Pe. Patton: cristãos no Oriente Médio também hoje vivem uma Via-Sacra

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O Custódio da Terra Santa por 9 anos, Pe. Francesco Patton, é o autor das meditações da Via-Sacra no Coliseu desta Sexta-feira Santa (03/04), escolhido pelo Papa Leão XIV: “vou falar do sofrimento das mães e das mulheres que hoje encarnam a figura de Maria, de Verônica e das mulheres de Jerusalém. Por trás da reflexão sobre a concepção distorcida do poder, há fatos da atualidade internacional que estão à vista de todos”.

Roberto Cetera

«Nas reflexões e nas orações, é evidente a inspiração na realidade atual e em pessoas concretas», em particular nos sofrimentos dos cristãos no Oriente Médio devido à guerra. O Pe. Francesco Patton, da Ordem dos Frades Menores, resume assim a origem das meditações escritas para a Via-Sacra que será presidida por Leão XIV no Coliseu na noite do dia 3 de abril, Sexta-feira Santa. Custódio da Terra Santa de 20 de maio de 2016 a 24 de junho deste ano, nesta entrevista à mídia vaticana o padre franciscano explica também como a escolha do Pontífice coincidiu com o oitavo centenário da morte do Pobrezinho de Assis.

Padre Patton, o Papa quis confiar ao senhor a redação das meditações que acompanharão a Via-Sacra da Sexta-feira Santa no Coliseu. É um sinal inequívoco da atenção do Santo Padre pela Terra Santa e pelas tragédias que assolam os países do Oriente Médio.

Leão XIV, desde o dia da sua eleição, tem invocado continuamente o dom da paz. Ele expressou proximidade e solidariedade não apenas à Terra Santa, mas a todos os países, povos e pessoas que estão sofrendo por causa da guerra. Essa, aliás, é a linha da Igreja há mais de 100 anos, desde que, em 1º de agosto de 1917,  Bento XV se recusou a abençoar os exércitos, definiu a guerra que se travava como «massacre inútil» e convidou os responsáveis das nações beligerantes a alcançar uma paz justa e duradoura por meio de negociações, o respeito ao direito internacional, a restituição dos territórios ocupados, o restabelecimento da livre circulação, o desarmamento que liberasse recursos para investir no bem comum e no desenvolvimento. Desde então, a Igreja sempre expressou proximidade com as populações provadas pela guerra e repetiu várias vezes a condenação dos conflitos armados que continuam a ser um “massacre inútil”. Quase todos os domingos, após o Angelus, e todas as quartas-feiras, ao final de sua catequese na Audiência Geral, o Papa Prevost insistiu na necessidade de alcançar a paz, repito, não apenas na Terra Santa, mas em todos os países (são cerca de 60) que estão atualmente envolvidos em guerras sangrentas. E no domingo passado, ele usou palavras muito fortes para rejeitar a violência perpetrada em nome de Deus, dizendo que Deus não ouve a oração dos belicistas com as mãos manchadas de sangue.

Imagino que para o senhor receber este convite tenha sido uma surpresa.  

Uma surpresa muito grande, diria eu. Concretamente, fui contatado pela Secretaria de Estado, que me informou que o Santo Padre, por ocasião do oitavo centenário da morte de São Francisco de Assis, lhes havia dado a orientação de me pedir que preparasse as meditações. Isso me deixou intimidado e, ao mesmo tempo, honrado.

Ao escrever essas  meditações, o que mais o inspirou?

Inspirei-me no texto dos Evangelhos, privilegiando o evangelista João, que tem um olhar penetrante sobre o mistério da Paixão do Senhor; e depois nos “Escritos” de São Francisco, que são uma mina de espiritualidade cristã. Nas reflexões e nas orações, fica evidente que a inspiração vem também da realidade atual e de pessoas concretas nas quais — nestes anos — pude rever os personagens da Via-Sacra. Onde falarei do sofrimento das mães e das mulheres, estão evidentes, estão marcadas, mulheres sobre as quais até mesmo «L’Osservatore Romano» escreveu e que encarnam hoje a figura de Maria, de Verônica, das mulheres de Jerusalém. Por trás da reflexão sobre a concepção distorcida do poder e sobre o abuso de poder, há fatos da atualidade internacional que estão aos olhos de todos; o Cireneu tem o rosto de tantos voluntários e profissionais humanitários (e também da comunicação) que pude achar nestes anos e que arriscaram a vida para cuidar de alguém, ou para divulgar a verdade, e sem sequer serem cristãos. Nas reflexões, as situações concretas mencionadas não pretendem, porém, suscitar um julgamento sobre pessoas específicas, mas sim convidar à reflexão, a fazer perguntas e — se necessário — também a mudar. A mensagem é essencialmente religiosa e visa expressar a proximidade de Jesus Cristo, como Filho de Deus encarnado, com cada pessoa humana. Procurei fazer com que a Via-Sacra do Coliseu se inspirasse na Via-Sacra que realizamos todas as sextas-feiras ao longo da Via Dolorosa e, ao mesmo tempo, se valesse da espiritualidade de São Francisco para ajudar os crentes a “caminhar nas pegadas de Jesus” e os não crentes a descobrir que Jesus se importa com cada um de nós, e que nele podem achar esperança e sentido de vida mesmo aqueles que já os perderam. Meu desejo é que, ao achar Jesus Cristo e caminhar atrás Dele em direção ao Calvário, cada pessoa sinta Sua proximidade e Seu amor; perceba que Jesus Cristo deu a vida por cada um de nós e quer levar cada um de nós a “voltar ao Pai” junto com Ele, a achar a vida em seu sentido pleno graças a Ele e a viver a condição humana, que é finita e mortal, com o horizonte da Páscoa, da Ressurreição, da vida eterna, da participação na própria vida de Deus.

Padre Francesco, seu mandato como Custódio, ao longo de 9 anos, atravessou acontecimentos de grande gravidade: a guerra civil na Síria, a Covid, a guerra em Gaza. Agora, ao término de seu mandato, o senhor decidiu permanecer, como simples frade, na Terra Santa: no monte de onde Moisés apenas pôde contemplá-la. Por que escolheu justamente o Monte Nebo?

Mais precisamente, manifestei minha disponibilidade para viver no Monte Nebo. Depois de tantos anos dedicados a funções de autoridade e governo, senti a necessidade de voltar a viver como um simples frade menor. Poder viver em uma pequena fraternidade, um pouco periférica, permite-me recuperar um ritmo mais regular de oração, retomar os estudos, colocar-me a serviço dos peregrinos e realizar tarefas humildes. Além disso, o Monte Nebo sempre exerceu um grande fascínio sobre mim, tanto por estar ligado à figura de São Moisés, que é de uma riqueza extraordinária e que gosto de poder aprofundar, quanto porque este lugar foi, durante séculos, um mosteiro e um santuário bizantino, depois engolido pelos acontecimentos da história e acabado em ruínas, e finalmente renascido há 100 anos graças aos frades da Custódia da Terra Santa, que aqui na Jordânia souberam estabelecer amizade com a família beduína que era proprietária do local e que, após ter vendido o terreno à Custódia em 1932, continuou a colaborar conosco. É um local de encontro para todos e com todos, frequentado por cristãos e muçulmanos, onde todos podem respirar aquele clima de fé e paz que ele transmite, e onde todos podem obter «a cura do corpo e da alma», como dizia um peregrino do século V.

Os cristãos da Terra Santa vivem uma Via-Sacra diária, cujo desfecho é, cada vez mais, a migração.  Como se pode ser sal da terra nessas condições?

É muito difícil, mas não impossível. Os cristãos que vivem hoje na Terra Santa se assemelham muito aos cristãos da primeira geração, têm os mesmos méritos e as mesmas limitações, e provavelmente também o mesmo DNA. De qualquer forma, se há 2000 anos Jesus dizia aos poucos discípulos que tinha: «Não tenhas medo, pequeno rebanho, pois agradou ao vosso Pai dar-vos o Reino», é porque também naquela época os discípulos eram estatisticamente irrelevantes, mas haviam descoberto o verdadeiro sentido da vida, aquele revelado por Jesus no Sermão da Montanha, com o ápice das bem-aventuranças, do perdão aos inimigos e da misericórdia; aquele revelado através do acolhimento dos pequenos, das mulheres, dos pobres, dos doentes, mas também dos publicanos, dos pecadores e das prostitutas; aquele revelado ao lavar os pés dos seus, e depois ao dar a vida e vencer a morte por nós. Ser cristão na Terra Santa (mas também em todos os lugares do mundo onde os cristãos são poucos e/ou perseguidos) é uma vocação e uma missão: somos chamados a mostrar o rosto misericordioso de Deus, que acolhe todas as pessoas sem distinção de gênero, nacionalidade e religião; e somos chamados — também dessa forma — a revelar a dignidade filial, de seres criados à imagem e semelhança de Deus, que toda pessoa possui, mesmo quem pertence a outro povo, mesmo quem errou, mesmo quem me fez mal.

As religiões como instrumento de paz. No entanto, as guerras no Oriente Médio, ao contrário das décadas passadas, têm cada vez mais uma conotação religiosa. Até mesmo Israel, que nasceu em um contexto laico de influência ocidental, hoje parece ser vítima de um fundamentalismo de caráter messiânico. O que aconteceu?

Aconteceu o que aconteceu também em outros lugares, sobretudo após a queda do Muro de Berlim, as ideologias seculares ruíram e quem estava no poder começou a instrumentalizar as religiões para criar identidades e oposições. Poderíamos dizer que os “zelotes” voltaram à moda, aqueles que, na época de Jesus, justificavam a violência em nome de Deus. Hoje, os “zelotes” estão por toda parte: os encontramos no mundo muçulmano, através de uma infinidade de movimentos fundamentalistas armados; os encontramos no mundo judaico, e eles estão bem representados pelos colonos e por aqueles que os apoiam politicamente, tanto em nível local quanto internacional; também os encontramos entre os cristãos, que, infelizmente, chegam a invocar bênçãos estranhas que vão na direção oposta àquela indicada no domingo passado por  Leão XIV e, há 2.000 anos, por Jesus no Getsêmani; os encontramos até mesmo em versão secular nos laicismos de Estado que censuram as expressões religiosas de forma discriminatória e persecutória. O que acontece em Israel não é uma anomalia, mas uma tendência global. Neste contexto, a Igreja tem um papel importantíssimo a desempenhar: o de reafirmar alguns princípios fundamentais do Evangelho: é preciso dar a César o que é de César, mas a Deus o que é de Deus. Ou seja, é preciso dessacralizar e secularizar o poder político e, ao mesmo tempo, garantir a liberdade religiosa para todos. É preciso retirar o terreno de sob os pés tanto do fundamentalismo religioso quanto da instrumentalização política da religião. Para isso, é preciso também convencer os líderes religiosos de todas as religiões a cooperarem entre si para deslegitimar qualquer instrumentalização da religião para justificar a violência. Os princípios estabelecidos no Documento sobre a Fraternidade Humana, assinado em Abu Dhabi pelo Papa Francisco e pelo Grande Imã de Al-Azhar, e incorporados na encíclica Fratelli tutti, constituiriam um excelente ponto de partida para uma espécie de “ONU” das religiões. Obviamente, é preciso também educar os fiéis nessa perspectiva, mesmo sabendo que os “zelotes” se oporão a isso com veemência, invocando eles próprios motivos religiosos.

O conflito israelense-palestino já dura 80 anos. 95% dos contendores de hoje nunca conheceram a paz. Pergunto-lhe muito simplesmente: haverá em algum momento paz na Terra Santa?

Mais cedo ou mais tarde haverá, inevitavelmente, mas o caminho ainda será longo; será necessária uma mudança geracional, uma mudança na classe política (esperando não cair da panela no fogo) e, acima de tudo, uma mudança cultural. Hoje — infelizmente — faltam verdadeiros profetas e homens com uma visão, mas isso não é um problema apenas em Israel e na Palestina ou no Oriente Médio; é um problema global. Há, no entanto, sinais positivos na sociedade civil; penso no movimento iniciado pelo israelense Maoz Inon e pelo palestino Aziz Abu Sarah, ou no das “Mães que caminham descalças pela paz” ou das “Women of faith for peace” e em tantos outros pequenos grupos que, espera-se, possam crescer. Nossas próprias escolas são um exemplo dessa educação para a convivência e a fraternidade. Como já repeti várias vezes ao longo destes anos, existe, porém, também uma responsabilidade política, que é a de introduzir no sistema escolar programas obrigatórios de educação para o respeito e a acolhida do outro, para a gestão de conflitos e para a paz, seguindo o modelo do que se faz em Rondine, a cidade da paz na região de Arezzo, na Itália. Isso não se aplica apenas a Israel e à Palestina, mas também aos países europeus.

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