Na sua crónica desta semana, o P. Tony Neves, Conselheiro Geral da Congregação dos Espiritanos volta à sua recente missão aos Camarões, relatando aspectos da sua visita. naquelas terras da África central.
P. Tony Neves
Aterrei em Yaoundé e fui levado até à lar Provincial dos Espiritanos, no centro desta capital camaronesa. Pelo caminho, um tráfico impossível e indisciplinado, que nem sequer os semáforos respeitam. O trânsito está sempre engarrafado, dia e noite, pois a cidade não dorme. Somos constantemente ‘picados’ pelo enxame de motos que nos ameaçam por todos os lados. Há sempre diante dos nossos olhos uma mancha amarela, os incontáveis táxis, quase todos Toyota Yaris. Passamos junto da Catedral, que tive a felicidade de visitar no último dia. É uma cidade imenso (sempre que perguntei pela população, recebi respostas de 3 a 6 milhões de habitantes! – não há estatísticas que resistam a um crescimento tão acelerado como descontrolado!), com comércio em todos os passeios, ruas serpenteando nas inúmeras descidas e subidas, a merecer ser chamada a ‘cidade das sete colinas’ (equiparando-a a Roma e Lisboa, apelidadas com o mesmo título!). A cidade está sempre sob uma nuvem de fumo, resultante da poluição automóvel, mas também das queimadas de lixo em plena rua.
Visita a três paróquias
Tive a felicidade de visitar três das paróquias onde os Espiritanos trabalham. Comecei por sair do centro e ir até Yeg Asi, paróquia já em contexto rural, numa área de muita plantação de cacau. Além das celebrações e reuniões na comunidade paroquial, tive a possibilidade de presidir a um funeral segundo os ritos tradicionais e católico. Faleceu um senhor de 52 anos, que deixou viúva e cinco filhos. Morreu em novembro e esteve na morgue até meados de janeiro, dando tempo ao cumprimento de todos os ritos tradicionais. O funeral foi na aldeia, junto à residência. Houve missa, sepultamento em frente à lar e, depois, comida e bebida para uma multidão de povo que ali se concentrou.
Visitei a comunidade de Mvolyé, bem no centro da capital, que é responsável pela animação da paróquia sociológica do Espírito Santo. Esta é a Missão mais antiga da cidade, considerada a Missão-Mãe da Arquidiocese de Yaoundé e de todas as Dioceses que dela nasceram. Foi fundada pelos Padres Palotinos Alemães em 1901. Com a chegada dos franceses após a 1ª Guerra Mundial, foram os Espiritanos alsacianos quem tomou conta desta paróquia que não tem geografia, pois nasceu como Capelania Francófona. Tem gente que vem de toda a cidade para abarrotar por completo três missas dominicais e uma semanal, às 12h. Ao lado desta Igreja histórica, está a imenso Basílica de Maria Rainha dos Apóstolos, confiada aos Missionários Palotinos. Um pouco mais abaixo está a lar Provincial das Irmãs Espiritanas que já celebraram cem anos de presença missionária nos Camarões. Têm-se dedicado à pastoral, à educação e à saúde.
A nova Paróquia de Nossa Senhora Rainha nasceu na lar Provincial dos Espiritanos e tem agora uma nova Igreja, ainda em construção. Tive a felicidade de celebrar a Eucaristia e reunir com a comunidade.
Finalmente, fui até à grande paróquia de S. Pierre de Kong. A Igreja é imenso e está sempre cheia quando há celebrações. Participei em duas. Tem muitos grupos e movimentos. Ao lado está o Centro Espiritano, com um plano de atividades muito intenso.
Despedida de Yaoundé e dos Camarões
Saí de Yaoundé para ir até ao Leste. Regressei de Bertoua e tive direito a duas horas de engarrafamento brutal. Voltei a sair da capital para voar até ao extremo norte. Passeei-me nas idas e voltas às paróquias. Finalmente, tive direito a uma visita guiada à imponente e belíssima catedral, situada no centro histórico da cidade. Tem, ao seu redor, duas Grutas dedicadas a Nossa Senhora (de Lourdes e das Vitórias), bem como uma Via-Sacra com pinturas em tons africanos, feitas pelo célebre jesuíta Engelbert Mweng, também autor do imenso mosaico que está atrás do altar-mor, na Catedral, respeitando traços da arte tradicional africana.
A despedida de Yaoundé e dos Camarões aconteceu num dia de tempestade tropical em plena estação seca. Surpreendeu tudo e todos. E provocou o caos na capital que parece não estar preparada para receber tanta chuva em tão pouco tempo.
Deixei com saudades um país que me acolheu de braços abertos e que me provou que a Missão Espiritana já deu muito a este povo, mas continua atual e interveniente, sempre ao lado dos mais frágeis, sobretudo nas periferias onde vivem as pessoas com mais dificuldades. E, em todo o lado, me foram recordando que é aos navegadores portugueses que se deve o nome de Camarões!…
Tony Neves, em Yaoundé e periferias

