O cardeal Odilo Scherer, arcebispo de São Paulo, em uma entrevista exclusiva à Rádio Vaticano – Vatican News, fala sobre os trabalhos da 62ª Assembleia da CNBB, sobre o ano eleitoral brasileiro e sobre o seu porvir após deixar a liderança da arquidiocese de São Paulo. “Eu só tenho muito a agradecer a Deus pela oportunidade de poder servir esta Igreja de São Paulo, que é muito expressiva”.
Silvonei José – Vatican New – Aparecida
Dom Odilo, nós estamos aqui em Aparecida, em plena sexagésima segunda Assembleia Geral do Episcopado Brasileiro. Tivemos o início dos trabalhos com o retiro e agora, propriamente, as atividades, o tema central dedicado às diretrizes. Vamos falar um pouco das diretrizes, podemos simplificar essa terminologia?
É tradição da nossa Conferência elaborar e propor para a Igreja em todo o Brasil Diretrizes Gerais para a Ação Evangelizadora. Normalmente é para um quadriênio, mas podem ser prorrogadas, ajustadas para mais um ou dois quadriênios. Diretrizes são orientações gerais, linhas gerais a partir das necessidades, das situações que são naturalmente avaliadas, são contempladas. Depois, claro, a palavra do magistério, as questões mais próprias do momento que se vive. A partir disso, surgem então, essas orientações, as linhas gerais que são chamadas Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora. Essas Diretrizes Gerais valem em primeiro lugar para a própria conferência, os seus organismos que são as suas comissões episcopais pastorais, para o secretariado-geral, para as pastorais de âmbito nacional e para os regionais e as organizações pastorais dos regionais da CNBB.
As dioceses olham essas Diretrizes e procuram adequar os seus planos de pastoral locais também à luz das mesmas. Então, as Diretrizes Gerais são importantes para que as dioceses do Brasil todo também possam caminhar de uma maneira, eu não diria unitária, mas em comunhão, mantendo as mesmas grandes metas de um quadriênio de evangelização ou de um certo período de evangelização. Para isso, as diretrizes, portanto, são importantes, dão o sentido da corresponsabilidade de todo episcopado pela evangelização, não só em suas próprias dioceses, mas também no conjunto das dioceses, das igrejas particulares de todo o país.
Mas temos também outros temas que os senhores estarão discutindo também nesses dias. Algum que o senhor destacaria como relevante?
Bem, normalmente quando existe a aprovação de novas Diretrizes, este é o tema central da Assembleia, e a este tema são dedicadas às sessões necessárias quantas forem, porque as Diretrizes elas são discutidas, são discernidas no plenário, com a possibilidade de oradores inscritos para fazer as observações, elas depois são votadas individualmente frase por frase. E, finalmente, existe depois mais uma apresentação das Diretrizes adequadas, ou readequadas de acordo com as emendas apresentadas para ter mais uma sessão de intervenções do plenário para adequar e ajustar as Diretrizes, de modo que, no final, elas representem realmente uma palavra de consenso muito grande quando acabam sendo votadas.
Mas existem, sim, outros tantos temas. Primeiramente, tem muitos relatórios que cada Assembleia, pelo estatuto e pelo regimento, contempla uma série de relatórios; relatórios da presidência; relatórios do setor econômico; administrativo da CNBB; o relatório das Comissões episcopais pastorais.
Mas existe depois outros temas que são propostos para que a Conferência acompanhe a evolução das muitas preocupações pastorais que existem, por exemplo, o tema da educação, o tema da catequese. Existe o tema do ensino religioso, o tema da família: são sempre temas que voltam à Assembleia, porque sobre isso nunca se termina. As relações, digamos, entre Igreja e sociedade, as relações com o poder público, o governo, e assim por diante, tudo isso sempre volta a cada Assembleia, e também nesta Assembleia volta.
E é claro a Assembleia procura também dirigir uma palavra ao público, às comunidades da Igreja no Brasil. E neste ano, que é um ano eleitoral, é claro, uma palavra ao povo brasileiro. Uma mensagem ao Papa, ao prefeito de Castelo para os bispos, isso já é tradicional, mas na elaboração dessas mensagens, a Assembleia toda participa, para que se chegue a um texto que também seja de consenso da própria Assembleia.
O senhor falava, nós estamos num ano eleitoral e um ano relevante para o Brasil. E o papel da Igreja, então, nesse momento tão relevante para o nosso país?
O ano eleitoral é a convocação de todo o povo brasileiro para se envolver nas eleições, se envolver, discernir sobre os candidatos e depois todo o povo ir às urnas. O nosso papel é ajudar o povo a se envolver nas eleições e não ficar indiferente diante das propostas eleitorais e discernir sobre os candidatos que são os mais idôneos, que possam realmente responder às necessidades e aquilo que o povo espera dos governantes.
Nós teremos eleições não só do Presidente da República, mas também dos governadores dos estados, que serão todos renovados, de uma parte dos senadores e também dos deputados federais e estaduais. Portanto, é muita gente que se apresenta para ser votada. Infelizmente, praticamente, toda a atenção é voltada para a eleição do Presidente da República e não se dá muita atenção à eleição dos senadores e dos deputados federais e estaduais, o que é pena, porque são eles que constituem o Poder Legislativo e que é muito relevante.
E, no fim, ali não se faz um grande discernimento popular sobre os candidatos, porque fica toda a atenção voltada para os candidatos à Presidente da República.
Então, o papel da Igreja é ajudar o povo a tomar conta das propostas eleitorais, a refletir e, claro, a ajudar a pensar aquilo que é melhor para o Brasil, aquilo que realmente constrói o bem comum.
Olhar um pouco também para a realidade que os senhores bispos aqui na 62ª Assembleia trazem, que fotografia a gente pode ter desse Brasil hoje, não somente da parte social, mas também da parte eclesial e religiosa: que Brasil é esse?
Um Brasil que vai evoluindo, vai mudando, está em metamorfose, da parte social temos um país que continua com as situações sociais não resolvidas, que naturalmente demanda muito tempo, mas que necessita de maior atenção para que não haja apenas políticas de um governo, mas que haja políticas de Estado para um período prolongado, para ajudar a população mais pobre a sair da pobreza.
Ultimamente têm sido tomadas iniciativas boas, mas é relevante que elas continuem e por muito tempo, porque temos que levar em conta que para uma grande parte da população sair da pobreza, se tornar também, digamos, autônoma do ponto de vista econômico, participativa da vida social e econômica, isso requer muito tempo, não é de um momento para outro que se consegue.
Através de programas sociais, de subsídios sociais, é possível, neste momento, ajudar as pessoas a não terem fome, a terem o mínimo para poderem viver dignamente. Mas se tirar os subsídios sociais governamentais, estaremos de novo com essa massa imensa de pessoas que não tem emprego, não tem lar boa, não tem meios para poderem viver dignamente.
Então, essa é a questão não resolvida, que precisa ser resolvida e com resiliência, isto é, programas que continuem por muito tempo até ajudar essas pessoas a participar. Por outro lado, corrigir distorções existentes no sistema econômico, social, onde por muito tempo as classes mais avantajadas conseguiram também ter o controle da política, o controle legislativo em mãos, sempre fazendo com que a vida econômica, a vida, enfim, social, lhes fosse favorável e continuasse favorável. Enquanto isso a camada mais pobre da população não consegue sair da sua situação para subir no nível social e econômico.
Do ponto de vista religioso, também temos um Brasil em metamorfose. Uma metamorfose que acontece em diversos sentidos. Não é somente um Brasil que vai ficando mais evangélico. Esse é um fato que continua menos aceleradamente do que há alguns anos atrás. O fenômeno do evangelismo deu uma pequena arrefecida. Por outro lado, há uma reação também católica. Existe hoje uma renovada adesão à Igreja Católica, isso se percebe em toda parte. Pelas coisas muito concretas, maior participação nas celebrações da Igreja. Grande procura por catequese, procura por batismo de adultos, confirmação de pessoas adultas e até idosas, retorno de pessoas que haviam abandonado a Igreja Católica, que retornam às comunidades católicas. Isso são fatos que ainda não temos uma quantificação, mas se formos fazer uma avaliação quantitativa, já se torna um fato expressivo.
É um fato novo que não tínhamos há 5 anos, porém, como as coisas evoluem muito rapidamente, também este fato é um fato recente que está a caminho. Esperamos que ele seja consistente, e que continue e não mude de direção rapidamente. Mas, em grande parte, nós percebemos, sobretudo nas metrópoles e em certas regiões do Brasil, o fenômeno de descristianização muito semelhante ao que aconteceu na Europa.
Uma pesquisa que foi feita na arquidiocese de São Paulo deu um olhar positivo, dizendo que houve um crescimento, inclusive daqueles que se professam católicos dentro da sua realidade?
Sim, nós fizemos como parte do Sínodo arquidiocesano em 2018, uma Pesquisa Religiosa sobre a situação religiosa e pastoral da Arquidiocese e houve ali uma constatação surpreendente. A pesquisa foi muito consistente, com mais de 21.000 questionários respondidos.
Eram questionários longos que não envolviam simplesmente pessoas da Igreja que estavam na Igreja, mas era feito de lar em lar com critérios, portanto, científicos de pesquisa social.
E nós constatamos que ali havia ainda em torno de 60% de católicos no âmbito da arquidiocese de São Paulo.
Por outro lado, constatamos que não só havia católicos que deixavam a Igreja, mas havia muitos que voltavam à Igreja, cerca de 18% dos que então se declaravam católicos. Diziam que no passado não tinham sido católicos, portanto, 18% é um número expressivo.
Claro, ali não se diz ao longo de quanto tempo, porém, objetivamente, 18% daqueles que em 2018 se diziam católicos, disseram que no passado não foram católicos. Isso revela que a Igreja Católica também recebe gente, não só perde gente.
O fenômeno religioso é muito complexo, é muito volúvel e, portanto, toda a previsão, projeção que se possa fazer aí, eu acho que é apressada, é temerária e depois tem a ver com fatos sociais, fatos econômicos, fatos religiosos que precisam de análise bem mais profunda, e fatos culturais, do que simplesmente analisar o fato estatístico.
O fato estatístico objetivo é esse que eu falei, 18% dos que se diziam católicos em 2018 diziam “no passado não fui católico, hoje sou católico”.
Então nós temos sim, hoje, a percepção de que nossas comunidades católicas têm maior frequentação nas celebrações e é onde se percebe se há maior adesão ou menor adesão.
Nas celebrações da Igreja, nos sacramentos, nas iniciativas da Igreja, existe sim crescimento da adesão de pessoas à Igreja Católica.
Pergunto agora algo pessoal para o senhor. O Papa lhe deu 2 anos a mais depois dos 75 anos de idade para o governo da nossa Arquidiocese de São Paulo. Primeiro, como é que está o coração com esse deadline, podemos dizer, mas também qual é a expectativa do senhor, e o que o senhor fará quando chegar então o momento de deixar a liderança de uma arquidiocese como essa?
Olha, o Papa me deu dois anos, eu já estou no segundo ano desses dois anos e, claro, não me faço ilusões.
É que assim que se completam os dois anos, toda hora é boa para um novo sucessor. Isso depende do Santo Padre. E a tendência é sim que o Papa tem mantido essa meta de não ir além dos termos propostos e manter a questão da renúncia na idade proposta também.
Isso ele tem dito publicamente em várias ocasiões, inclusive numa reunião da Conferência Episcopal Italiana. Para mim, é claro, é um tempo de começar a olhar, preparar a arquidiocese para receber o novo arcebispo. Daqui para frente vai ser isso sim, também.
A minha parte não só vai ser a obrigação para que o novo arcebispo chegue e possa achar pelo menos uma percepção daquilo que existe, de como está a arquidiocese, depois, naturalmente, ele vai tocar a arquidiocese segundo aquilo que ele sente e ele tiver por prioridades, da minha parte, eu, naturalmente, pretendo continuar em São Paulo, porque São Paulo foi a única diocese que eu servi como bispo até aqui. Eu vou completar 25 anos de bispo em fevereiro que vem, e portanto, eu pretendo ficar aqui e estar à disposição daquilo que ainda puder fazer e, naturalmente, em São Paulo não falta o que fazer.
E eu só tenho muito a agradecer a Deus pela oportunidade de poder servir esta Igreja de São Paulo, que é muito expressiva, muito exigente naturalmente, mas também traz tantas alegrias e é onde, enfim, a gente percebe uma presença muito forte da ação de Deus.

