Muito além da privação de alimentos, o jejum é uma arma espiritual para vencer os impulsos, curar dependências emocionais e restaurar a verdadeira liberdade em Cristo.
Pe. Rodrigo Rios – Vatican News
A Santa Mãe Igreja, em sua sabedoria milenar, prescreve o jejum aos seus filhos ao menos em dois dias sagrados: a quarta-feira de cinzas e a sexta-feira da Paixão. No entanto, recordo que ela também nos aconselha a esta prática penitencial em todas as sextas-feiras do ano, unindo-a à abstinência de carne. Gostaria, pois, de partilhar os admiráveis benefícios humano-espirituais que brotam desta disciplina.
1. O fortalecimento da vontade e o governo de si
Muitas vezes, encontramo-nos com uma vontade anêmica. Diante de um prazer imediato, não conseguimos resistir; o pecado da gula torna-se o espelho de nossa debilidade interior. O corpo não é uma máquina que se reconfigura com um simples botão; ele exige o hábito das virtudes.
O jejum é uma grande arma que fortalece a vontade. Quando o fiel tem o alimento à disposição, sente o desejo de comê-lo, porém, diz “não” por um bem maior, assim ele está restaurando a ordem correta do seu ser: a razão, iluminada pela fé, volta a guiar os instintos. São Paulo nos ensina: “Tudo me é permitido, mas nem tudo me convém. Tudo me é permitido, mas eu não me deixarei dominar por coisa alguma” (1 Cor 6,12).
Ao dominar a fome, ganhamos têmpera para vencer as tentações em todas as outras áreas da vida. Cientificamente, há uma explicação: é o fortalecimento do córtex pré-frontal sobre os instintos básicos. Como vencer os impulsos da carne diante das tentações impostas pela vida? Eu indico o jejum, pois gera o autodomínio que faz resistir a estes impulsos.
2. Sobriedade e cura das emoções
Vivemos tempos de profundas carências emocionais, muitas vezes mascaradas pelo consumo. Quantos de nós comemos por ansiedade, tédio ou tristeza? O jejum atua como um bálsamo de sobriedade em nossa psiché. Ele nos obriga a encarar o vazio interior sem os subterfúgios do alimento excessivo. Ao interromper o ciclo automático do “sentir e satisfazer”, criamos um espaço de liberdade onde as emoções podem ser integradas e oferecidas a Deus, gerando uma paz que o mundo não pode dar.
Estamos também imersos em um consumo frenético de informações e estímulos. O jejum é um ato de resistência; ele interrompe essa ditadura do imediato. Nesse intervalo entre o impulso e a resposta, recuperamos o protagonismo de nossa história.
3. Abertura ao próximo e caridade ativa
O jejum que agrada a Deus nunca se fecha em si mesmo. Ao sentirmos o latejar da fome, somos unidos aos milhões de irmãos que não escolheram jejuar, mas que padecem a fome por necessidade. O jejum nos torna sensíveis, move as vísceras da misericórdia. Por isso, a Igreja incentiva que o alimento ou o valor economizado do jejum possa ser entregue aos pobres. “Sabeis qual é o jejum que eu aprecio? diz o Senhor Deus: é romper as cadeiras injustas, desatar as cordas do jugo, mandar embora livres os oprimidos e quebrar toda espécie de jugo. É repartir seu alimento com o faminto” (Is 58, 6-7a). Algumas paróquias, de forma articulada, incentivam as pessoas a fazerem comida no dia do jejum e a distribuírem aos que precisam. É uma forma pedagógica de tocar a dor de tantos.
4. Reconhecimento da nossa fragilidade
Por fim, o jejum nos redimensiona. Ele nos recorda que somos criaturas frágeis e dependentes. Ao sentir a fraqueza física, a alma reconhece que sua verdadeira sustentação não vem da terra, mas do Alto. O jejum esvazia o vaso para que a Graça possa preenchê-lo. É sempre um tangenciar realidades: vejo as minhas fragilidades e a grandeza de Deus.

