Tríduo Pascal: o mistério que desafia o tempo e propõe um novo sentido ao humano

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O Papa Francisco, em sua catequese sobre o Tríduo Pascal (Audiência Geral, 31 de março de 2021), nos lembra que este gesto é a própria identidade cristã. ,”É a noite em que Ele nos pede para nos amarmos, tornando-nos servos uns dos outros, como Ele fez ao lavar os pés dos discípulos”.

Vívian Marler – Assessora de Comunicação CNBB Regional Norte 2

No calendário da fé cristã, o Tríduo Pascal não é apenas uma sequência de datas; é um único evento narrado em três atos que resumem a totalidade da experiência humana. Da mesa compartilhada ao sepulcro vazio, o que se celebra entre a noite de Quinta-feira Santa e o Domingo da Ressurreição é, em última análise, um manifesto sobre o nosso propósito na Terra. Mas o que as sandálias sujas de poeira da Judeia de dois mil anos atrás têm a dizer aos nossos pés cansados em pleno 2026?

A jornada começa com um gesto de ruptura. Na Quinta-feira Santa, Jesus retira o manto e assume o avental. Na época de Cristo, lavar os pés era a tarefa mais baixa de um servo, um serviço destinado aos “invisíveis” da sociedade.

O Papa Francisco, em sua catequese sobre o Tríduo Pascal (Audiência Geral, 31 de março de 2021), nos lembra que este gesto é a própria identidade cristã. ,”É a noite em que Ele nos pede para nos amarmos, tornando-nos servos uns dos outros, como Ele fez ao lavar os pés dos discípulos”. Em um mundo onde todos buscam o topo, o Tríduo nos interpela, quem ainda se dispõe a abaixar-se? O propósito humano não se encontra no prestígio, mas na coragem de ser útil.

A Sexta-feira Santa nos coloca diante da vulnerabilidade extrema. Jesus crucificado é o retrato da entrega, mas é também o espelho das nossas injustiças atuais, dos feminicídios à exclusão que ainda fere a nossa Amazônia.

Sobre esse “drama de amor”, o Papa Bento XVI refletiu com maestria em sua Audiência de 20 de março de 2008, “o Tríduo Pascal nos dá a certeza de que nunca seremos abandonados nas provações da vida”. Ele nos ensina que a cruz não é um sinal de derrota, mas o “inestimável dom da salvação” (Audiência, abril de 2009). Em tempos de julgamentos rápidos, o Cristo da Sexta-feira nos ensina a misericórdia, a capacidade de sentir a dor do outro e perdoar, transformando o sofrimento em redenção.

O Sábado Santo é o dia do silêncio, que deságua na explosão de luz da Vigília Pascal. Se o sepulcro parecia o ponto final, a Ressurreição provou que a morte, a opressão e o desânimo, não tem a última palavra.

Neste seu primeiro Tríduo como pontífice, o Papa Leão XIV, em sua mensagem para a Páscoa de 2026, reforça o papel social dessa esperança, “a ressurreição não é um evento do passado para ser admirado, mas a força viva que nos impele a curar as feridas do mundo hoje, transformando cada sepulcro de tirania em um jardim de nova vida”.

O Tríduo Pascal, portanto, não é uma recordação histórica. É um chamado urgente. Ele nos convida a caminhar com Cristo para aprendermos a gramática do amor. ‘Lavar os pés’ para sermos humildes; ‘Partir o pão’ para sermos comunhão; ‘Abraçar a cruz’ para sermos misericordiosos, e ‘Ressurgir’ para sermos esperança ativa.

No silêncio de cada gesto destes dias, a humanidade é convidada a redescobrir que nosso maior propósito é aprender a amar como Ele amou. Como nos ensinam as vozes dos pastores e a realidade da vida, mesmo após a noite mais escura, a luz sempre renasce. A Páscoa é a prova de que o amor é a única força capaz de transformar o mundo.

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