Padre Nazareno Lanciotti foi beatificado neste sábado, dia 13 de junho na cidade de Jauru (MT), na presença de milhares de fiéis provenientes de toda a região. A cerimônia foi realizada no Santuário Imaculado Coração de Maria e foi a primeira beatificação no estado.
Silvonei José – Vatican News
Padre Nazareno é mais um mártir a ser elevado aos altares. Padre Nazareno Lanciotti atuou em Jauru (MT) a partir de 1972, onde fundou a Paróquia Nossa Senhora do Pilar e ficou conhecido pelo trabalho evangelizador e social. Denunciou crimes como exploração de menores, prostituição e tráfico de drogas. Foi assassinado em 2001 após ser baleado em lar. A cerimônia foi presidida pelo cardeal João Braz de Aviz, prefeito emérito do Dicastério para os Institutos de Vida Consagrada e Sociedades de Bida Apostólica.
Na sua homilia, dom João, após saudar o bispo da Diocese de São Luís de Cáceres, dom Jacir, recordou que a presença de todos nesta eucaristia, quer antes de tudo ser uma resposta feliz de “adoração e de gratidão ao Senhor que está vivo aqui no meio de nós. E continua a nos mostrar os caminhos de luz que nascem do Evangelho”.
Isto acontece quando nós, discípulos de Jesus, como o nosso Beato Nazareno, tomamos a decisão de colocar em prática os ensinamentos do Evangelho, acreditando com fé no seu imenso amor, no amor da Santíssima Trindade por nós.
Somos transportadores deste Deus e a sua voz, a voz do Espírito, – disse dom João -, é a voz da nossa consciência que nos indica sempre o caminho da verdade. Esta luz, este testemunho, esta presença viva do Senhor é que nos guia pela força do Espírito Santo, justamente no meio deste mundo amado por Deus, mas que é chamado na Salve Rainha, o Vale de Lágrimas. Enquanto esperamos a volta do Senhor no final dos tempos, quando Ele vier, para fazer a colheita de toda a obra que Ele realizou e de todo o caminho que nós fizemos.
Hoje, nós sabemos com certeza, através do reconhecimento cuidadoso da Igreja, que foram esses os apelos interiores que guiaram com a luz do Espírito Santo, as decisões do beato Padre Nazareno, impelindo-o a deixar a sua pátria, sua família e com a aprovação do seu bispo, a partir para as missões no Brasil, no Mato Grosso e aqui em Jauru, desde o ano de 1972. Dizemos então, por 29 ou 30 anos, até o seu martírio em 2001.
A comunidade de Jauru, a diocese de São Luiz de Cáceres, a Igreja no Regional, a Igreja dos Bispos, o Regional dos Bispos de todo este Regional, de modo especial, são agora depositárias desta herança de santidade e de testemunho humano e divino, deixado pelo Beato Presbítero Mártir Padre Nazareno Lanciotti, afirmou o cardeal.
Ele é agora testemunha, qualificado da vida cristã para toda a Igreja e para toda a humanidade, partindo daqui. Uma característica muito rica da espiritualidade do Beato Padre Nazareno, antes de tudo, é a sua vida missionária. Ele deixou a sua terra, por causa do Evangelho.
Partiu de uma terra longínqua
Padre Nazareno partiu para uma terra longínqua, num tempo em que esta região estava iniciando o seu desenvolvimento. E ele tomou esta atitude com o desejo de seguir Jesus. Foi aqui que residiu a sua força interior, nascida do Evangelho, para dedicar-se ao serviço dos mais pobres e ao combate aqui doloroso, difícil, contra as diversas formas de tirania e de opressão, como foi no começo também, a exploração de menores, a prostituição infantil, o combate contra os traficantes de drogas nesta região fronteiriça entre o Brasil e a Bolívia.
Não poderia ser diferente a força que Ele teve e a graça que Ele teve para esse combate, se Ele não tivesse no coração a força da Eucaristia, do nosso Deus, nosso alimento.
“A figura luminosa do beato, presbítero e mártir Padre Nazareno Lanciotti é para nós agora um estímulo eloquente para reavivar os valores do Evangelho, que recriam os valores humanos neste momento da história humana, em que a cultura dominante tende a diminuir completamente os valores cristãos, como se nós não precisássemos mais da ajuda do alto, da presença do nosso Deus que nos salvou”.
E isto muitas vezes em nome de um progresso tecnológico sem dúvida necessário, mas que tende a criar novas escravidões e um mar de sofrimento para a maioria da humanidade, destacou dom João.
Basta olharmos aquilo que está acontecendo através dessas grandes e pequenas guerras em curso em todo o mundo. O Papa Leão, Vigário de Cristo na Terra, – continuou -, o nosso Pedro atual, aquele que nos confirma no caminho do Senhor, “ele nos convida neste momento da história a trabalhar, primeiro de tudo, por uma grande unidade e comunhão na Igreja. Temos tantos carismas, cresceram tantos caminhos de encontro com o Senhor, mas seria fatal se esses caminhos criassem grupos que vão se separando, se distanciando, ou quem sabe procurando a hegemonia na Igreja”.
Nós precisamos de uma comunidade onde todos os carismas se integram, onde todos os testemunhos do Evangelho se ajudam uns aos outros, onde a Igreja manifesta esse seu único corpo de Cristo, porque ele é a única cabeça que nós temos.
Convite à unidade
O Papa Leão nos convida então a trabalhar neste momento por esta grande unidade de toda a Igreja, por esta comunhão profunda de todas as nossas diferenças, com felicidade, e junto com isto, trabalhar profundamente a partir da nossa família para construir a paz na humanidade, aquela paz que tem a sua fonte na Santíssima Trindade.
É nesse sentido que nós precisamos agora descobrir caminhos novos. Não acreditemos nesse uso do dinheiro de todo o nosso povo no mundo inteiro para construir armas cada vez mais sofisticadas, cada vez mais caras. Acreditemos no caminho do colóquio, a começar na família, o caminho da escuta, o caminho do respeito profundo pela pessoa do outro, saindo do individualismo, reaprendendo a escutar, a construir justiça, a colocar os bens da humanidade a serviço de todos.
Com a comunidade do primeiro século da Igreja, a comunidade que tinha a presença dos apóstolos, também nós precisamos continuar fiéis àquelas colunas, que eram as colunas da Igreja, do início, narrada pelos atos dos apóstolos. São quatro essas colunas que nós não podemos perder. Permanecer fiéis à doutrina dos apóstolos, isto é a palavra de Deus.
“Esta palavra que nos preside também hoje aqui na nossa celebração. Depois também a comunhão fraterna, sair do nosso individualismo, sair da nossa solidão e ingressar neste povo de Deus onde já entramos pelo batismo, para formar esse único povo que Deus quer como seu povo e que é formado de toda a humanidade”.
“A terceira coluna, além da palavra de Deus e da comunhão fraterna, que deve incluir também os mais pobres e devem ser os primeiros a serem objeto da nossa atenção e do nosso testemunho, entra aqui também a Eucaristia que nós estamos celebrando agora.” Porque na Eucaristia nós realizamos a grande obra da salvação que Deus dá a nós hoje no memorial da Santa Missa que nós celebramos.
E por último, o espírito de oração que unifique todo o nosso dia. Transformemos o trabalho, o lazer, transformemos tudo o que nós realizamos neste sentido profundo de oração, de dependência humilde e profunda de Deus que é a sabedoria melhor e que neste sentido então nós possamos ver a beleza desse testemunho que o Beato Nazareno nos dá.
Como Maria, a nossa mãe e a mãe de Deus, que permaneceu fiel com as outras mulheres e com o apóstolo João aos pés da cruz, também nós precisamos com o João e com o nosso padre Nazareno levar Maria sempre para nossa lar, ter Maria conosco. Não podemos viver sem esta nossa mãe. Com a companhia da Eucaristia, com a companhia de Maria, nossa mãe, poderemos com a graça de Deus permanecer fiéis até o fim.
Beato Nazareno
Padre Nazareno nasceu no dia 3 de março de 1940, em Roma, no seio de uma família humilde e cristã. Ingressou muito jovem no seminário, onde estudou Filosofia e Teologia. Foi ordenado sacerdote em 29 de junho de 1966. Até 1971, serviu como pároco auxiliar na Paróquia de São João Crisóstomo, em Roma.
Após conhecer a Operação Mato Grosso, em 1971, com a permissão de seu bispo, viajou para o Brasil, para o estado de Mato Grosso. No ano seguinte, estabeleceu-se em Jauru – MT, no extremo noroeste do Brasil, na fronteira com a Bolívia, onde iniciou um frutífero apostolado servindo a toda população, sustentado pela Eucaristia e pela devoção à Virgem Maria.
Superando inúmeros obstáculos, despertou a fé de jovens e adultos por meio do Movimento Sacerdotal Mariano. Todos os anos, durante os festejos de Carnaval, promovia retiros espirituais com os membros do movimento.
Em 1973, fundou o Asilo Coração Imaculado de Maria. Preparou um centro de catequese, facilitando o ensino da religião para as crianças. Lutou pela construção de um hospital, pois se comovia com o número de crianças que morriam na região.
Prestativo e visionário, em 1974 iniciou a construção da Igreja Nossa Senhora do Pilar. A inauguração foi celebrada no ano seguinte. Em razão do aumento no número de fiéis, durante algumas missas e cerimônias era necessário utilizar os arredores da igreja. Contudo, para atender melhor à comunidade, Padre Nazareno decidiu criar o Santuário Imaculado Coração de Maria.
Em 1981, ajudou a fundar o Seminário Menor em Jauru, disponibilizando um centro de treinamento. Em 1988, foi nomeado responsável nacional do Movimento Sacerdotal Mariano (MSM).
Também se dedicou aos mais pobres e se engajou na luta contra várias formas de tirania e opressão, como a prostituição e o tráfico de drogas. Seu trabalho pastoral revelou-se incômodo e na noite de 11 de fevereiro de 2001, enquanto terminava o jantar com alguns colaboradores, foi gravemente ferido por dois criminosos encapuzados que entraram em sua lar. Faleceu em 22 de fevereiro, aos 61 anos.

