Na abertura do encontro internacional pelos dez anos da Amoris laetitia, o Papa reafirma a beleza do plano de Deus para o matrimônio e a família, reconhece a “distância crescente” entre a forma como sexualidade e intimidade são vividas e a visão cristã do matrimônio e convida a Igreja a se interrogar sobre sua linguagem e suas práticas pastorais. “Conseguimos reconhecer a ação da graça mesmo em situações marcadas por limites, feridas e aparentes fracassos?”, questiona o Pontífice.
Thulio Fonseca – Vatican News
“Que tipo de Igreja as pessoas encontram precisamente quando estão mais frágeis?” A pergunta do Papa Leão XIV está no centro do desafio lançado nesta quarta-feira, 7 de outubro, na abertura do encontro “Dez anos após Amoris laetitia: anunciar o Evangelho com as famílias hoje”, que reúne no Vaticano hierarcas das Igrejas Orientais, presidentes de Conferências Episcopais, casais, especialistas e representantes da pastoral familiar. O encontro, que prossegue até 14 de outubro, tem caráter global e reúne 187 participantes dos cinco continentes. Entre eles está a delegação brasileira, composta pelo arcebispo de Porto Alegre e presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), dom Jaime Spengler; pelo bispo de Ponta Grossa (PR) e presidente da Comissão Episcopal para a Vida e a Família, dom Bruno Elizeu; e pelo casal coordenador nacional da Pastoral Familiar, Alisson e Solange Schila.
Ao abrir os trabalhos na Sala Paulo VI, Leão XIV convidou os participantes a olhar para o caminho percorrido pela Igreja desde a publicação, há dez anos, da Exortação Apostólica Amoris laetitia, do Papa Francisco, e a discernir, à luz do Espírito Santo, o que essa experiência tem ensinado à Igreja sobre o matrimônio, a família e os novos desafios pastorais.
A família continua sendo fundamental
Ao recordar o trajeto da Igreja desde o Concílio Vaticano II, o Papa destacou que a vida familiar oferece “um ponto de entrada privilegiado” para as grandes questões culturais, econômicas, sociais e políticas do nosso tempo, inclusive para a promoção da paz. Leão XIV reafirmou, ao mesmo tempo, a visão cristã do matrimônio:
Para o Pontífice, os dez anos transcorridos desde a publicação de Amoris laetitia fazem agora parte da própria vida das Igrejas particulares, em diferentes culturas e contextos pastorais. O objetivo destes dias, explicou, é reunir as experiências vividas, as dificuldades encontradas e os frutos surgidos ao longo desse caminho.
Aprender a escutar
O Papa ressaltou que as próprias famílias participam da missão da Igreja na vida cotidiana, por meio do amor e da fidelidade, do cuidado e do perdão, da educação dos filhos, da transmissão da fé e da atenção aos idosos e às pessoas vulneráveis. Aos pastores, recordou a responsabilidade de proclamar “a beleza do plano de Deus para o matrimônio e a família e o seu apelo ao amor e à ternura”, sem deixar de acompanhar as pessoas nas circunstâncias concretas em que procuram viver sua vocação:
Sexualidade, intimidade e os jovens
Foi justamente a partir da experiência concreta das famílias que o Santo Padre apontou algumas das questões que, segundo ele, precisam ser enfrentadas “com coragem”. Entre elas, está a “distância crescente” que, em muitos contextos, se verifica entre as formas como a sexualidade e a intimidade são vividas e a visão cristã do matrimônio:
“Os jovens continuam a desejar o amor, a fidelidade e o sentimento de pertencimento, mas muitos têm dificuldade em compreender como essa visão do amor pode concretizar-se em suas próprias vidas ou em acreditar que um compromisso para toda a vida é a condição para alcançar aquilo que desejam. A insegurança econômica, a migração, a violência, a solidão e outras formas de fragilidade emocional também moldam as escolhas que as pessoas fazem e as possibilidades que conseguem imaginar para o seu porvir.”
Diante desse cenário, o Papa pediu que a Igreja não se limite a observar as transformações culturais, mas tenha a coragem de se deixar questionar por elas, inclusive sobre a capacidade de sua própria linguagem pastoral de alcançar as pessoas.
“Estas realidades suscitam uma série de questões que devemos enfrentar com coragem. O que as pessoas procuram verdadeiramente por trás dessas mudanças culturais? O que suas alegrias e esperanças, suas tristezas e angústias nos revelam? Em que aspectos nossa linguagem e nossas práticas pastorais conseguem abrir caminho e onde não conseguem tocar o coração das pessoas nem apoiar seus esforços para fazer o bem? O que nos ensina a experiência vivida pelas famílias — uma experiência da qual ainda não aprendemos plenamente? O que podemos oferecer em termos de formação para uma vida familiar saudável e santa? Em particular, o que podemos aprender com os pais, que procuram acompanhar seus filhos, e com os jovens nesses contextos?”
Uma Igreja próxima nas fragilidades
Outro ponto central do discurso foi a fragilidade. Segundo Leão XIV, ela pode marcar profundamente a maneira como uma pessoa olha para si mesma, para o porvir e até para sua relação com Deus e com a Igreja. Por isso, é preciso questionar se somos capazes de permanecer próximos uns dos outros quando “a vida já não corresponde ao que se esperava” e de reconhecer a ação da graça mesmo em situações marcadas “por limites, feridas e aparentes fracassos”.
Foi nesse contexto que o Papa dirigiu à Igreja algumas das perguntas mais incisivas de seu discurso: “Que tipo de Igreja as pessoas encontram precisamente quando estão mais frágeis? Nossas comunidades ajudam-nas a descobrir que ainda têm um lugar, uma responsabilidade e dons para oferecer? A verdade que proclamamos pode ser encontrada através da paciência, da proximidade e da misericórdia da nossa presença pastoral? Como podemos anunciar-lhes a plenitude do ensinamento do Evangelho sobre a família?”
Novas formas de anunciar o Evangelho
Para o Santo Padre, a resposta a essas questões passa por uma Igreja capaz não apenas de interpretar a realidade, mas de permitir que ela interpele sua própria responsabilidade pastoral. O Espírito Santo, afirmou, fala também “através das próprias situações que nos desafiam”, ajudando a reconhecer como a misericórdia de Deus e a graça de Cristo podem alcançar as famílias em suas fraquezas, esperanças, desilusões e busca de sentido. A tarefa da Igreja, acrescentou o Papa, é achar “formas renovadas de proclamar o Evangelho, oferecer as graças sacramentais, acompanhar as famílias e tornar visível a ternura com que Cristo continua a caminhar entre o seu povo”.
Ao concluir, Leão XIV pediu que os dias de encontro sejam vividos na escuta, na oração e no discernimento, permitindo que as experiências provenientes dos diferentes contextos culturais ajudem toda a Igreja a reconhecer novos caminhos:


