Dom Berardi: a guerra nos pegou de surpresa. Precisamos de colóquio para a paz

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Em entrevista à mídia vaticana, o vigário apostólico da Arábia do Norte comenta o encontro da Conferência dos Bispos Latinos das Regiões Árabes e o encontro dos bispos com o Papa. Em nossas comunidades e denominações religiosas, “somos todos diferentes, mas hoje unidos pela guerra, infelizmente. Nossa única arma neste momento é a oração.”

Roberto Paglialonga – Vatican News

“O encontro com o Papa foi muito relevante para nós.” As palavras e a expressão de dom Aldo Berardi, O.SS.T., vigário apostólico da Arábia do Norte, ainda ressoam com a felicidade e a emoção da audiência que teve com Leão XIV na quinta-feira, 3 de setembro, no âmbito da Conferência dos Bispos Latinos das Regiões Árabes (CELRA), realizada esta semana em Roma. Os países sob a jurisdição do Vicariato — Bahrein, Kuwait, Catar e Arábia Saudita — estão no centro do conflito que assola a região e opõe, em particular, os EUA (e Israel) ao Irã, frequentemente alvo de ataques e incursões devido às bases estadunidenses em diversos territórios. “Uma guerra fulminante que nos pegou de surpresa”, admite ele, “também porque ninguém poderia imaginar que mísseis e drones caíssem também sore os Estados do Golfo.”

Uma mensagem de esperança do Papa

A CELRA — que reúne os episcopados de rito latino do Oriente Médio e da África Oriental — é “uma entidade um tanto especial”, reconheceu Berardi em entrevista à mídia vaticana, “porque somos todos diferentes, mas neste momento nos encontramos unidos pela guerra” de alguma forma. Os bispos apresentaram ao Papa um relato detalhado da situação, particularmente em relação ao conflito e todas as questões relacionadas a ele, recebendo do Pontífice “uma mensagem de esperança para o que fazemos nas comunidades cristãs e católicas e para nossas atividades a favor do colóquio inter-religioso e da busca da paz”. Não se deve esquecer, em particular, que os territórios do Vicariato estão localizados em “países islâmicos, cada um com suas particularidades”, onde o aproveitamento máximo dos instrumentos do colóquio é especialmente valioso.

Solidariedade e colóquio

O Santo Padre nos encorajou então a “manter a solidariedade”, perseverar na “oração pela paz e fazer todo o possível em nossas relações públicas para evitar todo tipo de ruptura”. Além disso, Leão XIV disse na audiência: “dialogar não significa renunciar à própria identidade, mas vivê-la sem medo do encontro. Onde a guerra semeou desconfiança, cada gesto de consideração, colaboração e respeito pode se tornar um passo rumo à reconciliação e à paz”. Este colóquio, que o Vicariato está buscando, estende-se tanto às instituições, como governos e vários ministros, quanto a outras confissões religiosas. Há “muitas comunidades”, diz ele, “cristãos latinos, cristãos orientais, sunitas, xiitas, hinduístas e alguns budistas. É necessária a disposição para ouvir a todos”. E mesmo dentro de cada país, em alguns “há maior facilidade, como no Bahrein, que tem uma longa tradição nesse sentido”.

A arma da oração

Nesta fase, porém, é difícil vislumbrar qualquer sinal de um fim próximo para o conflito. Nos últimos dias, testemunhamos uma escalada da violência, com ataques lançados pelos EUA após mais de um mês de trégua, aos quais se seguiram respostas dos pasdaran iranianos no Kuwait, Bahrein e Jordânia. “Nossa única arma aqui é a oração”, reitera o vigário apostólico, “e uma presença genuína onde quer que estejamos”. Essas atitudes estão evidentemente dando frutos. “Gostaria de dar um exemplo: recentemente, o príncipe herdeiro do Bahrein nos visitou em nossa igreja, acompanhado por sua escolta, para nos pedir que deixássemos a paróquia aberta como um lugar de refúgio espiritual, onde as pessoas possam ingressar e rezar.” Um sinal ao qual “nossa comunidade — exceto nos primeiros dias do conflito — respondeu continuando a realizar suas atividades, celebrando missas e administrando os sacramentos.”

O impacto da guerra na vida cotidiana

É claro que as hostilidades “nos apresentam uma geopolítica em metamorfose”, alerta Berardi, “e isso também incide em nossa presença” e na vida de todos os dias. Há dois milhões de católicos no Vicariato, “mas já éramos uma igreja de migrantes, que chegam principalmente por motivos profissionais”, e agora a guerra “causou diversos problemas econômicos, com o Estreito de Ormuz fechado e as mercadorias impossibilitadas de chegar aos seus destinos: muitos perderam seus empregos e tiveram que partir, outros decidiram voltar para lar. As escolas também ficaram fechadas por um período, e as crianças só puderam estudar on-line”. Agora, porém, quase tudo recomeçou: “Reabrimos nossos centros de solidariedade, retomamos as atividades da Caritas e acolhemos os mais pobres, que estão aumentando os seus pedidos de ajuda e assistência durante este período”. Um convite para “tornar Cristo presente” e “semear” também foi feito por Leão XIV na audiência: “No coração de sociedades marcadas por conflitos e divisões, que suas comunidades mostrem que é possível viver, servir e ter esperança juntos. Através de paróquias, escolas, hospitais e obras de caridade, tornem o Evangelho concreto, acolhendo, ouvindo e apoiando os necessitados”, disse ele. Ele também exortou “a não perder de vista a essência da missão, ou seja, o anúncio do Evangelho”.

As relíquias dos santos na catedral do Bahrein

O aspecto espiritual é essencial, enfatiza o vigário, porque “quem vem à igreja vem para rezar e se sente em família: as pessoas sentem que é o único lugar onde podem se achar e se sentir acolhidas”. Há algumas semanas, os fiéis também podem achar as relíquias de muitos santos na Catedral de Nossa Senhora da Arábia, no Bahrein, que Berardi conseguiu recuperar, principalmente na Itália e na França. “Temos Santo Arethas de Najran [ele e seus companheiros foram martirizados em 523, permanecendo fiéis a Cristo diante da perseguição e da morte, um episódio considerado um capítulo fundamental na história cristã da Península Arábica – nota do editor], cuja relíquia vem do Monte Atos e a recebemos do patriarca ortodoxo de Constantinopla; depois – entre outros – as relíquias de São Tomé e São Sebastião, importantes para os indianos; as dos mártires de Trier, que morreram em 287; de São João de Matha, fundador da Ordem da Santíssima Trindade; de São Francisco e São João Bosco; além de outros do Líbano, como São Charbel. Em breve”, anuncia ele, “teremos também os jovens santos, queridos pela juventude de hoje, Carlos Acutis e Piergiorgio Frassati.” Santos e mártires são “para nós, irmãos mais velhos, que viveram o Evangelho em seu tempo, de acordo com a época, enquanto nós o vivemos de forma diferente no nosso.” “Observamos que há uma continuidade no testemunho de fé”, conclui o vigário apostólico.

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