Colômbia: o papel da Igreja para que a população retome confiança

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O testemunho da Ir. Arelis Gaviria Montoya, que trabalha para a Conferência Episcopal Colombiana: “a Igreja criou espaços seguros e estáveis. Diversas paróquias tornaram-se lugares de acolhida. Continuamos trabalhando, de modo particular, com os jovens, através de grupos e atividades pastorais”. Leia ainda o testemunho de Pe. Angelo Casadei e a análise de Luís Alfredo Somoza.

Guglielmo Gallone – Cidade do Vaticano

“Uma coisa são as imagens apresentadas nos noticiários, mas outra é a realidade que persiste, após os ataques: crianças órfãs, idosos solitários, jovens obrigados a deixar sua terra natal para sobreviver. É nesta realidade que a Igreja na Colômbia atua”. Assim começa a falar a Irmã Arelis Gaviria Montoya, em Bogotá, capital de um país que, dez anos após o processo de paz entre o governo central e as milícias rebeldes, ainda luta para achar estabilidade.

Dez anos após o Acordo de Paz

Desde a década de 1980, – marcada pelo narcotráfico de Pablo Escobar, carros-bomba e a guerra entre cartéis, guerrilhas e o exército, – o país continua a sofrer, por outro longo período de conflito armado interno, que afetando, sobretudo, as áreas rurais. Um marco histórico ocorreu há dez anos, em 2016, com o Acordo de Paz entre o governo colombiano e as FARC, assinado após mais de cinquenta anos de guerra. O acordo havia gerado esperança de uma paz definitiva, mas, nos anos seguintes, o conflito mudou ao invés de desaparecer. Ao lado de grupos dissidentes das FARC, novas organizações armadas, ligadas ao narcotráfico, cresceram, enquanto, em muitas regiões, a presença do Estado permanece frágil. A campanha eleitoral para as eleições de 31 de maio, continua em clima de alta tensão, com intimidações e ataques, que recordam algumas das páginas mais difíceis da história colombiana. Os dados comprovam: com sete milhões de pessoas, obrigadas a deixar suas casas, a Colômbia agora é o quinto país com o maior número de deslocados internos no mundo. Nos primeiros meses de 2025, o deslocamento aumentou para 462%, em comparação com o ano anterior. As áreas mais complicadas, no momento, segundo a Irmã Arelis, são Catatumbo, Nariño, Tumaco, Pasto, Popayán e toda a região de Cauca em geral: “Estes territórios são marcados pela presença de grupos armados, que continuam a praticar atos violentos e criminosos. Cauca, em particular, tornou-se um centro de grande preocupação para toda a Igreja no país. Os Bispos destas dioceses — como Dom Omar Sánchez, em Popayán, Dom Luís Fernando, em Cali, Dom Alfonso García, em Guapi, e outros — estão passando por um momento muito crítico, mas também de grande solidariedade eclesial”.

Igreja na linha de frente

Por isso, a Igreja está na linha de frente na criação de espaços seguros e estáveis, como declara a Irmã Arelis: “Trabalho para a Conferência Episcopal da Colômbia e acompanho o departamento dedicado aos leigos. Cuidamos das crianças, jovens, idosos e movimentos eclesiais de todo o país. Nos últimos anos, notei que muitas paróquias se transformaram em centros de acolhida. Trabalhamos, sobretudo, com os jovens, por meio de grupos juvenis e atividades pastorais. Criamos espaços para compartilhar refeições, conviver, praticar esportes, rezar e realizar encontros comunitários, que ajudam as pessoas a desviar seus pensamentos em situações traumáticas e a retomar confiança e senso de pertença, a fim de que, sobretudo, os jovens possam voltar a acreditar no porvir”.

Destino frágil dos jovens

É precisamente ao setor juvenil que o país volta a sua atenção. Na Colômbia, quase um, em cada quatro residentes, tem menos de 25 anos; por isso, os problemas da juventude se tornaram um dos principais desafios sociais e políticos. De acordo com os dados da OIT e do Banco Mundial, o desemprego juvenil no país permanece estável, acima de 16%. Em muitas áreas rurais e periféricas, milhares de jovens não estudam e tampouco trabalham, como afirma ainda a Irmã Arelis: “É verdade, muitos jovens não querem mais cultivar a terra ou trabalhar no campo. Em muitas áreas, o acesso à educação e às oportunidades econômicas é limitado. Por isso, alguns jovens optam pelo ganho fácil de dinheiro com o tráfico de drogas. Um novo fenômeno também está crescendo na Colômbia: muitos jovens querem se tornar “YouTubers” ou “TikTokers”, então, deixam de estudar ou trabalhar. Outros têm o ‘sonho americano’ e querem deixar o país. Exemplo disso é o fato de que a relação entre os jovens e a política não é muito forte; muitos preferem ficar à margem e se mobilizar, principalmente, durante protestos ou tensões sociais”.

Aumento de desconfiança na política

Segundo o Prof. Alfredo Luís Somoza, docente de Desenvolvimento e Cooperação na América Latina, junto à Universidade Católica, há muita desconfiança na política, o que pode estar ligado ao fato de que “o Estado colombiano nunca conseguiu gerir um processo democrático sem vítimas: infelizmente, todas as campanhas eleitorais deixam mortos, e o Estado colombiano não consegue proteger os que sequer tiveram a coragem de se candidatar. A abordagem de tais forças ao processo eleitoral é apostar no caos, do qual tiram proveito para atacar opositores inconvenientes, enviando sinais e, sobretudo, criando um clima de intimidação entre os eleitores, em particular nas áreas onde tais grupos são enraizados”. As próximas eleições, que se realizarão em 31 de maio, não serão uma exceção, como explica ainda o Prof. Somoza: “Porque realizam-se em um momento em que o conflito interno na Colômbia mudou definitivamente. As justificativas ideológicas, que o acompanharam durante quase 50 anos, desapareceram e hoje ele pode ser resumido como conflito pelo controle territorial, para proteger as economias criminosas”.

Caso único na América do Sul

Desta forma, a Colômbia permanece o único país latino-americano com tantos focos de tensão interna, incapaz de pôr fim, definitivamente, ao conflito armado. No entanto, esta é uma nação moderna e dinâmica, integrada na economia global e capaz de crescer em setores como o turismo e a agricultura. Logo, talvez, no âmbito de tais ambiguidades, podem surgir sinais de esperança. As eleições de 31 de maio são vistas, por muitos, como um possível passo para o fortalecimento das instituições democráticas e a busca de novos caminhos para o colóquio, como diz o Padre Angelo Casadei, missionário na Colômbia há vinte anos: “Por trás de tanta violência há muitas pessoas que desejam a paz. Na Colômbia não há só narcotráfico e tampouco só violência. Claro, há muita violência! Em 2025, houve mais de 600 atentados. No entanto, além de tudo isso, há também muitas pessoas que almejam a paz, vivem na esperança e olham para o porvir”. O Padre Angelo é missionário da Consolata e pároco de Solano Caquetá, há nove anos, coração da floresta amazônica, perto do grande parque Chiribiquete. Ele acrescenta: “Vivendo com as pessoas, caminhando pelas ruas desta pequena cidade, que sofreu tempos terríveis de extrema violência, na década de 1980, a gente sente a autenticidade do povo. Talvez, os interesses econômicos globais estejam por detrás da onda de violência, mas acredito que a grande maioria da população colombiana está repleta de esperança, anseia por uma paz duradoura e possui grandes valores. Como missionários, tentamos destacar esses valores para que o bem prevaleça sobre o mal. Sabemos bem que a morte sempre ganha mais destaque do que a vida. Mas, neste país, a vida certamente prevalece sobre a morte, graças a Deus, senão já estaria morta”.

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