Leão XIV acolhido em Argel como um irmão portador de esperança e paz. Programa cheio não obstante a chuva. No seu primeiro discurso em frente do Monumento aos Mártires da Nação, o Papa encorajou ao perdão, que vem dos corações e à dignidade e justiça para todos.
Dulce Araujo – Argel
O Papa Leão XIV já está na Argélia, país que o esperava de braços abertos, como filho duma das figuras históricas deste país. Santo Agostinho, portanto, como um irmão. Para o Bispo de Argel, Dom Jean-Paul Vesco, é a realização de um sonho, para a pequena Igreja católica e para todo o povo argelino, forte, jovem, hospitaleiro, com um passado rico de história, mas também com diversas fases de sofrimento: colonialismo, guerra de libertação, terrorismo, e que precisa de se reconciliar realmente – disse o Bispo, ao acolher o Papa aos pés do Monumento dos Mártires da Nação, onde Leão XIV depositou uma coroa de flores em homenagem aos tombados, e no seu discurso elogiou as qualidades do povo argelino. Tem, todavia, consciência, que é difícil perdoar, mas reconheceu que a libertação completa só chegará com a paz nos corações, com a justiça e da dignidade para todos.
Acolhimento no meio da chuva
Argel acolhe o Papa no meio da chuva, mas o seu coração bate por esta visita.Só o facto de o ter aqui já é uma proeza que alegra muito e encoraja no caminho da paz e da fraternidade. Assim resumia a irmã Julie, os sentimentos das irmãs Agostinianas do Centro de Acolhimento e Amizade Em Bab El Oued, que o Papa vai visitar esta tarde em sinal de homenagem a duas religiosas assassinadas em 1994 e às mulheres e crianças que ali são acolhidas diariamente pelas religiosas. Elas residem junto à Basílica Nossa Senhora de África, onde o Papa ouvirá os testemunhos de uma católica, uma adventista e uma muçulmana, expressão da encruzilhada de povos, culturas e religiões que esse lugar e o próprio país representam. Em frente da Basílica, situada no cimo de uma colina, a olhar para o mar (onde são esperadas hoje 1.500 pessoas de várias nacionalidades, muitos deles migrantes da África subsaariana) encontra-se um pequeno monumento em forma de caixão, edificada nos tempos de Leão XIII, há mais de um século. Recorda os mortos no mar. O filho de Santo Agostinho os saudará com uma coroa de flores. As razões do perigo que enfrentaram os que atravessam hoje o mar à procura de vida melhor noutras paragens, foi sublinhado pelo Papa no encontro com os governantes, o corpo diplomático e a sociedade civil, a quem disse referindo-se ao mar e ao deserto: “Ai de nós, se os transformarmos em cemitérios onde morre a esperança!”.
Com este encontro se encerrou a manha do Papa em Argel, marcado por encontros de caracter institucional com as boas-vindas, homenagem às mártires, visita de cortesia ao Presidente da República, Abdelmadjid Tebboune, uma reflexão silenciosa na Grande Mesquita de Argel, a terceira maior do mundo. A parte da tarde é mais de carater socio-religioso, na Basílica Nossa Senhora de África, lugar, onde numa inscrição em mosaico, se pede a Nossa Senhora para interceder pelos cristãos e pelos muçulmanos; e ainda no encontro com as agostinianas e as destinatárias dos seus serviços. Amanhã será a vez de Annabá nas pegadas de Santo Agostinho, em cuja Basílica será celebrada a Missa, momento de grande significado no contexto desta primeira visita de um Papa à Argélia, país onde a Igreja minoritária, frágil e forte ao mesmo tempo é feita de cristãos que rezam entre muçulmanos, como nalgumas partes do mundo, minorias muçulmanas rezam entre cristãos – faz notar, o P. Guy Sawadogo, missionário de África, membro desta Igreja em caminho de fraternidade entre todos.

