O presidente da Conferência Episcopal Venezuelana descreve como “muito significativo” o encontro do Episcopado com o Papa Leão XIV na segunda-feira, 4 de maio. Em entrevista à imprensa vaticana, o prelado destaca o compromisso da Igreja com a unidade, a proximidade com o povo e a construção da paz e da justiça.
Sebastián Sansón Ferrari – Vatican News
A visita da presidência da Conferência Episcopal Venezuelana ao Vaticano marcou um momento de especial relevância para a Igreja do país sul-americano. Nesse contexto, o encontro com o Papa Leão XIV permitiu compartilhar em primeira mão a realidade venezuelana e fortalecer a comunhão eclesial.
Dom Jesús González de Zárate, arcebispo de Valência e presidente do episcopado, destaca a proximidade e o conhecimento que o Pontífice tem da Venezuela. O encontro serviu não apenas para expor os desafios que o povo enfrenta, mas também para expor o trabalho pastoral da Igreja e suas linhas de ação para os próximos anos.
Nesse horizonte, a sinodalidade, a unidade e a esperança se apresentam como eixos centrais. A recente canonização dos primeiros santos venezuelanos e o impulso do Papa para construir caminhos de justiça e paz reforçam a missão da Igreja de acompanhar o povo em meio às suas dificuldades.
Entrevista com o presidente da Conferência Episcopal Venezuelana (CEV)
A visita aos nossos estúdios ocorre em uma semana muito relevante para o episcopado venezuelano, pois tiveram a graça de se reunir com o Santo Padre Leão XIV. Como viveram esse encontro?
Foi um momento repleto de significado, pois nos ajuda a crescer na comunhão com a Igreja Universal, com o ministério do Santo Padre Leão. É a primeira vez que, como presidência da Conferência Episcopal, temos a oportunidade de nos achar com ele em comunidade. Anteriormente, pudemos vê-lo por ocasião das canonizações, mas esta visita, que é uma iniciativa que se repete ao longo do tempo, permite que a presidência da Conferência Episcopal, periodicamente, pelo menos uma vez a cada mandato, venha compartilhar com o Santo Padre e seus colaboradores as alegrias e também as preocupações dos bispos da Venezuela e também do povo venezuelano.
Foi muito bonito ver como o Papa conhece bem a situação da Venezuela; ele interveio nesses momentos para priorizar o bem-estar do povo venezuelano, o bem comum, para que reine a justiça, a liberdade e a verdade em meio às situações que nos cabe viver.
Também foi uma oportunidade para que pudéssemos compartilhar com ele o dia a dia, o cotidiano da atividade pastoral da Conferência Episcopal e dos bispos da Venezuela. Saímos muito satisfeitos desta visita pela atenção, pela proximidade e também pelas perguntas que o Santo Padre nos fez, o que indica que ele está atento às nossas situações.
Quais foram os principais temas, os sonhos, as alegrias e as dores que os senhores abordaram?
Cada um dos bispos interveio apresentando uma realidade. Depois de agradecer por suas intervenções e também pela canonização, foi feita uma apresentação completa do panorama político, social e econômico do nosso país, com todas as realidades que isso implica: uma pobreza generalizada, falhas importantes nos serviços públicos, as aspirações de democratização que o povo venezuelano vive, particularmente após os acontecimentos de 3 de janeiro, que implicam uma nova etapa na vida política do nosso país.
Também a situação da migração de milhões de venezuelanos, situações dolorosas como a dos presos políticos e os processos que se geraram nos últimos meses em busca, como eu dizia antes, da democratização do país. Da mesma forma, a atividade da Igreja voltada para a construção da sinodalidade, a experiência de comunhão entre os bispos, o que significou para nós a vivência do jubileu da esperança, um elemento relevante devido às dificuldades que nos cabe viver.
Em particular, o impacto que a canonização dos primeiros santos do país tem na vida cotidiana dos venezuelanos. Também compartilhamos com ele os programas que estamos levando adiante e que serão incluídos no plano trienal da conferência episcopal.
O que o senhor poderia nos adiantar sobre esse plano trienal para o caminho da Igreja na Venezuela?
O plano trienal está centrado fundamentalmente no tema da sinodalidade. Nesse sentido, acompanhamos a dinâmica geral da Igreja, inspirados na passagem bíblica de Emaús, convidando todas as instâncias da vida eclesial a caminhar juntas, reforçando os organismos e instâncias de comunhão eclesial, formando também para a sinodalidade.
Os serviços da conferência episcopal em favor das dioceses contribuem para esse tipo de formação, reforçando reuniões periódicas com os vigários pastorais e com instâncias de representação nacional da vida religiosa e também do laicato.
Tudo o que diz respeito à atenção às necessidades do povo venezuelano é fundamental. Uma das realidades que se destacaram nos últimos tempos é a necessidade de estarmos próximos do nosso povo. Caminhar juntos significa também acompanhar as alegrias, as tristezas, as dores, os sofrimentos e as inquietudes do povo venezuelano, respondendo às suas aspirações na construção de uma sociedade conforme a vontade de Deus.
O Papa convidou a trilhar caminhos de justiça e paz. Como essas palavras tocaram o coração dos venezuelanos?
Elas são uma demonstração da proximidade do Santo Padre. Pensar que os acontecimentos ocorreram no dia 3 e que, no dia seguinte, uma voz tão autorizada já fizesse esse apelo foi recebido pelos bispos, padres, religiosos e todo o povo fiel da Venezuela como um sinal de proximidade.
Poucos dias depois, em seu encontro com o corpo diplomático acreditado junto à Santa Sé, ele voltou a abordar a situação do nosso país. Vimos nisso um grande sinal de proximidade, pois representa também as aspirações do nosso povo. Nosso povo tem desejado resolver seus problemas em um clima de paz, no respeito à verdade e à justiça.
Estamos em uma nova etapa política na qual devemos priorizar valores como a justiça, a paz, a verdade, a tolerância, o respeito mútuo e a dignidade da pessoa, que são próprios do ensinamento da Igreja.
Que reflexão lhe suscita o primeiro aniversário do pontificado de Leão XIV?
Acredito que a Igreja na América Latina deva estar muito grata por termos recebido um Papa próximo, que conhece profundamente a nossa realidade. Assim como o Papa Francisco era claramente latino-americano, também sentimos essa proximidade no Papa Leão, embora sua origem seja norte-americana, pois sua vida missionária se desenvolveu em nosso continente.
Em seus ensinamentos, sua linguagem e sua atitude refletem a maneira de sentir da Igreja na América Latina, que tem uma grande experiência a compartilhar com a Igreja universal. Temas como a sinodalidade encontram aqui uma ampla tradição, como demonstra a experiência do Conselho Episcopal Latino-Americano e das conferências gerais do episcopado.
Também o tema da missão, que ele voltou a colocar no centro, está em continuidade com processos eclesiais anteriores. Há uma continuidade no ensinamento dos pontífices, cada um com seu próprio estilo. Valorizamos no Papa sua capacidade de escuta e sua abertura.
Houve algum apelo especial do Papa durante o encontro?
Os últimos Papas sempre insistiram, diante do episcopado, em nos chamar à unidade. Uma forma de mostrar ao povo venezuelano essa necessidade de encontro, de reconciliação, de superação das dificuldades, é que nós mesmos, como bispos, vivamos essa dinâmica, e creio que temos sido coerentes com o apelo que já desde o Papa João Paulo II nos era feito para estarmos muito unidos e muito próximos das pessoas.
É o apelo que também nesta ocasião o Papa nos reiterou, juntamente com sua oferta de orações e suas bênçãos para o povo venezuelano.
Para concluir, que mensagem o senhor deixa para a Igreja na Venezuela e na América Latina?
Convido a todos a terem a Venezuela presente em suas orações e a ajudarem, cada um de acordo com suas possibilidades, a responder às realidades que o país está vivendo.
Os grandes problemas devem ser enfrentados, em primeiro lugar, pelos venezuelanos, mas precisamos também do apoio, do afeto e da proximidade de outros povos.
O povo clama por participar dos processos de metamorfose, inclusive por meio de canais institucionais como o voto, e esse acompanhamento internacional tem sido muito significativo.
Antes de terminar, um gesto simbólico: o presente para o Papa.
Sim, foram dois presentes. Um, uma casula com a imagem da Virgem de Coromoto, padroeira da Venezuela, que expressa a profunda devoção mariana do povo.
E o outro, uma camiseta da seleção venezuelana de beisebol, que faz parte da nossa identidade. Ver o Papa com uma camiseta que diz “Venezuela” é uma mensagem clara de proximidade e afeto para com o nosso país.


