Cabo Verde – Bino Branco – A voz do “Fundo Baxo”

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Faleceu a 30 de agosto de 2026, nos Estados Unidos, onde se encontrava em tratamento, o vocalista e compositor, Bino Branco. O seu nome fica ligado ao funaná, género musical cabo-verdiano, típico da ilha de Santiago e que o grupo Ferro Gaita, por ele cofundado, muito tem contribuído para a difusão – faz notar Filinto Elísio na sua crónica semanal e que em baixo disponibilizamos. A crónica põe em evidência a filosofia, a evolução e os maiores sucessos do grupo.

“Hoje, devido ao falecimento no passado dia 29 de agosto do compositor, instrumentista e vocalista Bino Branco, falaremos sobre os Ferro Gaita, uma das bandas mais emblemáticas e históricas de Cabo Verde. Bino Branco faleceu nos Estados Unidos, aos 56 anos de idade, vítima de doença oncológica.

Nascido em Cabo Verde e registado como Carlos Alberto Pereira Lopes, conhecido por Bino Branco. Participou em diversos grupos musicais juvenis, sendo o mais conhecido o Grupo Djassy, onde era o vocalista principal, sendo que, após a dissolução em 1991, o mesmo foi viver na ilha Brava, onde era presença assídua nas noites cabo-verdianas.

Este músico passa a ser identificado pela sua voz marcante e pela execução do ferrinho. A sua imagem tornou-se tão associada ao instrumento que é frequentemente utilizada como referência quando se fala do ferrinho na música cabo-verdiana.

Ferro Gaita

O conjunto Ferro Gaita foi fundado em 1996, por Bino Branco, Eduíno e Paulino Preto. O nome “Ferro Gaita” foram-no buscar a dois instrumentos tradicionais do arquipélago, verdadeiros pilares do funaná: respetivamente um pedaço de metal tocado com uma faca e uma espécie de acordeão. A estes decidiram juntar as potencialidades da bateria e do baixo, construindo assim as bases da sua aventura musical.

O grupo desempenhou um papel vital na revitalização da música tradicional da ilha de Santiago, injetando ritmos modernos numa herança secular, especialmente o género musical funaná.

Fundo Baxu

Em 1997, o lançamento do álbum de estreia Fundu Baxu gerou imenso impacto local, impulsionado pela icónica atuação no Festival da Gamboa, na cidade da Praia. Os dois anos seguintes levam-nos a partilhar a festa com as mais diversas plateias, em Cabo Verde, Portugal, França, Alemanha, Cuba, Senegal, Holanda e Espanha, entre outros países.

A partir de então, Bino Branco tornou-se a voz marcante e a presença eletrizante no comando do ferrinho, deixando um legado profundo na história moderna da música cabo-verdiana.

Rei di Tabanka

Em ’99, os Ferro Gaita cruzam o oceano para gravar o seu segundo álbum de originais – “Rei Di Tabanka” – nos Estados Unidos. Levando mais distante o seu talento, a sua vontade e capacidade de revisitarem estilos tradicionais, conferindo-lhes novas roupagens, sem os adulterarem, os Ferro Gaita aventuram-se pelos territórios do batuque, da tabanka, do finaçon. Introduzem na sua música novos instrumentos e convocam o talento de uma das lendas vivas da música cabo-verdiana, Nha Nácia, então com 75 anos de idade, para participar no disco.

Um novo sucesso comercial, trá-los de volta aos palcos internacionais, com destaque para uma alargada tournée europeia, ao lado de grandes nomes da música cabo-verdiana, como Cesária Évora, Ildo Lobo, Luís Morais e Tito Paris, entre outros.

O disco sucessor, “Bandêra Liberdadi”, editado em finais de 2003, é o primeiro trabalho do grupo gravado em Cabo Verde. É um trabalho onde fica bem patente a maturidade dos Ferro Gaita e que ilustra na perfeição o sentimento – a “Nós Cultura” – de uma terra, de um povo, que tão bem sabe cantar a sua alma. Seja ela inebriada pelos ritmos ou embalada pela saudade. Ao vivo, os espetáculos do grupo transbordam de toda a emoção, sensualidade e visceralidade da música cabo-verdiana

Batuque e Tabanka

Além do funaná, a banda explora outros géneros de raiz cabo-verdiana, tais como o batuque e a tabanka. Tornaram-se uma presença habitual no circuito global dos festivais e fizerem concertos nos países de forte comunidade cabo-verdiana, inscrevendo a música cabo-verdiana nos palcos do mundo. 

Bino Branco gravou sete álbuns originais com o grupo Ferro Gaita, participou em colaborações com diversos artistas cabo-verdianos, gravou um álbum a solo e teve um papel fundamental na promoção da música de Cabo Verde.

Medalhas de reconhecimento 

Em 2007, os Ferro Gaita receberam a Medalha Nacional de Mérito Cultural. Em 2024, o grupo assinou com o Ministério da Cultura um protocolo de apoio à preservação do funaná enquanto património imaterial nacional. A Bino Branco, que em vida recusou sempre o título de embaixador do funaná, fica reservado esse lugar, incontestável, na memória do género que ajudou a manter vivo.”

Por Filinto Elísio – para o Programa “África em Clave Cultural: personagens e eventos” de 3/8/26

Fonte

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