“O Senhor é o refúgio do pobre”. Os pobres dos nossos dias são os esquecidos e os marginalizados: privados de uma palavra e de um rosto, e não só do pão, escreve o Papa. Publicada a mensagem do Papa Leão XIV para o Dia Mundial dos Pobres.
Silvonei José – Vatican News
“O Senhor é o refúgio do pobre”. As palavras do salmista sugerem o caminho que somos chamados a percorrer na perspectiva do X Dia Mundial dos Pobres. Assim tem início a mensagem do Papa leão XIV para este dia que será celebrado em 15 de novembro próximo, 33º Domingo do Tempo Comum.
Mais uma vez, – destaca o Papa no seu texto – é necessário recorrer à Palavra de Deus para compreender a importância que os pobres têm na vida da Igreja.
Num momento histórico dramático como foi a destruição do templo de Jerusalém, o povo sentiu-se privado da presença de Deus e experimentou uma miséria material e ética sem precedentes. De geração em geração, esta Palavra revela-se em toda a sua atualidade. Desde o início, ela mostra a contradição na qual ainda hoje se cai frequentemente.
Com efeito, – sublinha o Papa – a primeira constatação é esta: «O insensato diz em seu coração: “Não há Deus!”. Corruptas e abomináveis são as suas ações; não há quem faça o bem».
Nota-se, infelizmente, como também nos nossos dias é difundida uma tirania social que brota duma corrupção arrogante, tão deplorável quanto discriminatória. A perda do sentido de transcendência na vida quotidiana já não é tanto uma negação teórica da existência de Deus; antes, manifesta-se em não considerar a sua bondade e misericórdia na construção da justiça pessoal e social.
O Santo Padre destaca então na sua mensagem que os primeiros a sofrer as consequências são os pobres, cujo número, não por acaso, está a aumentar em muitas sociedades.
O Papa constata então que a ausência de Deus faz com que as pessoas já não se coloquem umas ao lado das outras, num clima de respeito mútuo, mas sim umas acima das outras, num clima de domínio e opressão. Assim, é exibida uma lógica mundana de abuso de poder e descarte, que marginaliza e humilha.
Nesta condição – escreve o Santo Padre -, encontram-se não só pessoas individualmente, mas populações inteiras.
Leão XIV evidencia que o clamor dos pobres por justiça é hoje abafado por múltiplas técnicas, cada vez mais dissimuladas, a ponto de silenciar todos os seus esforços para fazer ouvir as suas reivindicações.
O olhar do Papa vai então para o ambiente digital que radicaliza o preconceito contra eles e aumenta a cortina de indiferença que envolve as suas causas. Ao pobre não resta senão clamar por Deus e fazer chegar até Ele o seu lamento, com a certeza de ser ouvido, porque Deus é fiel e rico em misericórdia. Os oprimidos, humilhados e indefesos crescem também hoje na certeza de que devem dar-se a Deus, cheios de confiança e expectativa.
Nesta entrega total, renasce o sentido da própria dignidade, reconhecem-se irmãs e irmãos com quem organizar os próprios sonhos, a esperança torna-se silenciosamente realidade. Refugiar-se em Deus equivale a achar a proteção verdadeira e segura, aquela que os poderosos não podem garantir e preferem negar.
O Santo Padre afirma então que o pobre, porém, sabe reconhecer melhor do que os outros o essencial, porque vive do essencial. Semelhante a Cristo mais do que qualquer outro, reconhece Deus como seu refúgio, mesmo quando as circunstâncias parecem contradizê-lo, e está cheio de esperança na justiça divina, que não tardará a manifestar-se.
Ser refúgio não é apenas uma promessa – afirma o Papa -, mas torna-se realidade na pessoa de Jesus Cristo. Jesus Cristo é verdadeiramente o refúgio de Deus para os pobres.
Então Leão evidencia que os pobres dos nossos dias são os esquecidos e os marginalizados: privados de uma palavra e de um rosto, e não só do pão.
Para todos aqueles que carecem de lar, trabalho, instrução, alimento e saúde, abre-se um novo caminho: a partilha como expressão do Reino de Deus. À obsessão daqueles que acumulam riquezas apenas para si opõe-se a obstinação de Deus que, no testemunho de pessoas de carne e osso, abre o coração e acolhe no seu amor.
Em Cristo, portanto, também nós somos chamados a tornarmo-nos pobres e a sermos refúgio para os pobres, afirma o Santo Padre, acrescentando quem a comunidade cristã não pode permanecer insensível perante tantos que hoje se encontram à porta e permanecem invisíveis para aqueles que estão fechados entre as suas próprias paredes.
A Igreja, pela sua própria natureza, é chamada a ser pobre e refúgio para os pobres.
O Santo Padre destaca ainda que surgem inevitavelmente algumas perguntas que, neste X Dia Mundial dos Pobres, precisamos urgentemente fazer ressoar na nossa mente e no nosso coração.
Somos sinal de um Deus que é refúgio para os pobres? Temos consciência da nossa pobreza e preferimo-la à riqueza injusta? Chegamos onde se encontram os pobres, experimentando a sua marginalidade? Ouvimos os seus pensamentos e partilhamos as suas expectativas? Pronunciamos os seus nomes com ternura divina? A nossa caridade reaviva e sustenta neles o desejo de justiça e redenção? Estas e muitas outras questões obrigam-nos a um sério exame de consciência, para verificar o quanto ainda somos chamados a ser em favor dos pobres e da sua libertação.
Então veremos que os pobres se tornam, eles próprios, refúgio para os outros. A experiência da pobreza faz-nos particularmente sensíveis a uma solidariedade renovada perante os desafios.
O Santo Padre recorda em seguida que o oitavo centenário da morte de São Francisco de Assis convida-nos a recordar como, ao chegar a Roma em peregrinação ao túmulo do apóstolo Pedro, ele se compadeceu dos mendigos. Para compreender e experimentar o seu sofrimento, tirou as próprias vestes e trocou-as pelas roupas esfarrapadas de um deles, sentando-se a pedir esmola e passando o dia inteiro no meio dos pobres com felicidade de espírito.
Queremos testemunhar que é possível, também hoje, experimentar a mesma felicidade ao colocar-se no lugar dos pobres e ao ouvi-los, em vez de apenas falar sobre eles.
Quem tem Deus como refúgio é livre para fazer escolhas proféticas, que testemunham como tudo pode ser repensado a partir de baixo, na humildade e na fraternidade que, por si sós, curam um mundo ferido pela prepotência.
O Papa confia então que este X Dia Mundial dos Pobres possa constituir uma etapa significativa na redescoberta do rosto de tantos irmãos e irmãs que procuram refúgio em Deus e desejam sentir-se em lar nas nossas comunidades. Mantenhamos viva a obediência à Palavra de Deus, que nos convida à conversão do coração.

