos a liberdade para sermos autênticos. Se formos coerentes com o Evangelho, haverá uma autenticidade natural. Se estivermos nos artifícios e na superficialidade, perderemos nossa alma. Os sacerdotes podem dizer à sociedade, podem dizer, mesmo dentro da Igreja: queremos ser testemunhas de Jesus e queremos viver o que Jesus nos pediu.
Transmitir com simplicidade e autenticidade quem somos, o que queremos viver e o que estamos vivendo. O mundo e a sociedade precisam de testemunhas autênticas, não de algo artificial e superficial. Já vemos isso na televisão, em muitos lugares, as testemunhas passam e desaparecem. O sacerdote permanece e tem que ser coerente toda a sua vida, dos 25 aos 90 anos e mais. Coerente na vida e, para isso, deve ter cuidado e ser um homem autodisciplinado para seguir em frente.
A audácia e a criatividade contra o fatalismo e o desânimo são desafios que o presbítero enfrenta hoje. Como o senhor acha que isso pode se concretizar na vida sacerdotal, tendo em vista uma missão que encarne o Evangelho?
Nossa sociedade, na qual há muitas pessoas que estão fora da Igreja ou na periferia da Igreja, nos estimula muito. Em vez de reclamar e lamentar porque tudo está indo mal, porque as pessoas não vão à missa, porque há poucos jovens, porque há poucas crianças, o que é interessante e relevante para nós é o aspecto da criatividade e da audácia. É preciso seguir em frente, há dificuldades, mas quando há dificuldades, o típico das crises é atravessá-las, superá-las. Não basta constatar que há problemas, mas dizer o que podemos contribuir para a sociedade com o nosso patrimônio evangélico e eclesial, o que podemos dar à sociedade para ressuscitar o patrimônio evangélico que está em nossa família.
Ser pastores discípulos de Jesus é algo a que os sacerdotes são chamados. Como combinar o amor a Cristo e o compromisso de dar a vida pelas ovelhas, de dar a vida ao serviço do povo de Deus?
Se perguntarmos às pessoas o que faz um padre, muitas vão nos falar sobre o que ele faz, sobre as reuniões, a organização, os sacramentos. É verdade que o padre faz muitas coisas, mas não podemos esquecer sua vocação principal, que é amar. Um padre não é um ser sem coração, não é uma máquina que tem que fazer coisas. O sacerdote tem um coração, uma vocação e uma missão, ele tem que amar. Quando você recebe um casal para um batismo, que quer se casar ou em uma situação difícil como um funeral, a maneira de amar do padre é a qualidade relacional que ele vai oferecer a essas pessoas. Que os padres não se esqueçam de que sua vocação principal é amar as pessoas. Amar o Senhor e, quando você ama o Senhor, você ama as pessoas.
CONVIVIUM é uma oportunidade para descobrir que tipo de sacerdotes Madri, e a Igreja toda, precisa neste momento. O que deveria definir esses presbíteros?
Os presbíteros de Madrid do século XXI não devem ser complexados nem arrogantes. Devem ser livres e devem ter essa capacidade de se doar, de ser um dom de si mesmos. O sacerdote de Madri do século XXI deve dar sua vida, seu tempo, suas capacidades para que a Igreja e a sociedade melhorem, para que haja mais amizade, mais fraternidade e mais eficiência na missão. Quando os sacerdotes têm amizade entre si, eles veem os desafios e compartilham o que veem e o que vivem para que a missão da Igreja seja mais eficaz.

