Os dias que precederam a invasão da Ucrânia pela Rússia

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Enquanto a Rússia concentrava tropas na fronteira com a Ucrânia, o presidente russo Vladimir Putin, seu porta-voz, Dmitry Peskov, e outros funcionários russos negavam reiteradamente que seu país tivesse planos de invadir a Ucrânia. Eles culpavam os EUA, a Ucrânia e outros pela tensão, insistindo que a Rússia é um “país pacífico” e que “não vai atacar ninguém”.

Os contínuos desmentidos de que a Rússia não tinha a intenção de atacar a Ucrânia provaram-se falsos quando o maior país em extesão territorial do planeta (cerca de 17.100.000 km²) lançou uma invasão em grande escala contra a Ucrânia — dois dias depois de tanques russos terem entrado no leste da Ucrânia em uma missão de “manutenção da paz”. “Este é um dia terrível para a Ucrânia e um dia sombrio para a Europa”, disse o chanceler alemão Olaf Scholz em um tweet de 24 de fevereiro de 2022.

Eis algumas das declarações feitas por Putin, Peskov e outras autoridades durante uma campanha de desinformação que durou meses e culminou na planejada invasão da Ucrânia pela Rússia.

2021

 

12 de novembro –  Dmitry Peskov descreveu as reportagens da mídia sobre os planos de Moscou de invadir a Ucrânia como uma “tentativa vazia e infundada de incitar tensões”. “A Rússia não ameaça ninguém. A movimentação de tropas em nosso território não deveria ser motivo de preocupação para ninguém”, disse o porta-voz do Kremlin em uma teleconferência com jornalistas.

21 de novembro – “Essa histeria está sendo artificialmente fomentada. Estamos sendo acusados ​​de algum tipo de atividade militar incomum em nosso território por aqueles que trouxeram suas forças armadas do outro lado do oceano”, disse Peskov à TV estatal russa. “Ou seja, os Estados Unidos da América. Não é lógico nem educado.”

22 de novembro – Em uma reportagem intitulada “Kremlin: Rússia não vai atacar ninguém”, o Pravda cita Peskov que declara a jornalistas: “A Rússia não tem planos agressivos. É completamente errado dizer o contrário, e é completamente errado associar qualquer movimentação das Forças Armadas Russas pelo território do nosso país a tais planos. Isso não é verdade.”

26 de novembro – O presidente ucraniano Volodymyr Zelensky afirmou ter provas de que a Rússia está tramando um golpe contra ele e seu governo. Peskov negou o envolvimento da Rússia. “A Rússia nunca teve planos de participar. A Rússia geralmente nunca se envolve em tais assuntos”, disse Peskov.

28 de novembro – Autoridades russas acusaram os Estados Unidos de conduzir uma campanha de propaganda. “A Rússia nunca arquitetou, não está arquitetando e jamais arquitetará qualquer plano para atacar ninguém”, disse Peskov. “A Rússia é um país pacífico, interessado em boas relações com seus vizinhos.”

1º de dezembro – O secretário de Estado dos EUA, Antony Blinken, defendeu o uso da diplomacia para resolver o conflito em curso no leste da Ucrânia, partes do qual estão sob controle de forças pró-Rússia. Blinken alertou que a Rússia poderia usar o conflito no leste da Ucrânia como pretexto para invadir o país. “A estratégia russa é alegar provocação para algo que já planejavam fazer há muito tempo”, disse Blinken.

2 de dezembro – Em uma teleconferência com jornalistas, Peskov justificou o imenso aumento da presença militar russa na fronteira com a Ucrânia, acusando o país de planejar usar a força para retomar regiões separatistas no leste ucraniano – alegação negada pela Ucrânia. “A probabilidade de hostilidades na Ucrânia ainda permanece alta”, disse Peskov. (Em 21 de fevereiro de 2022, a Rússia reconheceu a independência das autoproclamadas repúblicas de Donetsk e Luhansk e enviou tropas russas para a região de Donbass, na Ucrânia – o primeiro passo para o que se tornou uma invasão em larga escala. Posteriormente, após referendos considerados ilegais, Putin assinou a anexação formal de quatro regiões (Donetsk, Luhansk, Kherson e Zaporizhia) em 30 de setembro de 2022).

3 de dezembro – Um relatório da Inteligência estadunidense alerta que a Rússia planeja um ataque à Ucrânia no início de 2022 com até 175 mil soldados, segundo o Washington Post. Na época, a Rússia tinha cerca de 70 mil soldados ao longo da fronteira ucraniana, de acordo com o relatório.

11 de dezembro – Em entrevista à TV grega, Peskov negou que a Rússia estivesse planejando atacar a Ucrânia, alegando que o país estava movimentando suas forças em resposta aos movimentos militares dos EUA e da Ucrânia. Questionado se a Rússia planejava atacar a Ucrânia, Peskov disse: “Não, o problema é muito simples. A Rússia está movimentando suas forças dentro de seu território e nós podemos movimentar as nossas em qualquer direção que quisermos e mais perto das áreas que possam representar uma ameaça [e atualmente] vemos aviões de guerra americanos pousando na Ucrânia e equipamentos militares americanos se aproximando de nossas fronteiras.”

12 de dezembro – Em vídeo na TV estatal, Peskov negou que a Rússia seja a culpada pelas crescentes preocupações sobre o destino da Ucrânia. “As tensões atuais estão sendo criadas para demonizar ainda mais a Rússia e apresentá-la como uma potencial agressora”, disse Peskov.

31 de dezembro – Após uma conversa telefônica de 50 minutos entre Biden e Putin, um assessor do Kremlin disse ao New York Times que Putin estava desconfortável com a aproximação da OTAN na região e que a Rússia “se comportaria como os Estados Unidos se comportariam se armas ofensivas estivessem perto dos Estados Unidos”.

2022

 

11 de janeiro – Um dia depois de os EUA terem exortado a Rússia a retirar suas tropas durante as negociações em Genebra, tropas e tanques russos realizaram exercícios militares com munição real perto da fronteira com a Ucrânia. Peskov não estava otimista quanto ao sucesso das negociações. “Não ficaremos satisfeitos com o prolongamento indefinido deste processo”, disse ele.

Em uma coletiva de imprensa após as negociações em Genebra, o vice-ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Ryabkov, afirmou que a Rússia não tinha intenção de invadir a Ucrânia. “Essencialmente, diz-se que a Rússia quer trocar sua, entre aspas, ameaça contra a Ucrânia por mais flexibilidade por parte dos EUA e do Ocidente”, disse Ryabkov. “Não é esse o caso, porque não temos intenção de invadir a Ucrânia. E, portanto, não há nada em troca.”

“Dissemos aos nossos colegas que não temos planos de atacar”, disse Ryabkov. “Todo o treinamento de combate das tropas é realizado em nosso território nacional e não há motivo para temer uma escalada nesse sentido.”

16 de janeiro – A Ucrânia afirmou ter provas de que a Rússia estava por trás de um ataque cibernético massivo contra sites do governo ucraniano. Em entrevista à CNN, Peskov minimizou o ataque, classificando-o como uma “coincidência perigosa”. Ele disse: “Já estamos quase acostumados com o fato de os ucranianos culparem a Rússia por tudo, até mesmo pelo mau tempo em seu país”. (Os EUA posteriormente atribuíram outros ataques cibernéticos contra a Ucrânia no início de fevereiro à Rússia.)

19 de janeiro – Em uma coletiva de imprensa, Biden disse esperar que Putin ordene uma invasão da Ucrânia. “Meu palpite é que ele vai invadir. Ele precisa fazer alguma coisa”, disse Biden. Biden acrescentou que não acredita que Putin queira “uma guerra declarada”, mas “se acho que ele testará o Ocidente, os Estados Unidos e a OTAN o máximo possível? Sim, acho que sim. Mas acho que ele pagará um preço muito alto por isso, um preço que ele não imagina agora que custará. E acho que ele se arrependerá de ter feito isso”.

Naquele dia, Ryabkov insistiu novamente que a Rússia estava apenas realizando exercícios militares e não tinha intenção de invadir a Ucrânia. “Não há risco de uma guerra em larga escala começar na Europa”, disse ele à CNN. “Não queremos e não tomaremos nenhuma ação de caráter agressivo. Não atacaremos, bombardearemos, invadiremos, entre aspas, a Ucrânia.”

24 de janeiro – Em uma coletiva de imprensa diária em Moscou, Peskov acusou a Ucrânia de se preparar para uma ofensiva militar contra separatistas pró-Rússia na região de Donbass, no leste da Ucrânia, e culpou os EUA e a OTAN pela escalada das tensões. “Em geral, afirmamos e gostaríamos de chamar a atenção para o fato de que a escalada da tensão é realizada por meio de ações de informação e ações concretas tomadas pelos Estados Unidos da América e pela OTAN”, disse Peskov. “Falando em ações de informação, refiro-me à histeria informacional que estamos testemunhando. Ela é generosamente embasada em uma imenso quantidade de informações falsas, meras mentiras – refiro-me a essas mesmas falsificações.”

28 de janeiro – Em uma entrevista de rádio, o ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergey Lavrov, afirmou: “Não haverá guerra enquanto depender da Federação Russa, não queremos uma guerra. Mas não permitiremos que nossos interesses sejam grosseiramente pisoteados e ignorados.”

3 de fevereiro – Em resposta aos 100 mil soldados russos cercando a Ucrânia, Biden ordenou o envio de 2 mil soldados americanos para a Polônia e a Alemanha, membros da OTAN. Em resposta, Peskov culpou os EUA por “aumentar as tensões” na Europa, dizendo que as preocupações russas sobre a expansão da OTAN para a Europa Oriental são “absolutamente justificadas”.

12 de fevereiro – Após mais uma conversa telefônica infrutífera entre Biden e Putin, autoridades americanas alertaram que um ataque russo à Ucrânia poderia ocorrer a qualquer momento. Um assessor do Kremlin acusou o Ocidente de criar “histeria”. “Os americanos estão inflando artificialmente a histeria em torno da chamada invasão russa planejada”, disse Yuri Ushakov, assessor do Kremlin, a repórteres após a ligação entre Biden e Putin. “As condições para possíveis ações provocativas das forças armadas ucranianas estão sendo criadas juntamente com essas alegações.”

15 de fevereiro – Após conversas com a chanceler alemã, Putin disse à imprensa que houve uma “retirada parcial de tropas da área de nossos exercícios militares”. “Sim, foi tomada a decisão de retirar parte das tropas”, afirmou. “O que a Rússia fará a seguir? A Rússia agirá conforme o planejado. Qual é o plano? O plano se baseia na situação real no terreno. Quem pode dizer como a situação real se desenvolverá? Ninguém neste momento. Há outras partes envolvidas. Mas é nossa intenção e resolução chegar a um acordo com nossos parceiros sobre as questões que colocamos em pauta, por meios diplomáticos. Essas questões são bem conhecidas: no que diz respeito à segurança da Rússia, trata-se da não expansão da OTAN e da retirada da infraestrutura militar do bloco para as posições de 1997, e da não implantação de sistemas de ataque com mísseis perto de nossas fronteiras. Acho que tudo está claro.”

18 de fevereiro – Apesar da insistência do Kremlin de que não tinha intenção de invadir, Biden afirmou em uma coletiva de imprensa: “Temos motivos para acreditar que as forças russas estão planejando e pretendem atacar a Ucrânia na próxima semana — nos próximos dias. Acreditamos que o alvo será Kiev, a capital da Ucrânia, uma cidade com 2,8 milhões de habitantes inocentes. … Neste momento, estou convencido de que ele já tomou a decisão. Temos motivos para acreditar nisso.”

21 de fevereiro – Em um longo discurso ao povo russo, Putin apresentou seus argumentos para o envio de tropas às regiões de Donetsk e Luhansk, controladas por separatistas, no leste da Ucrânia, e deixou em aberto a possibilidade de um ataque militar à Ucrânia. “Gostaria de ser claro e direto: nas circunstâncias atuais, em que nossas propostas para um colóquio igualitário sobre questões fundamentais não foram respondidas pelos Estados Unidos e pela OTAN, e em que o nível de ameaças ao nosso país aumentou significativamente, a Rússia tem todo o direito de responder para garantir sua segurança”, disse Putin. “E é exatamente isso que faremos.”

22 de fevereiro – Tanques russos entram na região de Donbass, na Ucrânia, em uma missão que autoridades russas descreveram como de manutenção da paz.

23 de fevereiro – Respondendo a perguntas da imprensa, Putin condenou o Ocidente por fornecer armas à Ucrânia e afirmou: “Portanto, o ponto mais relevante é a desmilitarização, até certo ponto, da Ucrânia de hoje, porque esse é o único fator que pode ser objetivamente controlado, monitorado e combatido”. Putin também acusou a Ucrânia de nutrir “ambições nucleares”, o que ele considerou “totalmente inaceitável”. (O verificador de fatos do Washington Post classificou essa acusação como “pura fantasia”.)

24 de fevereiro – A Rússia lança uma invasão em grande escala da Ucrânia. Em uma teleconferência com jornalistas, Peskov disse ser “inaceitável” descrever a Rússia como uma força de ocupação na Ucrânia — apesar dos ataques generalizados da Rússia contra cidades e bases militares ucranianas.

*Com FactCheck

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