O cenário da Igreja Católica e suas respostas diante de um mundo fragmentado foram os temas centrais da conversa com o cardeal Paulo Cezar, arcebispo de Brasília. O purpurado detalhou à Rádio Vaticano – Vatican News, a importância do segundo Consistório convocado pelo Papa, que reúne membros do Colégio cardinalício para discutir, refletir e aprofundar temas urgentes da atualidade.
Silvonei José – Vatican News
Na conversa, ao ser questionado sobre o significado prático de Consistório, dom Paulo Cezar explicou que se trata fundamentalmente da reunião dos cardeais com o Pontífice. Ele relembrou que a necessidade dessa maior abertura foi um pleito dos próprios cardeais — inclusive dele mesmo — durante as reuniões plenárias que antecederam o último Conclave.
“A necessidade do Papa escutar o Colégio não tira a autonomia do Papa, não tira a autonomia do seu governo ou de suas decisões; pelo contrário, eu acho que fortalece”, afirmou o arcebispo.
Segundo dom Paulo, o colégio cardinalício espelha a própria Igreja global, sendo composto por bispos do mundo inteiro que trazem a Roma não apenas as alegrias, mas também os profundos desafios de suas respectivas regiões. Sob a metodologia do encontro, seguindo a metodologia sinodal, os cardeais serão divididos em 20 grupos de trabalho, operando sob estrita confidencialidade para garantir um ambiente de colóquio fraterno e focado no discernimento coletivo através da escuta atenta.
Desafios globais: tensões, divisões e a busca pela paz
A pauta do encontro toca diretamente nas feridas geopolíticas e sociais do mundo contemporâneo. Dom Paulo Cezar ressaltou duas perguntas cruciais que norteiam as reflexões dos cardeais: como as tensões, divisões e conflitos que assolam o mundo afetam a vida das igrejas e dos povos? Que linguagens, atitudes e práticas podem ajudar a construir a reconciliação, a convivência e a paz?
Analisando o panorama internacional, o cardeal apontou a ressurgência de um cenário de alta polarização e o retorno de tensões bélicas e armamentistas que muitos acreditavam superadas com o fim do modelo bipolar do século passado. Citando os atritos envolvendo potências como Estados Unidos, China, Rússia e as crises no Oriente Médio (como o caso do Irã), ele destacou o impacto direto dessas disputas na vida cotidiana dos cidadãos, influenciando desde a economia e o custo dos combustíveis até a estabilidade social.
No âmbito nacional, o diagnóstico não é diferente:
Sociedade polarizada: o arcebispo caracterizou o Brasil atual como uma sociedade fortemente dividida, onde a polarização se radicalizou.
O Diferente como riqueza: para dom Paulo, pensar diferente não deveria originar conflitos. “Pensar diferente deveria ser uma riqueza na vida de uma sociedade”, argumentou, reforçando que o papel da Igreja é mostrar que a divergência de ideias não pode descambar para a inimizade ou o ódio.
Igreja como construtora de pontes: diante desse tecido social esgarçado, a missão eclesial se consolida na proposta de uma “cultura da paz” e na promoção da reconciliação, atuando ativamente como um instrumento de colóquio.
Anunciar o Evangelho na Sociedade Moderna
Outro ponto alto das discussões gira em torno de uma questão essencial: “Em que mundo somos chamados a anunciar o Evangelho?”
Embora o contexto seja de incertezas e de uma rápida evolução tecnológica — onde a inteligência artificial desafia as noções tradicionais de racionalidade —, o cardeal enxerga um forte paradoxo. No Brasil, e especificamente em Brasília, há uma “busca religiosa muito grande” e um anseio profundo por sentido existencial em uma realidade onde tudo se mostra efêmero.
Como reflexo disso, dom Paulo celebrou o crescimento global no número de batizados de adultos. Para ele, esse fenômeno demonstra que, mesmo em meio às crises globais e às vésperas de períodos eleitorais tensos no cenário doméstico, a fé desponta para muitos como um porto seguro, capaz de ancorar a existência humana.
A agenda do Consistório encerra-se no final da tarde de sábado, com um jantar de confraternização dos cardeais com o Santo Padre. Para o Arcebispo de Brasília, o evento reafirma o compromisso de levar uma palavra de esperança e ações concretas de reconciliação a um mundo que sofre.
Eis a íntegra da conversa:

