Publicamos na íntegra o texto do discurso do secretário de Estado dirigido a 50 membros do Comitê Judaico Americano recebidos nesta quinta-feira (22) pelo Papa Leão XIV: identidade judaica, fé religiosa e políticas de um goversno são questões interligadas, mas não intercambiáveis. O debate diplomático e uma crítica fundamentada às políticas de governo, afirmou o cardeal, “devem continuar a ser possíveis sem serem confundidos com hostilidade contra um grupo específico ou uma fé religiosa”.
Prezado Rabino Marans,
Distintos membros do Comitê Judaico Americano,
tenho o prazer de lhes dar as boas-vindas ao Palácio Apostólico, no Vaticano. A sua visita enriquece uma amizade construída sobre os alicerces de esforços pacientes e confiança mútua. Agradeço ao senhor, Rabino Marans, por seu empenho no colóquio com a Santa Sé e com as comunidades católicas nos Estados Unidos. É também graças à sua determinação que hoje este encontro pode ocorrer.
Nossa relação remonta a mais de um século. Já em 30 de dezembro de 1915, Louis Marschall, presidente do Comitê Judaico Americano, enviou uma carta ao Papa Bento XV, pedindo-lhe que usasse sua autoridade ética para pôr fim à violenta perseguição sofrida pelos judeus na Europa.
Respondendo em nome de Sua Santidade, em 9 de fevereiro de 1916, o meu predecessor, o cardeal Pietro Gasparri, secretário de Estado, afirmou:
“O Sumo Pontífice […] considera todos os homens como irmãos e os ensina a amar-se uns aos outros; ele não deixará de inculcar a observância, tanto entre os indivíduos quanto entre as nações, dos princípios do direito natural e de reprovar toda violação dos mesmos. Esse direito deveria ser observado e respeitado pelos filhos de Israel, assim como deveria sê-lo por todos os homens, pois não seria conforme à justiça e à própria religião derrogar-se a ele apenas por motivo de uma diferença de fé religiosa”.
Sessenta e um anos após a promulgação da Declaração do Concílio Vaticano II Nostra Aetate, considerada, com razão, um marco no colóquio entre judeus e cristãos, a visita de vocês hoje ao Vaticano é uma demonstração tangível de que o que a Igreja proclamou naquela época pode, de fato, ser colocado em prática:
“Sendo assim tão grande o patrimônio espiritual comum aos cristãos e aos judeus, este sagrado Concílio quer fomentar e recomendar entre eles o mútuo conhecimento e consideração, os quais se alcançarão sobretudo por meio dos estudos bíblicos e teológicos e com os diálogos fraternos.”
O colóquio fraterno previsto pela Declaração reflete-se na qualidade dos canais de comunicação estabelecidos entre a Santa Sé e o Comitê Judaico Americano, que não se limitam apenas à troca de cartas, mas consistem sobretudo nas muitas relações pessoais que se desenvolveram ao longo dos anos. Gostaria de mencionar, em particular, a relação fraterna entre o cardeal Augustin Bea e Abraham Joshua Heschel, da qual surgiram valiosas contribuições teológicas, inspiradas no Concílio Vaticano II. É bonito constatar que a teologia pode emergir do florescimento das relações humanas.
No espírito dessa amizade, portanto, permitam-me reiterar mais uma vez, sem ambiguidades, a seguro rejeição da Santa Sé ao antissemitismo em todas as suas formas. Os judeus devem poder viver, prestar culto e educar os próprios filhos sem medo. A memória do Holocausto impõe a todos nós a responsabilidade duradoura de combater o preconceito, a distorção dos fatos e a indiferença.
A própria Declaração Nostra aetate contém a definição que a Igreja Católica dá do antissemitismo:
“Além disso, a Igreja, que reprova quaisquer perseguições contra quaisquer homens, lembrada do seu comum patrimônio com os judeus, e levada não por razões políticas mas pela religiosa caridade evangélica, deplora todos os ódios, perseguições e manifestações de antissemitismo, seja qual for o tempo em que isso sucedeu e seja quem for a pessoa que isso promoveu contra os judeus.”
Esse compromisso também encontra uma expressão diplomática precisa. O artigo 2º do Acordo Fundamental entre a Santa Sé e o Estado de Israel compromete as duas partes nos seguintes termos:
“§1. A Santa Sé e o Estado de Israel comprometem-se a prestar a colaboração necessária na luta contra todas as formas de antissemitismo e todos os tipos de racismo e intolerância religiosa, bem como na promoção da compreensão mútua entre as nações, da tolerância entre as comunidades e do respeito pela vida e pela dignidade humana.
§ 2. A Santa Sé aproveita a ocasião para reiterar a condenação do ódio, da perseguição e de qualquer outra manifestação de antissemitismo, em qualquer lugar, em qualquer momento e por parte de quem quer que seja, dirigida contra o povo judeu e os judeus individualmente. Em particular, a Santa Sé lamenta os ataques a judeus e a profanação de sinagogas e cemitérios judaicos, atos que ofendem a memória das vítimas do Holocausto, especialmente quando ocorrem nos mesmos locais que foram testemunhas desses eventos”.
Essa é a definição de antissemitismo que a Santa Sé adotou e que considera adequada para promover as relações com as comunidades judaicas em todo o mundo, pois faz a devida distinção entre três níveis de reflexão e colóquio: o político, o religioso e o étnico. A identidade judaica, a fé religiosa e as políticas de um governo são questões interligadas, mas a Santa Sé considera que não são intercambiáveis e que não devem ser confundidas. O debate diplomático e uma crítica fundamentada às políticas de governo constituem a base da política internacional e devem continuar a ser possíveis sem serem confundidos com hostilidade em relação a um grupo específico ou, precisamente, a uma fé religiosa.
Nesse sentido, será relevante continuar a promover o colóquio religioso por meio da Comissão para as Relações Religiosas com o Judaísmo, que já obteve resultados importantes ao favorecer uma compreensão teológica, bíblica, cultural e social mais profunda, mantendo, ao mesmo tempo, uma distinção clara entre esse colóquio e a relação entre Estados que a Santa Sé pretende manter com o Estado de Israel e com outros Estados.
Um caminho de esperança, a Nota publicada recentemente por três Dicastérios da Santa Sé nos convida a dar continuidade ao legado da Nostra Aetate. Ela oferece um forte apelo que promete dar muitos frutos: nossas comunidades são chamadas a ajudar as gerações mais jovens a reconhecer o preconceito, a compreender as tradições uns dos outros e a proteger a dignidade de seus vizinhos.
Queridos amigos, obrigado por manterem vivo esse colóquio, mesmo quando isso exige grande empenho de nossa parte. Que nosso trabalho aprofunde a confiança e ofereça ajuda concreta àqueles que sofrem. Que Deus Todo-Poderoso abençoe nossas comunidades e conceda a paz ao povo judeu e a toda a família humana.
Obrigado.

