Cardeal Steiner alerta para a urgência da Ecologia Integral e da escuta comunitária

0

O papel da Igreja Católica na geopolítica socioambiental e a urgência de uma mudança de postura diante da crise climática foram os grandes eixos trazidos pelo arcebispo de Manaus, cardeal Leonardo Steiner, ao relatar os desdobramentos da sua recente presença em Roma para participar do Consistório.

Silvonei José – Vatican News

Em uma longa conversa com a Rádio Vaticano – Vatican News, que conectou o Vaticano às realidades mais profundas das comunidades ribeirinhas e indígenas da Amazônia, o cardeal Leonardo Steiner destacou que o destino do planeta depende, fundamentalmente, de passarmos de uma lógica de “exploração” para uma cultura de “cuidado”.

O Consistório em Roma: um mosaico da Igreja gobal

A vivência no Consistório – realizado nos dias 26 e 27 de junho, no Vaticano -, ao lado do Papa e de cardeais do mundo inteiro, foi classificada por dom Leonardo como um profundo “momento de graça”. A reunião episcopal não foi apenas um ato administrativo, mas um espaço de intensa partilha em que líderes religiosos de realidades extremas — da Europa à Oceania, passando pela Ásia e pelas Américas — puderam colocar em comum as suas dores e esperanças.

Tendo como pano de fundo a encíclica Magnifica humanitas, os debates em plenária e os trabalhos em grupos permitiram que os cardeais se conhecessem melhor e compreendessem como a Igreja se insere em diferentes culturas. O próprio dom Leonardo Steiner personificou, naquele espaço, o rosto e a voz da Amazônia, levando aos seus pares a complexidade e a riqueza da maior floresta tropical do mundo.



Cardeal Steiner

O ponto de inflexão da Ecologia Integral

Apesar do saldo positivo do encontro romano, o arcebispo de Manaus fez uma autocrítica fraterna sobre os temas debatidos. Para ele, o Consistório poderia ter dado um passo além no aprofundamento da ecologia integral, um tema que considera crucial e inadiável.

Relembrando a sua participação ativa na Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP) realizada em Belém, dom Leonardo alertou que a humanidade caminha a passos largos para um impasse ambiental sem precedentes. A resposta para esse dilema, segundo ele, está no resgate e na aplicação prática da encíclica Laudato si’, escrita pelo Papa Francisco, que propõe duas dinâmicas vitais inspiradas no livro do Gênesis:

Cultivo: a ação humana que vai ao encontro da criação, promovendo o desenvolvimento sem destruição.

Cuidado: a postura de zelo que reconhece a natureza não como um objeto de dominação, mas como uma “lar comum” e, fundamentalmente, como uma irmã.

“A lar Comum é como um barco. Você precisa cuidar dele e ir trocando as peças devagar. Mas você não pode tirar uma tábua do barco para fazer fogo. Se você tirar mais uma para fazer fogo, daqui a pouco você afunda e não tem mais o barco.” — Metáfora amazônica compartilhada por dom Leonardo Steiner.

O impasse social: povos originários e a ganância mineral

A crise ecológica não se limita ao clima; ela é, fundamentalmente, uma crise social e humana. Ao contextualizar o cenário brasileiro e amazônico, o cardeal alertou que o atual modelo econômico predatório gerou um “impasse” que sufoca as populações mais vulneráveis da região.

As pressões provocadas pela busca desenfreada por minerais raros e os resquícios da exploração petrolífera afetam diretamente: os povos indígenas, que veem seus territórios tradicionais invadidos e degradados; as comunidades quilombolas, que lutam pela preservação de sua ancestralidade e de suas terras; os mais pobres, que sofrem primeiro e com maior intensidade as consequências da degradação ambiental.

De acordo com o purpurado, ignorar a urgência de proteger esses povos e os seus ecossistemas tornará o porvir da região — e, por consequência, o equilíbrio climático do planeta — inviável.

Sinodalidade na prática: a voz que vem da base

Para enfrentar esses desafios, a receita de Dom Leonardo Steiner não vem de cima para baixo, mas sim da escuta atenta das bases. O cardeal defende que a força da Igreja na Amazônia reside na comunidade. É na vida comunitária que o “povo de Deus” se articula, se apoia e torna o Evangelho uma realidade palpável.

Essa visão se traduz no processo de sinodalidade (caminhar juntos) que a Arquidiocese de Manaus constrói há cerca de 30 anos. Na atual fase de preparação para a próxima Assembleia Arquidiocesana, a Igreja local implementou um método de escuta capilarizado que envolve: a criação e distribuição de pequenos Círculos Bíblicos enviados a mais de mil comunidades da região; o debate interno dessas comunidades que, à luz da Palavra de Deus, analisam a sua própria realidade e enviam suas demandas para a coordenação; um processo circular de “ir e vir”. As sínteses são refeitas, reambientadas e reenviadas às bases para nova validação, garantindo que o documento final seja o espelho fiel do povo.

Esse processo de proximidade e as visitas pastorais têm revelado as reais urgências locais, que vão desde os anseios por justiça social até necessidades pastorais práticas, como a carência e o clamor por formação de novos catequistas. Ao dar voz a quem está na ponta, a Igreja da Amazônia consolida um modelo que integra fé, defesa da vida e preservação ambiental, mostrando que o caminho para salvar a “lar comum” começa ouvindo quem cuida dela todos os dias.

Eis a íntegra da conversa com dom Leonardo:

Fonte

Escreva abaixo seu comentário.

Por favor escreva um comentário
Por favor insira o seu nome aqui