“Testemunhas da Esperança” – Irmãs católicas contra o Tráfico de Pessoas na África Austral”. Numa caminhada silenciosa, mas determinada, iniciada há quase duas décadas, as Irmãs católicas na África Austral têm vindo a construir, de forma constante, uma poderosa rede de fé, resistência e esperança na luta contra o tráfico de seres humanos.
Sheila Pires – Joanesburgo
O que começou em 2007 como um simples seminário na Cidade do Cabo tornou-se rapidamente um ponto de viragem. As mulheres religiosas, confrontadas com a crescente realidade do tráfico nas suas comunidades, perceberam que o silêncio já não era uma opção. Em 2008, a sua preocupação transformou-se em ação com a criação da SARWATIP – South African Religious Women Against Trafficking in Persons. Foi uma resposta coletiva nascida da compaixão, da proximidade ao sofrimento e de uma convicção partilhada de que a Igreja não podia permanecer à margem desta crise.
Ao longo dos anos, o movimento evoluiu. Em 2014, a iniciativa passou a chamar-se Counter-Trafficking in Persons (CTIP), reforçando a coordenação e alargando a colaboração. A nível global, o nascimento da Talitha Kum, sob a égide da União Internacional das Superioras Gerais (UISG), deu nova estrutura e conectividade internacional aos esforços locais. Para as irmãs religiosas da África Austral, esta rede internacional tornou-se uma verdadeira tábua de salvação — um espaço de formação, solidariedade e missão partilhada.
Talitha Kum África do Sul
Em 2022, a Talitha Kum África do Sul foi formalmente estabelecida, marcando um novo capítulo na resposta organizada da Igreja ao tráfico de pessoas. Embora com poucos anos de existência, a rede já tem um grande património de compromisso e experiência.
Falando ao Gabinete de Comunicação da Conferência Episcoal da Africa Austral (SACBC), a Irmã Zelna Oosthuizen RGS, Presidente da Leadership Conference of Consecrated Life in Southern Africa (LCCLSA) e membro da Congregação de Nossa Senhora da Caridade do Bom Pastor, refletiu sobre este trajeto.
“A evolução do trabalho das mulheres religiosas no combate ao tráfico de seres humanos começou em 2007”, e “em 2008 culminou num grupo de mulheres religiosas que disse: precisamos de fazer algo de forma ativa”.
Hoje, esse “algo” transformou-se numa missão estruturada e enraizada na fé. Através da Talitha Kum, irmãs de toda a África Austral estão a ser formadas, capacitadas e fortalecidas para responder de forma mais eficaz ao tráfico em todas as suas formas. Os workshops para formadores e líderes são hoje uma parte essencial desta missão — não apenas para partilhar informação, mas para formar testemunhas.
“Precisamos também de capacitar os jovens, para que saiam e sejam testemunha de esperança” – disse a Irmã Oosthuizen.
Formação em todas as formas possíveis
A formação através dos seminários não fica confinada às salas de conferências. As irmãs levam a sua missão às escolas, paróquias e comunidades locais, sensibilizando para a realidade do tráfico de seres humanos, ensinando as pessoas a reconhecer os seus sinais e ajudando as comunidades a compreender como a vulnerabilidade é explorada.
Desde as aulas de catequese aos encontros paroquiais, dos grupos de jovens aos fóruns de mulheres, a mensagem é transmitida de forma serena, mas seguro: o tráfico é real, está próximo, e deve ser enfrentado.
Enraizadas na sua proximidade com o povo, as religiosas atuam a nível da base, escutando, acompanhando, protegendo e educando.
“Como religiosas, estamos no terreno, estamos próximas das pessoas”, afirmou a Irmã Oosthuizen. “Precisamos de escutar as suas vozes e achar formas de criar redes com outros para fazer a diferença nas suas vidas, porque somos as mais próximas, estamos na base.”
Hoje, irmãs da África do Sul, Botswana, Eswatini e Lesoto caminham juntas nesta missão, unidas pela fé e por uma responsabilidade partilhada. A sua presença em espaços regionais e inter-religiosos, incluindo fóruns ligados ao G20, reflete um reconhecimento crescente de que o tráfico de seres humanos não é apenas uma crise social, mas uma ferida ética e espiritual na sociedade.
Através da Talitha Kum, a Igreja na África Austral continua a tecer uma rede de fé, formação e ação a través de seminários, visita a escolas, encontros paroquiais…
É uma luta silenciosa, muitas vezes invisível, mas profundamente enraizada no Evangelho: mulheres religiosas ao lado dos mais vulneráveis, construindo estruturas de proteção e tornando-se, como a Irmã Oosthuizen a descreve, “uma testemunha de esperança” para mulheres, homens, raparigas e rapazes nesta era.
Numa região marcada por migração, pobreza e desigualdade, a sua missão fala com clareza profética: a luta contra o tráfico de seres humanos não é apenas um dever social — é uma vocação sagrada.

