A ‘reestalinização’ do czar Putin, imperador sem ideologia

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Ao declínio das ideologias, o Kremlin responde com o culto da Grande Vitória. Analogias entre o “putinismo” e o fascismo, características comuns com Hitler. Mas enfatizar essas semelhanças corre o risco de obscurecer suas particularidades. O putinismo rejeita ideias socialistas e ridiculariza a busca pela igualdade. Além disso, torna o messianismo da Igreja Ortodoxa Russa parte fundamental de sua política.

Pe. Stefano Caprio*

As inúmeras tentativas de descrever as características específicas da ideologia de Vladimir Putin e da atual classe dominante do Kremlin provaram-se, até agora, bastante infrutíferas, para além das sugestões de “Eurásia” ou “Mundo Russo” inspiradas por pseudofilósofos um tanto confusos. A razão é, na verdade, simples: o Kremlin carece de qualquer ideologia real, como também ficou evidente nas proclamações vazias do recente Fórum Econômico de São Petersburgo. Numa era de ideologias em declínio, a política da memória, com o culto à Grande Vitória, tornou-se o principal instrumento de legitimidade do regime, sem qualquer elaboração de perspectiva. O conceito de ideologia apenas complica a compreensão do putinismo: durante o último quarto de século, os russos viveram sob o jugo de serviços de segurança mafiosos, dos quais Putin é o principal expoente, numa sociedade profundamente corrupta onde nada garante direitos ou liberdades “nem ao poeta, nem ao cidadão”, como afirma a historiadora Dina Khapaeva, do Instituto de Tecnologia da Geórgia.

Antes da invasão da Ucrânia, analistas argumentavam que o cerne da questão residia nos “sucessos objetivos” do governo Putin. Afirmavam que ele era o garante da “estabilidade e ordem” que os russos tanto almejavam após a turbulenta década de 1990 e, enquanto o oleoduto continuasse funcionando suficientemente para assegurar uma aparência de prosperidade, ao menos nas principais cidades, esse argumento convencia muitos. Agora que a guerra contra a Ucrânia já ceifou centenas de milhares de vidas no front russo, e os ataques com drones se tornaram tão frequentes que Putin não consegue mais organizar um desfile militar sem a permissão de Volodymyr Zelensky, ficou muito menos claro por que “o povo está em silêncio”.

A ideia de que o putinismo seja uma forma de fascismo vem se difundindo entre os críticos de Putin desde seu segundo mandato presidencial, que terminou com a guerra de 2008 na Geórgia. O cientista político americano Alexander Motyl, filho de ucranianos que fugiram da Segunda Guerra Mundial, foi um dos primeiros a formular essa hipótese; em sua visão, “hipernacionalismo, imperialismo e supremacia” são características comuns nas ideologias dos regimes de Hitler e Putin. O historiador de Yale, Timothy Snyder, enfatiza a influência do filósofo pró-fascista Ivan Ilyin, que emigrou após o estabelecimento do regime soviético, a quem Putin gosta de citar em seus discursos e cujas cinzas ele reenterrou no Mosteiro de Donskoy. Além disso, muitos apoiadores russos do putinismo expressaram abertamente sua simpatia pelo fascismo até que, é claro, a propaganda do Kremlin declarou os ucranianos “nazistas”.

Existem, sem dúvida, semelhanças entre o putinismo (ou “rushismo”, como é chamado na Ucrânia) e o fascismo: o culto à força e à liderança, o terror, a nostalgia pelo passado e o militarismo. O desejo de rotular o regime de Putin como fascista é compreensível: é uma forma de forçar o reconhecimento de sua criminalidade. No entanto, nem todos os regimes criminosos são fascistas, e enfatizar demais as semelhanças com o fascismo obscurece as características distintivas do putinismo. E as diferenças óbvias podem até lançar dúvidas sobre sua natureza criminosa.

Paradoxalmente, o debate sobre equiparar o putinismo ao fascismo serviu de pretexto para sua normalização. Na véspera da anexação da Crimeia, o historiador americano Stephen F. Cohen expressou indignação com a comparação entre o regime de Putin e o fascismo, alertando a opinião pública ocidental de que, ao “demonizar” Putin e chamá-lo de um novo Hitler, os críticos do putinismo estavam empurrando o mundo para a beira de uma nova Guerra Fria e catástrofe nuclear.

Situando o putinismo no amplo espectro do neoliberalismo, a cientista política francesa Marlene Laruelle, da Universidade de Georgetown, argumenta que esse regime não deve ser considerado fascista, muito menos um regime dominado pela extrema-direita; em sua visão, não se trata de um monstro isolado, mas sim de um entre muitos regimes conservadores cada vez mais disseminados pelo mundo. Além dos aspectos negativos do putinismo, Laruelle destaca aqueles percebidos positivamente pela esquerda ocidental, como a rejeição da “subordinação geopolítica aos Estados Unidos”, a rejeição da “hegemonia ocidental” e a antítese ao “neoliberalismo econômico”. Em sua interpretação, o regime de Putin tornou-se “pós-liberal” porque, em sua visão, a Rússia “aprendeu em primeira mão os limites do liberalismo”. Seguindo as ideias do grande cientista político russo Gleb Pavlovsky, Laruelle compara o Putinismo a “uma orquestra de jazz, com vários instrumentos”, embora fosse muito mais apropriado compará-lo a outros “músicos”, nomeadamente os wagnerianos.

De fato, o putinismo difere do fascismo. O fascismo, e especialmente o nacional-socialismo, continha elementos de socialismo, embora apenas para a “raça ariana”. O putinismo rejeita todas as ideias socialistas e, apesar de seu populismo, ridiculariza abertamente a busca pela igualdade. Além disso, a maioria dos fascistas eram ateus e, embora Mussolini mantivesse relações com a Igreja Católica Romana, o messianismo religioso era estranho tanto à Itália fascista quanto ao Reich nazista, enquanto o putinismo fez do messianismo da Igreja Ortodoxa Russa uma parte fundamental de sua política.

O debate sobre a natureza fascista do putinismo fortaleceu ainda mais a crença dos pesquisadores de que ele possui uma ideologia — embora não fascista, mas distinta dele — e muitos começaram a tentar descrever suas características. As ideologias do século XX representavam um sistema de prescrições abstratas, cuja implementação deveria levar à construção de um “porvir melhor”: o comunismo global ou um Reich de mil anos. Eles buscavam aplicar essas prescrições em escala global, o que, aos olhos de seus seguidores, justificava o direito desses regimes à dominação mundial, seja na forma de domínio ariano ou revolução mundial. O foco no porvir era uma característica fundamental dessas ideologias do passado, enquanto o Kremlin, na verdade, não tem planos para o porvir, além de um retorno ao passado histórico da Rússia, à era da Segunda Guerra Mundial ou mesmo à Idade Média.

Como Nikita Savin, um jovem cientista político da Escola Superior de Economia de Moscou, observa acertadamente, Putin e os propagandistas do Kremlin manipulam fragmentos de vários sistemas ideológicos para atender às necessidades do momento e os descartam sem dúvida em qualquer outro momento. Contradição e inconsistência caótica são características intrínsecas da propaganda de Putin, muito imitada hoje por Donald Trump; em consonância com o pós-modernismo, propagandistas como o conselheiro presidencial Vladimir Medinsky declaram categoricamente que não há objetividade na história, o que lhes dá total liberdade para distorcer tanto o passado quanto o presente.

O Kremlin opera, na prática, com base no princípio de que quanto mais contradições existirem, mais fácil será manipular as pessoas. Quando seu alvo são seus próprios cidadãos, o governo emprega sistematicamente táticas de guerra híbrida, que depois exporta para todos os outros países. Ao contrário do comunismo ou do fascismo, o putinismo não oferece uma explicação holística do mundo, nenhuma “chave de ouro” para desvendar todos os mistérios do universo. Quanto à dominação global, embora a expressão “a história milenar da Rússia” esteja presente na Constituição russa, quatro anos de guerra catastrófica contra a Ucrânia não contribuíram significativamente para responder à questão de como o Kremlin pode criar uma nova visão de ordem mundial.

O renomado historiador do fascismo, Robin Griffin, acredita que o fascismo, assim como o comunismo, se apresentou como um movimento revolucionário. O Kremlin, no entanto, teme revoluções como a peste, e essa é a verdadeira razão pela qual não consegue parar de guerrear, exceto na Ucrânia, e talvez nos países bálticos, no Cáucaso e na Ásia Central, os remanescentes isolados do antigo império soviético. O culto à guerra, que exaltava Stalin como o comandante-em-chefe vitorioso, definiu o principal objetivo da política de memória de Putin: a reestalinização. O mito stalinista da guerra era e continua sendo sua “alma viva”, com a memória do sacrifício heroico na luta contra o nazismo e a libertação do mundo inteiro da “peste marrom”. Agora, o sucessor de Stalin tem o direito exclusivo de redesenhar o mapa da Europa, da Ásia e do mundo inteiro como bem entender.

*Pe. Stefano Caprio é docente de Ciências Eclesiásticas no Pontifício Instituto Oriental, com especialização em Estudos Russos. Entre outros, é autor do livro “Lo Czar di vetro. La Russia di Putin”. (Esse artigo publicado pela Agência AsiaNews)

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