Amoris laetitia, as experiências pastorais na Ásia e os desafios do mundo digital

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No segundo dia de trabalhos do encontro do Papa com os chefes das Igrejas Orientais e os presidentes das Conferências Episcopais, dez anos após a exortação pós-sinodal, o cardeal Neri Ferrão apresentou um testemunho da Índia e de outros locais do continente asiático. Vincenzo Rosito, vice-reitor do Pontifício Instituto Teológico João Paulo II: “as tecnologias digitais estão mudando os hábitos das famílias e a educação dos filhos”.

Alessandro Di Bussolo – Vatican News

As famílias hoje são “um mosaico complexo de realidades diversas, marcadas por alegrias, esperanças, dificuldades e feridas. A família não é apenas um lugar onde a Igreja leva o Evangelho. É também um lugar de onde o Evangelho ganha vida, de uma geração para outra, de uma família para outra e das famílias para a sociedade”. É a partir dessa análise que se inicia a intervenção do cardeal Filipe Neri Ferrão, arcebispo metropolita de Goa e Damão, que abriu o segundo dia de trabalhos do Encontro do Papa Leão XIV com os chefes das Igrejas Orientais e os presidentes das Conferências Episcopais, dez anos após a Amoris laetitia.

Tornar as famílias locais perenes da revelação de Deus

O cardeal indiano abordou o tema “As famílias hoje: realidade, beleza e desafios. Discernir os sinais dos tempos a partir da experiência das famílias e do compromisso da Igreja hoje” e convida os participantes deste encontro em estilo sinodal a se perguntarem, em seu discernimento: “que mudança o Espírito Santo pede à Igreja?”. E isso diz respeito “não apenas ao que fazemos pelas famílias, mas à maneira como as compreendemos, as acompanhamos e as tornamos protagonistas do Evangelho e lugares perenes da revelação de Deus”.

A polarização religiosa que afeta as famílias cristãs na Ásia

Em sua experiência como pastor na Ásia e, em particular, na Índia, o cardeal Neri Ferrão reconheceu que a realidade das famílias sofreu uma mudança em sua identidade, natureza e composição, com núcleos familiares menores, novas formas de convivência e casamentos inter-religiosos. As famílias tendem cada vez mais a se deslocar e muitas delas enfrentam insegurança econômica, pobreza, desemprego e incerteza quanto ao porvir. “As famílias cristãs em várias regiões da Índia e da Ásia — ressaltou o cardeal — são obrigadas a conviver com uma crescente polarização religiosa e hostilidade, o que torna cada vez mais difícil a expressão pública e a transmissão da fé”.

A beleza das famílias que se dedicam aos idosos e aos doentes

Há, porém, a beleza que essas famílias oferecem à Igreja, na atenção dedicada às crianças, aos idosos, aos doentes e às pessoas vulneráveis. Mesmo em meio à pobreza e à incerteza, explicou o cardeal, “nossas famílias continuam a criar espaços positivos de felicidade e esperança”. Após receberem a exortação Amoris laetitia, lembrou ele, as Igrejas na Índia e em toda a Ásia “passaram a ouvir as famílias, e essa escuta ‘moldou a maneira como caminhamos junto com elas’”. Agora consideramos a preparação para o casamento como o início de um caminho que dura toda a vida, oferecemos renovação espiritual e acompanhamento aos casais e às crianças, e continuamos a formar as famílias e os líderes leigos ao longo do tempo”.

Famílias que colaboram com a Igreja na missão

Agora é fundamental, na pastoral, passar “da missão voltada para as famílias à missão entre as famílias”, que não são apenas destinatárias de assistência, mas “colaboram com a Igreja na missão”. E Neri Ferrão concluiu contando uma experiência concreta de um padre que iniciou a pastoral familiar em sua paróquia não a partir de um programa, mas com uma visita a uma família com dificuldades latentes de colóquio entre os pais e entre eles e os filhos: “uma conversa e a disposição para ouvir”.

Rosito: a importância das relações na família e na Igreja

O segundo palestrante, Vincenzo Rosito, professor de História e Cultura das Instituições Familiares na Pontifícia Universidade Lateranense e vice-reitor do Pontifício Instituto Teológico João Paulo II para as Ciências do Matrimônio e da Família, também resumiu sua intervenção com algumas perguntas para o discernimento sinodal dos participantes. Em primeiro lugar, um convite, inspirado na reflexão do Papa Leão XIV na encíclica Magnifica humanitas: “Que cada um esteja atento às relações que constrói dentro de sua própria família e dentro da Igreja”. O professor Rosito ressaltou que “as práticas familiares nos ajudam a compreender como as igrejas e as famílias aprendem umas com as outras. Tanto a Igreja quanto a família, de fato, aprendem também por meio das práticas de sua vida cotidiana”.

As mudanças não são problemas, mas oportunidades

Portanto, a pergunta a se fazer como pai, mãe, teólogo ou pastor: “Sou capaz de reconhecer e expor aos outros pelo menos uma coisa nova que aprendi a fazer, ou a fazer de maneira diferente, nos últimos anos da minha vida familiar ou pastoral?”. Isso porque as mudanças na vida familiar “não são problemas – explicou Rosito – mas atividades humanas” e, portanto, como lembra Amoris laetitia, são uma oportunidade, processos concretos, “nos quais as pessoas e as famílias agem, reagem, aprendem e desenvolvem novos recursos”. “Pensemos, por exemplo — continuou o filósofo político —, em como o uso das novas tecnologias digitais está transformando os hábitos cotidianos das famílias e a educação dos filhos”.

Quais são as novas formas de ser família e Igreja?

A família e a Igreja, prosseguiu Rosito, “aprendem juntas nas transformações” e ele recorreu à imagem evangélica da fuga para o Egito de Jesus, José e Maria. Hoje, lembrou ele, “por meio da experiência das famílias refugiadas e migrantes, algumas comunidades cristãs estão se reconfigurando como ‘igrejas-refúgio’” para quem chega a uma nova terra ou está realizando uma longa viagem. O drama compartilhado por muitas famílias é o da violência: “A insegurança decorrente da violência social e política é uma realidade preocupante que muitas igrejas precisam lidar hoje, em sua vida cotidiana” e que pode “devorar até mesmo os laços familiares e as próprias relações eclesiais”. O sonho de José também é uma experiência dessa fuga: “Sonhar, imaginar novas formas para a Igreja — concluiu o relator — significa também renovar o que já fazemos. Imaginar a Igreja significa estar disposto a aprender uns com os outros, enquanto nos transformamos juntos, como igrejas e como famílias”. A pergunta final para o discernimento, portanto, é: “Do que precisamos, entre as luzes e as sombras do presente, para aprender e imaginar novas maneiras de ser família e novas maneiras de ser Igreja?”

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