Apesar da destruição causada pelo forte terremoto que, em 15 de agosto, atingiu a ilha indonésia de Flores, deixando cerca de 70 mortos, mais de mil feridos e 40 mil desabrigados, dom Paulus Budi Kleden destaca a grande solidariedade entre a população e a continuidade da vida de fé, apoiada também pelas condolências do Papa Leão XIV.
Fr. Kasmir Nema
Após o devastador terremoto que atingiu a ilha indonésia de Flores, de maioria católica, as casas estão reduzidas a escombros, mas as comunidades se recusam a permitir que o sofrimento rompa seus laços de fé e solidariedade. “Entre as ruínas, o amor deles não se quebrou”, afirma o arcebispo de Ende, dom Paulus Budi Kleden, poucos dias após o forte terremoto de magnitude 7.7 que atingiu a região nas primeiras horas do dia 15 de agosto e devastou grande parte da ilha. Foram registrados dezenas de feridos, milhares de desabrigados e graves danos a casas, igrejas, escolas e prédios públicos em diversos distritos da província de Nusa Tenggara Oriental. No entanto, em meio à dor e à incerteza, o arcebispo Kleden afirma ter testemunhado sinais extraordinários de compaixão e resiliência entre a população.
Aumenta o número de vítimas
O balanço atualizado é de cerca de 70 mortos, mais de mil feridos e 40 mil desabrigados. A regência de Manggarai teve o maior número de vítimas, seguida por Manggarai Leste, Nagekeo, Sikka e Ende, Manggarai Oeste e Ngada. Sikka registrou o maior número de desabrigados, com milhares de pessoas alojadas em abrigos temporários e centros de evacuação.
O terremoto ocorreu às 4h58, horário local, com epicentro localizado a cerca de 68 quilômetros a norte-noroeste de Ende. Embora as autoridades tenham posteriormente revogado o alerta de tsunami, o alarme provocou pânico generalizado, sobretudo entre as comunidades que vivem ao longo da costa norte de Flores. Após o terremoto principal, mais de 300 réplicas continuaram a abalar a ilha, alimentando os temores da população e impedindo muitas famílias de retornarem às casas. Em resposta ao acidente, o governo provincial de Nusa Tenggara Oriental declarou estado de emergência por duas semanas, de 15 a 28 de agosto.
O arcebispo entre os sobreviventes
O arcebispo Kleden estava em Roe, perto de Mbay, quando ocorreu o terremoto. Ele havia passado a noite ali após participar das comemorações do Jubileu de Prata de um confrade sacerdote e se preparava para celebrar uma missa de Crisma mais tarde naquele dia. “Estávamos todos em pânico”, lembrou ele. Após o alerta de tsunami, muitos moradores fugiram imediatamente para áreas mais elevadas. Em poucas horas, o arcebispo começou a visitar as famílias desabrigadas. Viajando de motocicleta pelas estradas danificadas, primeiro com um chefe de aldeia e depois com o motorista da diocese, ele encontrou pessoas que buscavam abrigo nas margens das estradas, nas florestas e em áreas abertas próximas a casas e escolas. Ele voltou às mesmas comunidades à tarde e novamente à noite.
A solidariedade entre os fiéis
Refletindo sobre o que viu, o arcebispo Kleden afirmou que duas imagens contrastantes ficaram profundamente gravadas na memória. “Em primeiro lugar, vi o pânico e o medo das pessoas, pois não sabiam quando poderiam voltar para lar. Foi doloroso testemunhar tudo isso”, disse ele, “mas também vi uma solidariedade extraordinária entre os fiéis”.
Um encontro em particular marcou o arcebispo. Enquanto se dirigia de Aeramo a Danga, ele avistou uma mãe em uma motocicleta com seus três filhos. Uma das crianças segurava um pequeno crucifixo. “Para mim, aquilo foi uma profunda expressão de fé”, disse ele, “aquela criança carregava o Senhor crucificado no meio de sua Via Sacra pessoal”.
Gratidão ao Papa
Enquanto as comunidades de Flores continuam a lamentar as perdas, o Papa Leão XIV também expressou solidariedade para com aqueles que foram atingidos pela tragédia, em um telegrama dirigido ao arcebispo Paulus Budi Kleden, no qual ofereceu orações pelos mortos, pelos feridos e por todos aqueles que participam das operações de resgate e assistência. A mensagem do Pontífice foi recebida com gratidão pelos católicos locais, muitos dos quais continuam a se reunir para rezar, apesar da destruição de igrejas e edifícios paroquiais.
Em mensagem aos fiéis, o arcebispo Kleden encorajou as pessoas a não cederem ao desespero: “como crentes, confiamos que não estamos sozinhos em uma situação como esta. Deus não nos abandonou. Com essa convicção, ajudamos a nós mesmos e ajudamos os outros. A solidariedade é fundamental em uma situação como esta”.
A ajuda da Igreja
Apesar da destruição generalizada, os padres de toda a arquidiocese de Ende continuaram a celebrar a missa ao ar livre, seguindo as instruções do arcebispo. Os fiéis, observou ele, continuaram se reunindo para a oração e o culto, mesmo vivendo em abrigos temporários. Segundo Kleden, padres, religiosos e leigos católicos entraram em ação imediatamente após o terremoto, antes mesmo de ser estabelecido um programa diocesano formal de emergência. “Essa é a Caritas em seu sentido mais verdadeiro”, afirmou.
A Arquidiocese de Ende, então, criou uma equipe de coordenação que trabalha em estreita colaboração com a Caritas Indonésia para organizar a assistência de emergência às comunidades afetadas. Uma das prioridades imediatas é oferecer apoio psicológico e recuperação do trauma, sobretudo às crianças e às famílias que continuam sentindo medo devido aos tremores secundários. Os líderes da Igreja também começaram a planejar o longo e difícil processo de reconstrução de casas, igrejas, escolas e infraestruturas públicas.
A magnitude da destruição é imenso. Até mesmo a residência do arcebispo sofreu danos estruturais significativos. “Estamos trabalhando em conjunto com o governo, as ONGs e todas as pessoas de boa vontade — afirmou o arcebispo — para reconstruir a partir dos escombros deixados pelo terremoto”. O arcebispo Kleden pediu, por fim, aos católicos de todo o mundo que continuem rezando pela população de Flores enquanto ela trilha seu caminho rumo à cura e à recuperação.

