colóquio amigável e compreensível de Deus

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“«Já não vos chamo servos, porque o servo não sabe o que faz o seu senhor; mas chamei-vos amigos, porque vos dei a conhecer tudo o que ouvi do meu Pai» (Jo 15, 15). Este é um ponto fundamental da fé cristã, que a Dei Verbum nos recorda: Jesus Cristo transforma radicalmente a relação do homem com Deus, que doravante será uma relação de amizade. Por isso, a única condição da nova aliança é o amor.”

Jackson Erpen – Cidade do Vaticano

No colóquio entre Deus e o homem, presente de forma marcante ao longo de todas as Sagradas Escrituras, a começar pelo Livro de Gênesis, revela-se uma relação de criação, liberdade e responsabilidade: Deus chama o ser humano à existência, concede-lhe dignidade e propósito, orienta-o por meio de mandamentos e promessas, e, mesmo diante da desobediência, mantém aberta a possibilidade de reconciliação. Ao longo da narrativa bíblica, esse colóquio se expressa como convite constante à confiança, à justiça e ao amor, mostrando um Deus que fala, escuta, corrige e salva, enquanto a resposta do homem é a fé e a esperança.

Essa relação de amizade entre Deus o homem, vem sendo destacada pelo Papa Leão XIV na sua série de catequeses dedicada aos documentos do Concílio Vaticano II. Neste contexto, Pe. Gerson Schmidt* nos propõe hoje a reflexão “colóquio amigável e compreensível de Deus”:

“O Papa Leão XIV faz um resgate do Concílio Vaticano II em suas catequeses nas Audiências Gerais de quartas-feiras, grande riqueza e inestimável tesouro da Igreja. Nesse contexto de refletir sobre a Dei Verbum, Constituição dogmática do Concilio Vaticano II que reflete a Palavra de Deus e a revelação divina, o Papa sublinhou a importância da escuta como atitude fundamental da fé cristã. Escutar a Palavra permite que ela penetre a mente e o coração, enquanto a oração se torna o espaço onde o ser humano se revela diante de Deus. Segundo Leão XIV, essa amizade se cultiva especialmente na oração litúrgica e comunitária — na qual é a própria Igreja que nos faz ouvir Deus —, mas também na oração pessoal, vivida no silêncio interior.

Ao concluir a catequese da segunda mensagem da Audiência Geral desse ano, o Pontífice recordou que a vida cristã não pode prescindir do tempo dedicado à oração, à meditação e à reflexão. “Só quando falamos com Deus podemos também falar de Deus”, afirmou, convidando os fiéis a redescobrirem, à luz do Concílio Vaticano II, uma fé enraizada no colóquio, na escuta e na amizade com o Senhor. Deus, portanto, é nosso amigo e se revelou como Deus-amigo.

Resgatemos um aspecto histórico-bíblico na revelação de Deus. No Monte Sinai, no recebimento das tábuas da lei, em Êxodo 19, a teofania e revelação de Deus à Moisés acontece de maneira pavorosa, entre trovões, relâmpagos, fogo e nuvens espeças como uma fumaça de uma fornalha, sons de trombetas, e tremores da montanha. Deus, no Antigo Testamento, aparece quase inacessível ao homem, devido à sua transcendência e majestade. Era só Moisés que permanecia em cima do Monte Sinai recebendo a revelação de Deus. O povo permanecia, de maneira pavorosa e com tremor, ao pé da montanha, pois dela havia tremores e provocava temores. Mas na tenda da reunião, com o mesmo personagem e protagonista bíblico Moisés, Deus ameniza sua terrível transcendência e poder, para, na imanência, se expressar como um amigo à Moisés.

O texto do Êxodo diz assim: “E falava o Senhor a Moisés face a face, como um homem fala com o seu amigo; depois tornava-se ao arraial; mas o seu servidor, o jovem Josué, filho de Num, nunca se apartava do meio da tenda” (Ex 33,11). Moisés, na Tenda de Reunião, entra sozinho para fazer uma experiência de Deus, face a face, tu a tu, diz o texto. Deus lhe fala como um homem fala a um amigo, reza o livro do Êxodo. “O escritor bíblico, talvez o Javista, procurou exprimir a inexprimível intimidade de Deus com Moisés com a categoria do colóquio amigável, veículo da mais profunda comunhão. E Moisés, sustentado e encorajado por aquele colóquio amigo, põe-se a caminho para o último “êxodo”, gritando: “Senhor! Faze-me ver a Tua face, a Tua grandeza” (Ex 33,18-23).

Moisés, líder da libertação, tem sede de contemplação. Levará ao túmulo uma dupla nostalgia: a terra e o rosto pessoal de Deus”[1]. Terminará sua vida sem a graça de ver a Terra prometida e sem vero rosto de Deus que tanto almejava ver. Verá na eternidade, o rosto invisível de Deus que nos é revelado em Cristo. Da igual forma, no texto do Novo Testamento, Jesus diz assim aos seus discípulos: “Vós sereis meus amigos, se fizerdes o que eu vos mando. Já vos não chamarei servos, porque o servo não sabe o que faz o seu senhor; mas tenho-vos chamado amigos, porque tudo quanto ouvi de meu Pai vos tenho feito conhecer” (Jo 15,14-15). Jesus, como mestre que ensina, não traz mais a justiça atemorizante do Sinai, mas um brando sermão da montanha, ou melhor, colóquio amigável de um mestre que ensina sentado junto à multidão, com brandura, serenidade, falando amigavelmente às pessoas, que agora estão próximas, não mais ao pé da Montanha como no Antigo Testamento. Há ai uma novo pedagogia da manifestação de Deus, não numa justiça apavorante, mas numa misericórdia apaixonante.”

*Padre Gerson Schmidt foi ordenado em 2 de janeiro de 1993, em Estrela (RS). Além da Filosofia e Teologia, também é graduado em Jornalismo e é Mestre em Comunicação pela FAMECOS/PUCRS.
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[1] MANNUCCI, Valério. Bíblia, Palavra de Deus. Curso de introdução à Sagrada Escritura, Paulinas, SP. 1986, p. 30.

Fonte

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