Por ocasião do 34º Dia Mundial do Doente, celebrado nesta quarta-feira, 11 de fevereiro, no Santuário de Nuestra Señora de la Paz, em Chiclayo, no Peru, o cardeal Michael Czerny, enviado especial do Papa, exorta a redescobrir a compaixão do bom samaritano para implementar “políticas públicas adequadas” que facilitem o acesso aos cuidados e promovam uma verdadeira “cultura” da assistência.
Vatican News
Compreender a saúde de uma perspectiva “integral”, que garanta o acesso aos cuidados médicos, mas não deixe de acompanhar espiritualmente aqueles que se encontram em situação de necessidade. Essa é a exortação feita pelo cardeal Michael Czerny, prefeito do Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral e enviado especial do Papa ao 34° Dia Mundial do Doente, que se celebra nesta quarta-feira, 11 de fevereiro, no Santuário de Nuestra Señora de la Paz, na diocese de Chiclayo, no Peru. Em discurso proferido nesta terça-feira (10/02), no seminário acadêmico, teológico e pastoral no teatro Moliné do Colégio Santo Toribio de Mogrovejo, na cidade peruana, o cardeal levou “a saudação afetuosa e a bênção” de Leão XIV, “seu amado bispo”, lembrando os anos que o Pontífice passou no país sul-americano.
A compaixão do bom samaritano, coração do Evangelho
Depois de saudar o núncio apostólico no Peru, dom Paolo Rocco Gualtieri; o bispo de Chiclayo, dom Edinson Edgardo Farfán; e o secretário-geral do Conselho Episcopal Latino-Americano (CELAM), dom Lizardo Estrada Herrera, Czerny explicou que os temas do seminário são profundamente inspirados na mensagem do Papa para a data desta quarta-feira (11/02) e conduzem “ao coração do Evangelho e da missão da Igreja”. Entre eles, destacou a compaixão do bom samaritano, que convida a amar assumindo a dor do outro; a reflexão sobre o mistério do sofrimento humano, que interpela a fé e abre a uma esperança encarnada; e os progressos dos cuidados paliativos na América Latina e no mundo, como expressão concreta do respeito pela dignidade de cada pessoa, desde a concepção até a morte natural. O cardeal também destacou a importância da assistência integral ao paciente, insistindo no fato de que a dimensão espiritual não é um elemento acessório, mas um pilar essencial do acompanhamento: se falamos de saúde integral, acrescentou, a dimensão espiritual não pode faltar; sem a dimensão espiritual, ela não é integral.
Do discernimento à ação concreta
O prefeito do Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral observou ainda que o Dia Mundial do Doente não convida apenas à reflexão e à oração, mas também a uma ação comprometida. “O sofrimento do irmão doente exige proximidade, escuta, políticas públicas adequadas, formação profissional competente e, acima de tudo, um coração sensível que não permaneça indiferente”, afirmou. Seguindo o exemplo do bom samaritano, disse ele, os cristãos são chamados a parar, cuidar e aproximar-se, especialmente dos mais frágeis e esquecidos.
Roma a serviço das Igrejas locais
Referindo-se à missão do seu Dicastério, Czerny lembrou que a saúde deve ser compreendida numa perspectiva verdadeiramente integral, com implicações para a totalidade da pessoa e para toda a sociedade. Nesse sentido, citou a Constituição Apostólica Praedicate Evangelium e sublinhou que o Dicastério procura acompanhar e apoiar as iniciativas das Igrejas particulares, das Conferências Episcopais, dos institutos de Vida Consagrada, da Caritas e dos voluntários, sem se substituir a eles. “Roma está a serviço das Igrejas locais”, reiterou, sublinhando que uma abordagem excessivamente centralizada corre o risco de sufocar as realidades e experiências locais. Essa orientação, afirmou, é parte essencial da reforma promovida pelo Papa Francisco e continuada pelo Papa Leão XIV.
Criar redes e compartilhar boas práticas
O cardeal reconheceu os grandes desafios presentes em muitos países no que diz respeito à assistência sanitária, como as condições inadequadas dos serviços, a falta de acompanhamento espiritual e as dificuldades de acesso aos cuidados médicos. Diante disso, ele encorajou o fortalecimento da colaboração e a criação de redes, facilitando o intercâmbio de boas práticas e valorizando tudo o que já produz frutos nas comunidades.
Rumo a uma autêntica cultura do cuidado
Concluindo a intervenção, o enviado especial do Papa expressou o desejo de que o seminário fosse “um espaço fecundo de colóquio e discernimento”, do qual pudessem surgir iniciativas concretas capazes de fortalecer uma autêntica cultura do cuidado. Uma cultura – afirmou – em que o doente seja sempre reconhecido, acompanhado e amado, encontrando na Igreja e na sociedade “um rosto verdadeiramente humano e misericordioso”.
Humanizar a dor: o compromisso da Igreja e da academia
Essa visão teológica foi enriquecida pela perspectiva de especialistas como o Pe. Alejandro de Jesús Álvarez Gallegos, que, ao intervir no seminário, destacou a urgência de uma “pastoral da escuta”, ressaltando que a assistência integral deve nascer de uma caridade samaritana que reconheça a dignidade intrínseca do paciente acima dos frios protocolos médicos. Nesse sentido, disse ele, a humanização da saúde se apresenta como um imperativo, no qual o profissional e o agente pastoral transformam a vulnerabilidade do outro em um espaço de encontro sagrado. Esse compromisso se traduz concretamente no fortalecimento dos cuidados paliativos, área na qual Luz Loo destacou a necessidade de uma assistência que responda ao sofrimento multidimensional da pessoa. A especialista insistiu no fato de que esses cuidados não são uma rendição, mas uma forma de assistência e consolo que garante que o paciente não seja abandonado, estendendo esse apoio essencial também à família e ao processo de luto.
Por sua vez, Guido Solari chamou a atenção para a necessidade de reformar a formação dos profissionais de acordo com uma bioética que resista firmemente à “cultura do descarte”. Durante o debate que se seguiu, observou-se que a técnica sem a componente da compaixão carece de sentido humano e, por isso, é imperativo promover uma justiça sanitária que elimine as barreiras de acesso para os mais necessitados. Desta forma, a “esperança encarnada” proposta pelo cardeal Czerny ganha vida na necessidade de políticas públicas que dêem prioridade à hospitalidade e ao cuidado do irmão mais frágil.


