A Santa Sé e o Brasil celebram esta sexta-feira, 23 de janeiro, 200 anos de relações diplomáticas. O secretário de Estado presidiu à missa de ação de graças na Basílica de Santa Maria Maior e fez votos de que este bicentenário não seja “um ponto de chegada, mas um limiar, o início renovado de um compromisso comum em favor do homem e da sua vocação transcendente”.
Bianca Fraccalvieri – Vatican News
Duzentos anos não apenas de história, mas de um caminho espiritual e humano “registrado na carne viva de um povo que crê”: assim o secretário de Estado, card. Pietro Parolin, definiu as relações diplomáticas entre Brasil e Santa Sé, cujo bicentenário foi celebrado na tarde desta sexta-feira, 23 de janeiro, com uma missa de ação de graças na Basílica de Santa Maria Maior.
Construir pontes onde o mundo ergue muros
Diante de autoridades civis e eclesiásticas, o cardeal recordou as principais etapas deste elo, que começou com o reconhecimento por parte da Santa Sé do Império do Brasil exatamente dois séculos atrás.
O primeiro Plenipotenciário do Imperador Pedro I em Roma foi Monsenhor Francisco Corrêa Vidigal. Em fevereiro daquele mesmo ano, o Papa Leão XII propôs a São Gaspar del Bufalo o cargo de Representante Pontifício no Brasil, mas ele pediu e obteve do Papa a licença para não aceitar. Somente em julho de 1829 foi enviado ao Brasil Mons. Pietro Ostini, primeiro Internúncio Apostólico e Delegado Apostólico para toda a América Latina. Desde então, até os dias atuais, 34 Internúncios e Núncios Apostólicos se sucederam no Brasil.
“Duzentos anos não são apenas uma medida cronológica, mas uma trama de encontros, de palavras pronunciadas e, às vezes, silenciadas, de gestos discretos e decisões corajosas que contribuíram para construir pontes onde o mundo frequentemente ergue muros”, afirmou o Secretário de Estado, que acrescentou.
A diplomacia da Igreja não nasce da busca de vantagens políticas
Inspirando-se nas leituras do dia, o card. Parolin analisou a essência da diplomacia, citando também o recente discurso do Papa Leão XIV ao Corpo Diplomático. Na ocasião, o Pontífice falou da diplomacia pontifícia como “expressão da própria catolicidade da Igreja”, “animada por uma urgência pastoral que a impele a intensificar a sua missão evangélica ao serviço da humanidade, não a procurar privilégios”.
Assim, acrescentou o cardeal italiano, “a diplomacia da Igreja não nasce da busca de vantagens políticas, mas de uma visão ética e espiritual da história, na qual o colóquio prevalece sobre o conflito, a paciência sobre a opressão e a consciência sobre o interesse imediato”. Como Davi na gruta, afirmou, “a Santa Sé muitas vezes escolheu o caminho silencioso e humilde da palavra, mesmo quando poderia reivindicar outra coisa, confiando no fato de que a verdade possui uma força própria capaz de agir ao longo do tempo”.
Não um ponto de chegada, mas um limiar
O secretário de Estado dedicou algumas palavras ao povo brasileiro, segundo ele “profundamente marcado pela fé cristã, pela devoção mariana e pela capacidade de enfrentar as provações históricas sem perder o sentido da felicidade e da solidariedade”. Ao longo de duzentos anos, os brasileiros passaram por mudanças políticas, transformações sociais, crises e renovações, mas as relações com a Santa Sé permaneceram ancoradas num princípio essencial: a centralidade da pessoa humana, criada à imagem de Deus e chamada a uma vida de dignidade, liberdade e responsabilidade.
Por fim, o card. Parolin mencionou a importância de celebrar este bicentenário em uma basílica dedicada à Mãe de Deus: “Sob o seu olhar maternal, a diplomacia torna-se um exercício de escuta, de custódia e de paciente tecelagem de laços. O Brasil, que tem uma profunda devoção a Nossa Senhora Aparecida, encontra em Maria uma ponte espiritual privilegiada com a Sé de Pedro”. E citou os três Papas que peregrinaram em território brasileiro: São João Paulo II, Bento XVI e Francisco.
O convite do purpurado italiano é “olhar para o passado com gratidão, para o presente com responsabilidade e para o porvir com esperança. Como Davi, somos chamados a escolher o caminho da mansidão, que não é fraqueza, e da justiça, que não é vingança.” E afirmou:
O secretário de Estado concluiu confiando este caminho a Salus Populi Romani e Nossa Senhora Aparecida, “para que conserve em seu coração materno a Santa Sé e o povo brasileiro e os conduza, através dos caminhos por vezes obscuros da história, para a luz que nunca se põe: o Senhor Jesus Cristo”.
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As imagens da celebração


